Aurora
Fiquei andando de um lado para o outro no meu quarto por um bom tempo depois do meu encontro com aquele homem assustador. Imagino que seja Ruslan — o homem que me comprou — mas, quem sabe? Talvez existam outras pessoas vivendo nesta mansão gótica em preto e branco.
Mas não. No fundo, eu sei que era ele. Sua presença gritava: — dono da casa — Ele parecia tão bravo quando mandou que eu voltasse para o meu quarto... Mas por que me compraria? Por que faria um acordo com meu pai apenas para me ignorar em seguida?
A cicatriz em seu rosto era grotesca — admito. Servia apenas para torná-lo ainda mais intimidador. Mas, mesmo com o medo, estou cheia de perguntas. Como ele a conseguiu? Por que me quer aqui? E por que, depois de tudo isso, ainda não veio falar comigo?
Quero esse homem longe de mim, mas não posso negar que estou curiosa. Não tenho mais nada a perder. Minha mãe está morta. Meu pai me traiu. Fui tratada como uma mercadoria, vendida como se eu não fosse humana.
A última coisa que quero é morrer nesta casa.
Quero viver, mesmo que a dor de perder minha mãe ainda me dilacere. Reprimo as lágrimas. Ainda não estou pronta para deixá-las cair.
Há um espelho de corpo inteiro no quarto, com moldura preta ornamentada por detalhes. Noto um rosto de leão esculpido no topo — exatamente como na porta que Ruslan não queria que eu abrisse. Este lugar está repleto de feras. Sinto que vou ser devorada viva.
Ao me olhar no espelho, o contraste entre mim e o ambiente salta aos olhos. Meu cabelo dourado brilha sob a luz fraca, e meu vestido branco com detalhes amarelos parece gritar em meio ao cenário monocromático. Sou como Perséfone, arrancada do jardim da minha mãe por Hades.
Não tive muita luz na infância. Meu pai fez questão disso. Mas, quando minha mãe e eu fugimos, prometi a mim mesma que nunca mais viveria na escuridão. Agora, sinto essa luz se apagando lentamente.
Meus olhos se movem até o closet — cheio de roupas femininas. Vestidos, blusas, saias. Nenhuma calça. Tudo em tons de preto e cinza. Nenhum branco, rosa, azul, verde ou roxo. Nenhuma cor. Um armário sem vida.
Experimentei um dos vestidos e estremeci. Era exatamente o meu tamanho. Ruslan os comprou para mim? Ou pertenciam a outra mulher antes de mim?
Eu sei a verdade, mas não quero pensar nisso. É doloroso demais.
Esse guarda-roupa não é meu. Essa vida não é minha. E tudo o que eu quero... é viver.
Uma batida na porta me faz pular. Mas, quando a Sra. Michigan coloca a cabeça para dentro, relaxo um pouco.
— Só trouxe comida para você, querida — diz ela, gentilmente, colocando uma bandeja sobre a mesinha perto da janela.
— Coma. Sergey é um excelente chef. Você não vai se decepcionar.
Franzo a testa. Como ela consegue falar com tanto entusiasmo sobre um lugar que mais parece uma prisão?
— Sra. Michigan... por que a senhora trabalha aqui?
— Como assim? Eu precisAurora de um emprego.
— Mas este lugar é tão…
Ela suspira e aponta para a comida: filé mignon, batatas recheadas, brócolis no vapor.
— Coma.
Sento-me devagar. Pego um pedaço da batata e a cheiro. Está envenenada?
— Não está envenenada — diz ela, como se pudesse ler meus pensamentos. — O senhor Petrov não quer que você se machuque.
— Mas... ele me comprou — respondo, deixando o garfo cair. Uma mistura de emoções cruza o rosto dela.
— Eu sei. E não há nada que você possa fazer para mudar isso. Então, aproveite ao máximo. Coma. Não passe fome. Você só vai se ferir mais.
Mas eu não consigo comer. Não consigo enquanto minha mãe está morta e meu pai me destruiu de um jeito que talvez eu nunca consiga consertar.
Afasto o prato. Ela suspira novamente.
— Não vai comer?
— Não.
— Eu não posso... Se eu disser que não, vou começar a chorar. E eu não posso chorar aqui. Não posso manchar a memória da minha mãe nesse lugar.
— Tudo bem. Vou deixar aqui por enquanto. Coma quando estiver pronta. Se quiser que eu esquente depois, é só me chamar.
— Por que a senhora é tão gentil? — pergunto, antes que ela vá embora.
Ela me oferece um sorriso sobre o ombro.
— Porque... qual seria o sentido de ser c***l?
— Mas a senhora trabalha para um homem que me comprou. Como vive com isso?
— Como eu disse, Aurora... eu precisAuroram de um trabalho. Mendigos não podem ser exigentes.
Com essas palavras, ela sai.
Afundo-me na cadeira, finalmente compreendendo a Sra. Michigan. Trabalhar aqui é uma questão de sobrevivência para ela. Não posso culpá-la por isso. Quando minha mãe e eu fugimos do meu pai, também não tínhamos opções. Ela me matriculou em uma escola pública, onde estudei dia e noite para conquistar uma vaga em Yale. Eu queria mais da vida.
Eu ia ser professora. Amava aprender, então pensei: por que não dedicar minha vida a isso? Aprender e ensinar.
Mas agora... tudo parece tão distante. Ruslan me comprou. E homens que compram não costumam devolver.
Ou eles mantêm... ou matam.
Estremeço ao olhar a comida outra vez.
Não aceitarei nada de Ruslan Petrov. Prefiro morrer a ser prisioneira nesta mansão.
E, se for para acontecer... que seja nos meus próprios termos.