.A sala estava silenciosa.
Clara voltou para sua cadeira, mas o clima entre eles ainda estava carregado pelo momento anterior. O toque dela no rosto dele ainda parecia presente.
Ela abriu a pasta devagar.
— Hoje… — disse ela com calma — eu quero falar sobre você.
Nando encostou na cadeira, cruzando os braços.
— Você sempre fala sobre mim, doutora.
Ela sorriu de leve.
— Não desse jeito.
Ele observou ela por alguns segundos.
— O que você quer saber?
Clara respirou fundo antes de perguntar:
— Quando começou?
Nando franziu a testa.
— O quê?
— A máfia.
O silêncio tomou a sala por alguns segundos.
Ele desviou o olhar para a mesa, os dedos batendo devagar na superfície.
— Eu tinha quinze anos.
Clara ficou imóvel.
— Quinze?
Ele assentiu lentamente.
— Meu pai já fazia parte. Não era um homem grande… mas era respeitado.
Clara escutava com atenção total.
— E sua mãe? — perguntou ela.
Nando deu um pequeno sorriso sem humor.
— Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos.
Clara sentiu o coração apertar.
— Depois disso… — continuou ele — meu pai me levou para aquele mundo.
Ele respirou fundo, como se revisitar aquelas memórias não fosse simples.
— No começo eu só entregava recados, levava coisas de um lugar para outro. Nada grande.
Clara anotava algumas coisas, mas na verdade estava muito mais focada nele.
— E quando tudo mudou?
Nando levantou os olhos para ela.
Os olhos escuros estavam mais sérios agora.
— Quando eu tinha dezessete.
Clara percebeu que algo naquela lembrança era pesado.
— Foi quando eu matei alguém pela primeira vez.
O coração dela acelerou.
Mas ela não demonstrou julgamento.
Apenas escutou.
— Era um cara que tinha traído a organização — disse Nando, com a voz calma. — Meu pai me levou junto. Disse que estava na hora de eu aprender.
Clara permaneceu em silêncio.
— Eu achei que ia travar… que não conseguiria.
Ele deu um pequeno sorriso frio.
— Mas quando você cresce naquele mundo… você aprende rápido.
Ela olhava para ele com atenção.
— Você se arrepende? — perguntou com cuidado.
Nando demorou alguns segundos para responder.
— Não.
Clara não pareceu surpresa.
Ele continuou:
— Mas também não sinto orgulho.
Aquilo chamou a atenção dela.
— Então o que você sente?
Ele olhou direto nos olhos dela.
— Nada.
Clara inclinou um pouco a cabeça.
— Nando… ninguém sente nada sobre algo assim.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou mais baixo:
— Eu senti… na primeira vez.
Ela esperou ele continuar.
— Depois… você aprende a desligar.
Clara observava ele com uma mistura de curiosidade e empatia.
— E hoje?
Nando olhou para ela de um jeito diferente.
Mais intenso.
Mais verdadeiro.
— Hoje é diferente.
Ela franziu levemente a testa.
— Por quê?
Ele respondeu sem hesitar:
— Porque você entrou na minha mente.
O coração dela acelerou.
— E desde então… — continuou ele — algumas coisas que eu achava que estavam mortas… começaram a aparecer de novo.
Clara sentiu um arrepio subir pela espinha.
— Como o quê?
Nando olhou fixamente para ela.
— Sentimentos.
O silêncio tomou conta da sala novamente.
Clara percebeu naquele momento que aquilo era muito mais que uma sessão.
Era um homem que nunca confiou em ninguém…
confiando nela.
E talvez… sentindo coisas que ele nunca imaginou sentir.