Clara
Lucas desapareceu, isso é facto.
Não houve despedida, nem explicação, nem sequer uma mensagem curta que pudesse aliviar a dor.
Apenas o silêncio, um silêncio pesado, c***l, que se espalhou pela minha vida como uma névoa densa, ocupando todos os espaços onde antes existia a presença dele.
Tentei me convencer de que era melhor assim.
Que o afastamento era necessário.
Que aquilo tudo os olhares carregados, os toques contidos, os beijos roubados nunca deveria ter acontecido.
Mas o corpo não entende argumentos racionais, o coração também não.
Tudo em mim sente falta dele.
A casa parece maior agora, vazia, o sofá onde ele se sentou casualmente uma vez, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar, virou um lembrete constante.
O cheiro dele ainda insiste em ficar impregnado na minha memória, mesmo quando troco os lençóis, mesmo quando abro as janelas e deixo o vento entrar.
Eu o odeio por isso.
Odeio por ter entrado na minha vida como uma tempestade e ter ido embora como se eu fosse apenas um detalhe em minha vida.
Meu irmão percebe que algo está errado.
Ele pergunta, observa demais, mas eu minto.
Digo que estou cansada, que é trabalho, que é só uma fase.
Ele não acreditaria, na verdade, de qualquer forma, Ninguém acreditaria.
Porque o que existiu entre mim e Lucas nunca foi algo simples.
Nunca foi algo que pudesse ser explicado sem julgamento.
À noite, é pior.
Deitada na cama, o teto se transforma num inimigo silencioso.
Meus pensamentos giram em círculos perigosos.
Relembro o jeito como ele me olhava como se estivesse lutando contra algo dentro de si.
Como se me quisesse e me temesse ao mesmo tempo.
E se ele nunca mais voltar?
A ideia aperta meu peito de um jeito quase insuportável.
Mas, ao mesmo tempo, existe outra sensação inquietante.
Uma certeza que se recusa a ir embora.
Lucas não é o tipo de homem que simplesmente desaparece.
Às vezes, sinto como se estivesse sendo observada.
Um arrepio percorre minha espinha quando caminho sozinha pela rua ou quando chego em casa e tudo parece exatamente igual, mas diferente ao mesmo tempo.
Como se algo tivesse sido tocado, movido, sentido.
Talvez seja só minha imaginação.
Ou talvez seja ele.
O vazio que Lucas deixou não é ausência.
É presença demais em pensamentos, em desejos, sem medo.
E no fundo, muito no fundo, eu sei:
esse silêncio não é o fim.
É apenas o começo de algo muito mais sombrio.
A mensagem chega enquanto estou no trabalho.
O celular vibra em cima do balcão, um som seco que corta o ar e faz meu estômago se contrair sem motivo aparente.
Olho para a tela esperando ver um nome conhecido, qualquer coisa banal propaganda, uma amiga, minha mãe.
Mas não há nome algum. Apenas um número desconhecido.
Abro.
-Lucas não é quem você pensa. Ele tem sangue nas mãos.
Leio uma vez.
Depois outra.
E outra.
O mundo ao meu redor parece perder o som.
As vozes, o movimento, tudo se afasta, como se eu estivesse presa dentro da própria cabeça.
Minhas mãos começam a suar, e preciso apoiar os dedos na borda do balcão para não deixar o celular cair.
Sangue.
A palavra pulsa diante dos meus olhos.
Apago a mensagem, e no mesmo instante.
Como se isso pudesse apagar o que ela deixou em mim, Mas não adianta.
A frase já se infiltrou nos meus pensamentos, rasteira, venenosa.
Lucas… sangue?
Minha primeira reação é raiva, Uma raiva quente, quase defensiva.
Quem quer que seja essa pessoa não tem o direito de falar dele assim.
Não sabe de nada. Não entende nada.
Mas a raiva dura pouco.
Porque, logo depois, vem a dúvida.
Lucas sempre foi um homem de silêncio.
De respostas cortadas pela metade.
De olhares que carregavam mais coisas do que ele jamais colocava em palavras.
Sempre houve algo escondido, eu senti isso desde o início, talvez até antes.
Engulo em seco.
Durante o resto do dia, tudo acontece no automático.
Atendo clientes, sorrio quando preciso, respondo perguntas sem realmente ouvi-las.
Minha mente está longe, girando em torno daquela frase como se fosse um enigma perigoso demais para ser decifrado.
Quando chego em casa, o peso aumenta.
O apartamento está silencioso, iluminado apenas pela luz fraca do fim de tarde.
Jogo a bolsa no sofá e fico parada no meio da sala, olhando ao redor como se esperasse encontrar respostas presas às paredes.
Nada.
A sensação de estar sendo observada volta. Mais forte.
Não como medo imediato, mas como um incômodo persistente, uma presença invisível que se insinua na minha nuca.
Caminho até a janela e afasto a cortina, A rua está normal, as pessoas passando, Carros estacionados, Tudo igual E, ainda assim, sinto que algo não está.
Meu irmão chega mais tarde naquela noite.
Ele entra falando qualquer coisa sobre o dia, mas para no meio da frase quando me vê.
Seu olhar muda, Fica atento demais, Avaliador.
— Está tudo bem? — ele pergunta.
Assinto rápido demais.
— Claro. Só cansada.
Ele não responde de imediato.
Apenas me observa, como se estivesse decidindo até onde pode ir.
O silêncio que se instala entre nós é desconfortável.
— Você tem falado com o Lucas? — ele pergunta, por fim.
Meu coração erra uma batida.
— Não — respondo, sincera demais para mentir direito.
Algo se fecha no rosto dele, Um músculo tenso no maxilar, Um suspiro contido.
— Ainda bem.
Essa única frase pesa mais do que a mensagem anônima.
— Por quê? — pergunto, tentando manter a voz firme.
Ele me encara por alguns segundos longos demais, Depois desvia o olhar.
— Porque tem gente que é melhor manter longe — diz apenas.
Longe.
A palavra ecoa dentro de mim.
Mais tarde, sozinha no quarto, pego o celular outra vez, abro as mensagens.
O número desconhecido ainda está ali, silencioso agora, como se soubesse que já causou o estrago necessário.
Procuro o contato de Lucas.
Meu dedo paira sobre o nome dele por longos segundos.
Quero respostas.
Quero negar tudo.
Quero que ele me diga que é mentira.
Mas não ligo.
Porque, no fundo, tenho medo do que ele pode confirmar.
Apago a luz e me deito, mas o sono não vem. Cada barulho da casa me faz prender a respiração.
Cada pensamento retorna ao mesmo ponto, Lucas, seus segredos, seu silêncio e o sangue que alguém insiste em colocar entre nós.
Talvez eu devesse ter ficado longe desde o início.
Mas agora é tarde demais.
Porque, mesmo com medo, mesmo com dúvidas, meu coração ainda chama por ele.
E essa é a parte mais assustadora de todas.