Clara saía da sala de sessões, ajustando a pasta contra o corpo, ainda sentindo o efeito da última hora com Nando. Mas antes que pudesse dar dois passos pelo corredor, um dos guardas se aproximou de forma invasiva, encostando-se a ela de maneira imprópria.
— Ei… — disse ele, com um sorriso safado — só relaxa um pouco.
Clara ergueu a mão, afastando-o com firmeza.
— Tira a mão — falou, a voz carregada de autoridade e repulsa.
— Não vou tirar — respondeu ele, a voz baixa, provocadora, como se desafiá-la.
Antes que a situação pudesse piorar, uma voz atravessou o corredor, profunda e fria:
— Se você não tirar, eu quebro sua mão.
O guarda estremeceu, mas ainda tentou permanecer firme, até que outro carcereiro ao lado tentou intervir, tentando acalmar a situação. Mas ele percebeu rápido que não havia como controlar o que estava prestes a acontecer.
— Nossa… olha doutora, seu protetor — disse o guarda safado, rindo nervosamente, percebendo a tensão no ar.
Mesmo algemado, Nando estava lá, parado no corredor, a expressão fechada, os olhos escuros fixos no guarda que ousara tocá-la. Num movimento calculado, ele mirou um soco na direção do rosto do guarda, a força e a determinação transparecendo em cada gesto.
— Nunca mais toca nela — disse Nando, a voz rouca, carregada de perigo e possessividade.
O guarda recuou imediatamente, sentindo o peso da ameaça, enquanto Clara permanecia parada, ainda recuperando o fôlego do susto. Ela olhou para Nando, surpresa e impressionada:
— Nando… — sussurrou, sem palavras para expressar o que sentia naquele momento.
Ele não disse mais nada. Apenas ficou ali, firme, olhando para ela, transmitindo em silêncio: ninguém toca na minha doutora.
Clara sentiu uma mistura de medo, fascínio e gratidão. Cada gesto de proteção dele reforçava o quanto ele a via como única, e o quanto a tensão entre eles estava sempre prestes a explodir.
Mesmo algemado, mesmo preso, Nando deixava claro que ela era dele, e que qualquer tentativa de atravessar a linha seria respondida com intensidade total
No dia da sessão seguinte, Clara entrou na sala com a pasta nas mãos, como sempre fazia. Mas naquele dia algo parecia diferente. Ela sentia uma inquietação estranha no peito.
A porta abriu.
Nando entrou escoltado pelos guardas, algemado, vestindo o macacão amarelo da prisão.
Mas o que chamou atenção dela imediatamente foi o rosto dele.
Um dos lados estava levemente inchado. Havia um pequeno corte próximo ao supercílio e marcas arroxeadas na mandíbula.
Clara franziu o cenho na mesma hora.
Os guardas tiraram as algemas dele e saíram da sala.
Assim que a porta fechou, ela olhou fixamente para ele.
— Isso não deveria ter acontecido…
Nando deu de ombros, sentando-se na cadeira com aquela postura calma e dominante de sempre.
— Se aquele i*****l não tivesse mexido com você, nada disso teria acontecido.
Clara suspirou, ainda olhando o rosto machucado dele.
— Nando…
Ele inclinou um pouco a cabeça, observando ela com intensidade.
— Mas não se preocupe — disse ele com tranquilidade — dois homens meus já cuidaram dele.
Clara arregalou levemente os olhos.
— Não… — disse ela, balançando a cabeça — eu não quero que você fique bravo por minha causa.
Ele soltou um pequeno sorriso de canto, daqueles perigosos.
— Você é minha, doutora.
O silêncio caiu na sala por um segundo.
— Ninguém toca em você.
O coração dela bateu mais forte com aquelas palavras.
Sem pensar muito, Clara se levantou e deu alguns passos até ele.
Devagar, ela ergueu a mão e tocou de leve o rosto dele, bem perto do corte no supercílio.
Nando ficou completamente imóvel.
O toque dela era suave. Delicado.
Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo o calor da mão dela na pele.
— Doutora… — murmurou ele, com a voz mais baixa.
Clara olhava para ele de perto agora.
Tão perto que conseguia sentir a respiração dele.
Então ela disse, com um leve sorriso:
— Você não é tão m*l assim… sabia?
Nando abriu os olhos devagar.
Os olhos escuros encontraram os olhos azuis dela.
— Eu sou m*l, sim — respondeu ele calmamente. — Você já navegou um pouco pela minha mente… sabe disso.
Clara balançou a cabeça, ainda olhando para ele.
— Não…
Ela retirou a mão devagar do rosto dele, mas o olhar continuava ali, firme.
— Eu só vejo um homem protetor demais.
Nando observava cada palavra dela com atenção.
— Mas eu não vejo um homem malvado — continuou ela. — Não vejo um monstro…
Ela fez uma pequena pausa antes de terminar:
— Vejo um homem que a sociedade decidiu chamar de monstro.
O silêncio tomou conta da sala.
Nando ficou olhando para ela por alguns segundos, como se aquelas palavras tivessem atingido um lugar que ninguém nunca tinha alcançado antes.
Então ele falou, mais baixo:
— Você é a única pessoa que já disse isso olhando nos meus olhos.
Clara respirou fundo, percebendo o peso daquele momento entre eles.
Um ano de sessões.
Um ano entrando na mente dele.
E naquele instante… parecia que ela também tinha entrado no coração dele.
E talvez… no próprio coração dela também.