Capítulo 3

2643 Words
Aurora Quando voltamos para casa, percebo que algo está errado. A porta da frente está entreaberta. Nós a deixamos trancada. — Fique atrás de mim — diz minha mãe, se aproximando com cautela. Ela empurra a porta e enfia a cabeça para dentro. — Se alguém estiver nos roubando, por favor, vá embora. Para mim, ela diz: — Chame a polícia. Pego o telefone com as mãos trêmulas e ligo para o 911. — Emergência, qual é a sua ocorrência? Antes que eu consiga responder, um homem aparece na porta. Meu pai. Minha mãe grita antes que ele a agarre e a arraste para dentro do apartamento. — Estamos sendo atacadas! — é tudo o que consigo dizer antes que ele arranque o telefone da minha mão e o jogue no chão. O apartamento está destruído. Almofadas espalhadas, os vasos de cerâmica da minha mãe em cacos. Cacos de vidro por toda parte. — O que você está fazendo aqui? — ela pergunta. Ele saca uma arma e aponta para nós. Nos abraçamos como se isso pudesse nos proteger. — Estou aqui — diz ele, com os olhos cheios de fúria — porque vocês me deixaram. Meu pai nunca foi bonito — cabelo ralo, barriga grande. Já minha mãe sempre teve uma beleza clássica. Ela dizia que se casou com ele por segurança, não por amor. — Se você quer dinheiro — minha mãe diz —, nós não temos. — Claro que não. Eu sempre fui o único a ganhar dinheiro. Mas agora estou passando por dificuldades. Preciso de grana. — Mas você acabou de dizer que não temos nada — digo. — Cala a boca! — ele grita. Estremeço. Minha mãe me puxa para mais perto. — Não fale assim com ela! Você sempre foi um péssimo pai! Ele se aproxima, encosta a arma na cabeça dela. Ela começa a chorar. — Então por que se casou comigo? Ah, é verdade. Porque você é interesseira. — Como posso ser interesseira se fui eu quem deixou você e seu dinheiro para trás? O rosto dele se contorce num sorriso cínico e familiar. Ele bate com a arma no rosto da minha mãe, que cai no chão. — Mãe! — me abaixo ao lado dela, mas ele me puxa. — Me solta! Ele aponta a arma para minha cabeça. Paro de me mexer. — Você sempre foi bonita demais pro seu próprio bem. Eu odiava isso. O jeito que os homens te olhavam... Eu nunca vi esses olhares. Ele nunca me deixava perto de homens. É mais uma das mentiras dele. — Mas agora... agora é bom ter uma filha bonita. Vai me render um bom dinheiro. — O quê? — minha voz sai num sussurro. — Deixa ela em paz — implora minha mãe, tentando se levantar. — Leve a mim no lugar dela. — Por que eu faria isso? Você está velha. Nenhum homem pagaria por você. — Por favor, só deixe ela ir. Eu faço qualquer coisa. — Qualquer coisa? — Sim. — Mãe, não! — vejo o desespero nos olhos dela. — Eu sou a razão pela qual fomos embora — ela diz. — Me castigue. Deixe a Aurora fora disso. — Eu adoraria te punir. Mas preciso do dinheiro. E tem um homem querendo uma esposa. Vai pagar bem pela Aurora. — Que homem? — pergunto. Ele dá de ombros. — Um mafioso qualquer. Não me importa. — Você vendeu nossa filha pra máfia? Seu desgraçado! Ela se lança sobre ele, arranhando o rosto dele. Ele a empurra e atira. A bala atinge seu estômago. — Não! — grito, tentando me soltar dele, mas ele me prende com mais força. Minha mãe cai no chão. — Vamos embora — ele rosna, me arrastando para fora. — Mãe! — continuo gritando enquanto ele me leva. Nenhum vizinho aparece. É como se fôssemos invisíveis. — Cale a boca — ele sibila, apontando a arma de novo. Não sei se estou chorando ou sangrando. Talvez os dois. Tudo em que consigo