O passado de nando

567 Words
.A sala estava silenciosa. Clara voltou para sua cadeira, mas o clima entre eles ainda estava carregado pelo momento anterior. O toque dela no rosto dele ainda parecia presente. Ela abriu a pasta devagar. — Hoje… — disse ela com calma — eu quero falar sobre você. Nando encostou na cadeira, cruzando os braços. — Você sempre fala sobre mim, doutora. Ela sorriu de leve. — Não desse jeito. Ele observou ela por alguns segundos. — O que você quer saber? Clara respirou fundo antes de perguntar: — Quando começou? Nando franziu a testa. — O quê? — A máfia. O silêncio tomou a sala por alguns segundos. Ele desviou o olhar para a mesa, os dedos batendo devagar na superfície. — Eu tinha quinze anos. Clara ficou imóvel. — Quinze? Ele assentiu lentamente. — Meu pai já fazia parte. Não era um homem grande… mas era respeitado. Clara escutava com atenção total. — E sua mãe? — perguntou ela. Nando deu um pequeno sorriso sem humor. — Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos. Clara sentiu o coração apertar. — Depois disso… — continuou ele — meu pai me levou para aquele mundo. Ele respirou fundo, como se revisitar aquelas memórias não fosse simples. — No começo eu só entregava recados, levava coisas de um lugar para outro. Nada grande. Clara anotava algumas coisas, mas na verdade estava muito mais focada nele. — E quando tudo mudou? Nando levantou os olhos para ela. Os olhos escuros estavam mais sérios agora. — Quando eu tinha dezessete. Clara percebeu que algo naquela lembrança era pesado. — Foi quando eu matei alguém pela primeira vez. O coração dela acelerou. Mas ela não demonstrou julgamento. Apenas escutou. — Era um cara que tinha traído a organização — disse Nando, com a voz calma. — Meu pai me levou junto. Disse que estava na hora de eu aprender. Clara permaneceu em silêncio. — Eu achei que ia travar… que não conseguiria. Ele deu um pequeno sorriso frio. — Mas quando você cresce naquele mundo… você aprende rápido. Ela olhava para ele com atenção. — Você se arrepende? — perguntou com cuidado. Nando demorou alguns segundos para responder. — Não. Clara não pareceu surpresa. Ele continuou: — Mas também não sinto orgulho. Aquilo chamou a atenção dela. — Então o que você sente? Ele olhou direto nos olhos dela. — Nada. Clara inclinou um pouco a cabeça. — Nando… ninguém sente nada sobre algo assim. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Então falou mais baixo: — Eu senti… na primeira vez. Ela esperou ele continuar. — Depois… você aprende a desligar. Clara observava ele com uma mistura de curiosidade e empatia. — E hoje? Nando olhou para ela de um jeito diferente. Mais intenso. Mais verdadeiro. — Hoje é diferente. Ela franziu levemente a testa. — Por quê? Ele respondeu sem hesitar: — Porque você entrou na minha mente. O coração dela acelerou. — E desde então… — continuou ele — algumas coisas que eu achava que estavam mortas… começaram a aparecer de novo. Clara sentiu um arrepio subir pela espinha. — Como o quê? Nando olhou fixamente para ela. — Sentimentos. O silêncio tomou conta da sala novamente. Clara percebeu naquele momento que aquilo era muito mais que uma sessão. Era um homem que nunca confiou em ninguém… confiando nela. E talvez… sentindo coisas que ele nunca imaginou sentir.
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