Maira Narrando
Acordar sem os meus pais em casa era uma sensação estranha. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas ainda assim, a rotina parecia diferente. Ontem foi pior, o silêncio pesou mais do que eu imaginava. Hoje, pelo menos, eu já tinha me acostumado um pouco mais. Dois dias podem não parecer muito para quem vê de fora, mas para mim, sem ele, significam uma eternidade.
Levantei, fui direto para o banheiro e tomei um banho rápido, deixando a água morna tirar não só o suor da noite de acordar. Tirei a touca, penteei o cabelo e fiz meu ritual de hidratação. Vesti minha roupa para a faculdade, uma calça jeans justa e uma blusa de manga curta, básica, mas confortável.
Ao descer, percebi que Joana, a diarista, já tinha passado por aqui. A cozinha estava impecável e o café pronto na mesa. Meus pais sempre deixavam tudo organizado quando viajavam, e Joana era a responsável por garantir que nada faltasse para mim. Tomei um café rápido, subi correndo para escovar os dentes, passar um batom e pegar minha mochila. O motorista já estava esperando com o carro ligado na garagem.
Meu pai sempre fez questão de que eu fosse para a faculdade com um motorista, principalmente agora, no meu primeiro ano. Ele dizia que, com a vida agitada deles, pelo menos assim ficava mais tranquilo saber que eu estava em segurança.
Marcela me abraçou de lado enquanto saíamos da sala. O jeito como ela respirou me fez arquear uma sobrancelha, já sabendo do que ia falar. Suspirei fundo, me preparando para mudar de assunto.
— Até que a aula foi boa hoje. — Falei, ajustando a alça da mochila no ombro..... Ela revirou os olhos.
— Quero saber qual aula que não é boa pra você! Tu gosta de tudo, cara, é incrível. Quando a tua mãe fala que tu é doente por estudar, ela não está mentindo. – Ela fala me fazendo rir baixo, balançando a cabeça.
— Não exagera, Marcela. – Falei já vendo o motorista nos esperando.
— Exagero? Tá maluca! Enquanto tu tá aí empolgada com as matérias, eu tô contando os minutos pra sair correndo desse inferno. – Ela fala, me fazendo rir. Somos o oposto: eu amo estudar, e ela odeia.
— Mas é o que a gente escolheu pra vida, né? – Falei olhando pra ela, segurando para não rir, pela cara já sei a resposta.
— Escolhi porque precisava, não porque amo igual você. Mas e aí, o bonitão lá tá marcando em cima? – Incrível como ela consegue mudar de assunto tão rápido.
Respirei fundo, lembrando da noite passada. Miguel parado no jardim, me observando pela janela do quarto. O jeito que ele me olhava me fazia sentir como se estivesse presa em um jogo perigoso, mas irresistível.
— Ele... tá normal. – Marcela riu alto.
— Normal? Maíra, ele ficou te encarando da janela do quarto! Isso é tudo, menos normal. – Dê dinheiro, mas não dê ousadia para sua melhor amiga.
— Para de drama. Ele só tava cuidando de mim. – Falei, passando a língua nos lábios. Foi então que ele me respondeu, depois que perguntei o que tanto ele olhava dentro do meu quarto.
— Ah, tá. Só cuidando, né? O problema é que esse homem cuida parecendo que quer devorar. – Não respondi. Meu coração ainda acelerava só de lembrar da última troca de mensagens.
— Tchau, amiga! Se eu não dormir mais tarde, vou para tua casa. Fala para a tia Márcia que eu quero aquele bolo de cenoura com cobertura de chocolate. — Ela me abraçou pelo pescoço, dando um beijo demorado na minha bochecha.
— Falo sim, gatinha. E com certeza ela vai fazer, porque não tem nada que você peça que ela não faça. Dá até raiva! — reclamou, rindo..... Ela bufou, abrindo a porta do carro.
— Pior que é verdade! Eu peço qualquer coisa e ela já corre pra fazer. – Comecei a rir ainda mais, porque sabia que era verdade.
— Até parece que ela te ama mais do que me ama. — falou, sacudindo o corpo daquele jeito todo debochado dela.
— Para de drama! Você sabe que ela te ama. – Ela jogou beijo fechando a porta.
— Sei, mas bem que podia fingir que te ama menos de vez em quando. — Ela falou revirando os olhos, mas acabou rindo junto comigo.
A manhã passou rápido.Entrei em casa, subindo direto para o quarto, tomei um banho quente e coloquei minha roupa favorita: uma regata larga, meio transparente, e uma calcinha. O regatão era confortável, sempre usei pra dormir, mas naquele momento, me peguei pensando se não estava... vulnerável demais.
Desci as escadas descalça, indo até a cozinha Pra esquentar algo pra comer.Congelei, olhando em direção à área externa da casa.
Miguel estava parado do lado de fora, na frente da porta de vidro que dava para a piscina..... Meu coração deu um pulo, e instintivamente levei a mão ao peito.
— Caramba, senhor Miguel! — Falei, sentindo a adrenalina correr pelo meu corpo.
Ele bateu de leve no vidro, apontando para a maçaneta, indicando para eu abrir.
Ainda um pouco atordoada, destravei a porta e a puxei. Fui até a cozinha e peguei um copo com água.
— O que você tá fazendo aqui a essa hora? – Ele deu um meio sorriso, os olhos analisando cada detalhe meu.
— Só cuidando de você. Como fiz desde que seus pais saíram. – Ele respondeu com a voz baixa, rouca.... Revirei os olhos e dei uma risada curta.
— Senhor Miguel, só tem dois dias que eles viajaram. – Ele deu um passo à frente, entrando, e foi só aí que reparei melhor nele. Estava só de short de pano fino e uma regata justa, marcando todos os músculos do peitö e dos braços. A visão fez minha garganta secar.
— Terra chamando Maíra... — Ele brincou, arrancando um sorriso meu.
Tentei disfarçar meu nervosismo, indo até a cozinha. Abri a geladeira, peguei um copo de água e tomei um gole longo, tentando me recompor.
— Tá tudo bem. — Falei, colocando o copo na pia. – Ele me observou por alguns segundos.
— Quer companhia? — A pergunta dele me pegou de surpresa..... Senti um arrepio subir pela minha espinha.
— Não precisa, tô bem. – Falei, sem sentir as palavras saindo da minha boca.
O silêncio que se seguiu foi carregado. A tensão no ar era quase palpável..... Miguel se aproximou devagar, cada passo dele fazia meu corpo inteiro reagir. Meu coração martelava no peito.
— Sabe... — Ele sussurrou, a voz baixa. — Você não tem ideia do quanto me provoca sem nem perceber.... Tentei rir, mas falou.
— Para de exagero.
— Exagero? — Ele deu mais um passo, e agora estava perto o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele..... Minha respiração falhou.
— Mi...Miguel... – Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele não resistiu mais.
Ele segurou minha cintura com força, me puxando para perto, colando nossos corpos. Sua boca encontrou a minha num beijo intenso, quente, carregado de tudo o que havíamos evitado até esse agora, principalmente da minha parte..... Tentei hesitar. Se fosse só um selinho, talvez eu conseguisse escapar. Mas ele não deixou. Segurou minha nuca com firmeza, seus dedos se enroscando nos meus cabelos, e prensou meus lábios contra os dele, aprofundando o beijo sem me dar chance de recuar. E eu?....Eu estou completamente perdida........