pensar é que minha mãe está morta. Ele me arrasta até um carro e dirige rumo a Nova York. Eu me sinto quebrada. Derrotada. Minha vida acabou. Chegamos a um clube luxuoso. Ele me leva pela porta dos fundos. Um homem abre. Parece um brutamontes. — É ela? — Sim. Mas quero meu pagamento antes. — Você vai receber do homem. Nós só vamos cuidar dela por enquanto. — Não. Quero o dinheiro agora. — Não é assim que funciona. Ele paga depois que estiver com ela. Eles falam como se eu nem existisse. — Tá bom — meu pai resmunga. — Leva ela. Mas eu vou ficar esperando. — Você vai receber. O homem me puxa pra dentro e fecha a porta. — Por favor, me deixa ir — imploro. Estamos num depósito cheio de caixas. — Implorar não vai te levar a lugar nenhum, garotinha. Ele me leva até uma sala escura. No centro, uma gaiola. — Não. Por favor. Não! Ele suspira. — Vamos facilitar. Antes que eu possa reagir, ele me soca no rosto. E tudo fica preto. *** Eu acordo na gaiola. Grito por ajuda, mas ninguém responde, porque ninguém aqui quer me ajudar. Quando o homem de aparência sórdida aparece e me diz que é hora do leilão começar, sei que tenho que confrontar o que aconteceu. Meu pai me vendeu por dinheiro. E minha mãe morreu por causa disso. Um sujeito vulgar abre a jaula e me puxa para fora. Olho para a porta aberta e corro, mas ele me agarra e algema minhas mãos atrás das costas. — Você não vai a lugar nenhum — ele rosna. — Vai fazer muito dinheiro para nós. Ele me empurra pelo corredor e através de uma porta que leva a um palco. No meio do palco, há uma cadeira, e ela é para mim. Ele me prende na cadeira pelas mãos e tornozelos, de modo que não tenho como escapar. À minha frente, só escuridão. O holofote sobre mim é tão forte que não consigo ver nada. Mas sinto que há pessoas ali, e elas me querem. Elas querem me comprar. — Vejam o que temos aqui, senhores — diz o homem vulgar. Quase zombo da palavra — senhores — Nenhum cavalheiro compraria outro ser humano. — Uma linda jovem. Apenas dezenove anos. Uma virgem. Minha pele se arrepia. O ar muda depois que ele diz — virgem. Há um estalo. Consigo ouvir o murmúrio das pessoas na escuridão. As pessoas que querem dar um lance em mim. — Vamos começar a licitação em um milhão de dólares. Quase desmaio. Um milhão de dólares? Para me comprar? Quase desejo desmaiar de novo. Isso tornaria tudo mais fácil. — Não haverá lances — diz um homem da plateia. Sua voz é fraca e delicada, mas impactante. — Pequeno homem, não teste minha… — o sujeito vulgar diz, com desprezo. — Estamos tendo um leilão. — E essa mulher já foi comprada. Então, entregue-a para mim, e você receberá uma indenização de cinco milhões de dólares. Quem é esse homem que me quer? Será ele o mafioso de quem meu pai estAurora falando? O sujeito vulgar dá de ombros. — Tudo bem. Mas só se ninguém lhe der um lance maior. Alguém compraria essa mulher por mais de cinco milhões de dólares? — Preciso lembrar a vocês — diz o homem da plateia — que Ruslan Petrov a quer. O rosto do sujeito vulgar fica branco. — Eu... não sabia disso. Bem, sim, claro que ele pode ficar com ela. Venha, fique com ela. Ele corre para o meu lado e me solta da cadeira antes de me levar para fora do palco e para a plateia. Finalmente posso enxergar novamente, e o que vejo é algo que nunca mais desejo ver. Há apenas cinco homens na plateia, mas todos eles exalam riqueza. Riqueza suja a ponto de ser repugnante. Eles são o tipo de homem a quem nada de r**m acontece. O tipo de homem como meu pai. Um pequeno homem fica na passarela. Com cabelo branco espesso e olhos vermelhos, ele parece mais um desenho animado do que um homem de verdade. E ele é quem me comprou. — Aqui — diz o homem vulgar. — Aqui está ela. O outro homem acena com a cabeça. — Bom. Agora, venha, Aurora. Eu me assusto ao ouvir meu nome. Mas, claro, ele saberia meu nome. Meu pai me vendeu para ele. Não me movo rápido o suficiente, então o velho gentilmente agarra meu braço e me guia. Estou surpresa com seu toque — não é tão forte quanto eu imaginava. Ele não diz uma palavra enquanto saímos do teatro e entramos em uma espécie de sala, cheia de sofás com muitos homens sentados neles. E sentadas entre os homens estão mulheres em vestidos pretos curtos. — Venha — diz o velho enquanto desvio o olhar. Nada terrivelmente inapropriado está acontecendo, e ainda assim parece tão íntimo. Saímos do clube e ele me acompanha até um carro estacionado na rua. É um Porsche que deve ter custado centenas de milhares de dólares. — Pegue isso — ele diz com um tom surpreendentemente calmo. — Eu... não quero. Ele suspira. — Querida, você tem que ir. Agora você pertence a Ruslan Petrov. Me desculpe. — Então, você não é ele? O homem que me comprou? — Não. Sou apenas o mordomo dele, enviado aqui para buscá-la. Sou Edmund. Não vou machucá-la. — Mas... você está me levando para um homem que quer me machucar. Por que mais ele me compraria? — Seu pai fez um acordo com meu empregador. É lamentável, e eu sinceramente discordo. Mas Ruslan Petrov não é um homem com quem você possa argumentar. Então, por favor, entre no carro. Não quero ter que te forçar. Suas palavras me fazem parar de repente. Edmund e eu somos quase da mesma altura, e ele é obviamente mais velho que eu, mas se trabalha para um homem poderoso, deve ter alguns truques na manga para me fazer obedecer, e eu não quero ver quais são esses truques. Com dedos trêmulos, abro a porta do carro e entro. Edmund acena uma vez e se senta ao volante. Ele não me tranca. Ele não me bate. Ele apenas dirige. Observo cada curva e cada estrada que tomamos até chegarmos a uma grande e imponente mansão de aparência gótica no coração da Billionaires' Row. — É só isso? — pergunto, com a voz trêmula. — É isso aí. — Edmund sai do carro e abre a porta para mim, estendendo a mão. Por algum motivo, eu a aceito. Ele me oferece um sorriso gentil que não alivia meus medos. Ele pode ser um homem legal, mas está trabalhando para alguém horrível, e isso significa que não posso deixar que os sorrisos de Edmund me atraiam para uma falsa sensação de segurança. As grandes portas duplas se abrem para um grande hall de entrada, maior do que o apartamento que minha mãe e eu dividíamos. Engasgo só de pensar na minha mãe. Ainda não me permiti chorar, porque quando choro, tudo se torna real. — Ah, que bom que você chegou — diz uma mulher, entrando apressada na sala. Ela é gordinha e mais velha, parecendo mais uma fada madrinha do que qualquer outra coisa. — Já arrumei seu quarto, querida. Eu pisco. — Você... está falando comigo? — Sim, claro. Com quem mais eu estaria falando? — Ela faz uma pausa e depois passa as mãos pelo rosto. — Ah, meus modos. Sou a Sra. Brown, a governanta. — Essa é Charlotte — Edmund diz. — Mas todos nós a chamamos de Lottie. — Gosto de manter um ar de respeitabilidade — diz ela. — Mas, se você insistir, pode me chamar de Lottie. — Ah, uh... A Sra. Brown está ótima. — É estranho conhecer os empregados desta casa quando acabei de ser comprada pelo chefe deles, um homem que eu nunca tinha visto antes. Ela me oferece um sorriso caloroso. — Tudo bem, querida. Seu quarto é no segundo andar, segunda porta à direita. Venha me ver se tiver alguma dúvida. — E então ela se afasta. — Vou te mostrar o lugar — diz Edmund. A primeira coisa que noto nesta casa é como ela parece vazia. Na sala de estar, há móveis bonitos, mas não há quadros nas paredes ou na lareira. Não há sapatos na entrada. Não há sinais de que alguém realmente more aqui, exceto os funcionários. Tudo é decorado em tons escuros — pretos, cinzas, e ocasionalmente branco. Não há outra cor em lugar nenhum. É como se eu estivesse pisando em um filme em preto e branco. Na cozinha, o único ponto de cor é o homem parado ao lado do balcão, cortando cenouras. A visão das cenouras me faz lembrar da minha mãe, e tenho que conter as lágrimas. — Esse é Sergey— Edmund apresenta. — Ele é o chefe. Sergeyme olha de cima a baixo antes de virar o nariz para mim. — Outro vira-lata, Edmund? — Outro vira-lata? — Estou com medo de perguntar. Edmund suspira. — Aurora vai ser a esposa do Sr. Petrov. Mostre um pouco de respeito. Eu praticamente pulo de susto. — Esposa? Ninguém me disse nada sobre casamento. — Por que você achou que o Sr. Petrov queria você? — Eu não tenho ideia de por que ele quer me... Eu nunca o conheci. — Típica americana. Tão dramática. — Sergey Zomba. — Vamos — diz Edmund, me guiando para fora da cozinha. — Vou te levar para o seu quarto. Ele me leva para o andar de cima, que segue a mesma decoração em preto, branco e cinza. — Edmund, o que exatamente está acontecendo aqui? — pergunto. — Bem, o Sr. Petrov vai te explicar tudo isso. Com o tempo. Vamos lá. Ele abre uma porta e me faz sinal para entrar. — Seu quarto. Uma cama branca. Tapete cinza. Paredes cinzas. É tudo tão deprimente. A casa que minha mãe e eu construímos juntas era tão cheia de cor e vida. O motivo era que meu pai nunca permitia nenhuma cor em nossa casa. Era tudo branco o tempo todo. Se eu fizesse alguma bagunça, ele gritava comigo. — Vou deixar você em paz. — Edmund sai antes que eu possa protestar, fechando a porta atrás de si. Eu me jogo na cama. Ainda assim, não choro. Não posso pensar na minha mãe neste lugar. Não posso pensar nela deitada no chão com um ferimento de bala no estômago. Eu preciso me mover. Eu preciso fazer algo. Então, saio do quarto. Edmund não trancou a porta atrás de mim, o que significa que eu não sou uma prisioneira aqui. Caminho pelo corredor, lentamente, prestando atenção a tudo o que vejo, e mais uma vez, tudo o que vejo é... nada. Nenhuma imagem em lugar nenhum. Nenhuma pintura. Nada. Apenas paredes cinza-escuras e pretas. Há uma porta no final do corredor. Ela tem um grande rosto de leão como maçaneta. É puro gótico, e eu preciso saber o que há atrás dela. Estendo a mão para pegá-la... — O que você está fazendo? — uma voz masculina pergunta. Uma voz que eu ainda não tinha ouvido. Com um grito, viro-me e congelo. Esse homem exala perigo. Alto, cabelos escuros, carranca e uma presença intimidadora. Uma cicatriz profunda cobre seu rosto, mas isso não o faz menos bonito. — Uh... — é tudo o que consigo dizer. — Aquele quarto não é para você. Volte para o seu quarto. Eu aceno rapidamente e corro passando ele, indo direto para o quarto onde Edmund me deixou. Depois que fecho a porta atrás de mim, percebo... eu acho que acabei de conhecer Ruslan Petrov.
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