Clara
Passei o dia inteiro tentando fingir que a mensagem não existia.
Funcionou por alguns minutos, Depois por segundos.
Até que cada pensamento meu parecia voltar ao mesmo lugar, como um vício que não consigo controlar.
Lucas tem sangue nas mãos.
A frase ecoa com a voz de alguém que não conheço, mas que parece saber exatamente onde me ferir.
Quando chego à empresa do meu irmão, sinto o peso antes mesmo de entrar.
O prédio é o mesmo de sempre, mas hoje tudo parece mais rígido, mais frio.
Como se eu estivesse atravessando uma linha invisível.
Ele está na sala dele, com portas de vidro fechadas.
Fala ao telefone com o cenho franzido, a postura tensa.
Quando me vejo do lado de fora, levanta a mão pedindo um minuto.
Esse gesto simples tão comum hoje me incomoda.
Como se eu estivesse invadindo um território onde não sou bem-vinda.
Assim que ele desliga, entra na defensiva.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunta, antes mesmo que eu abra a boca.
Dou de ombros, tentando parecer casual.
— Só vim te ver.
Ele não acredita, Nunca acreditou, Conhece meus silêncios melhor do que ninguém.
— Senta — diz, apontando para a cadeira à frente da mesa.
Obedeço, Cruzo as pernas, Brinco com a alça da bolsa.
Qualquer coisa para evitar encará-lo por muito tempo.
— Você anda estranha — ele continua.
— Desde aquela festa.
Meu coração acelera. Não respondo.
— E isso tem nome — ele acrescenta, mais baixo.
— Lucas.
Levanto o rosto num impulso.
— Não começa.
— Eu vou começar, sim — ele rebate, agora sério.
— Porque eu avisei, Sempre avisei.
— Avisou do quê? — minha voz sai mais afiada do que eu pretendia.
— Que ele é seu melhor amigo? Que sempre esteve por perto? Que nunca me fez m*l nenhum?
Ele se inclina para frente, apoiando os cotovelos na mesa, os olhos escurecem.
— Justamente porque você não sabe tudo.
O ar fica pesado entre nós.
— O que eu não sei? — pergunto, sentindo um nó se formar no estômago.
Ele hesita, pela primeira vez desde que cheguei.
E essa hesitação é mais reveladora do que qualquer resposta direta.
— Tem coisas — começa — que não são minhas para contar.
Mas são suficientes para eu dizer, fica longe dele, Clara.
Longe.
De novo essa palavra.
— Você está exagerando — digo, mesmo sem tanta convicção.
— Lucas nunca me tratou m*l.
Meu irmão solta um riso curto, sem humor.
— Esse é exatamente o problema.
Me levantei num movimento brusco.
— Você está falando como se ele fosse um monstro.
— Ele pode ser — responde, sem hesitar.
Sinto como se tivesse levado um tapa.
— Não — digo, mais para mim do que para ele.
— Você não o conhece como eu conheço.
Ele se levanta também, ficando à minha frente.
A diferença de altura sempre me intimidou, mas agora é a intensidade no olhar dele que me prende.
— Você conhece a versão que ele deixou você ver.
Engulo em seco.
— Se ele te machucar — ele começa, mas para no meio da frase.
— Se ele o quê? — insisto.
Ele fecha os olhos por um segundo, como se estivesse cansado demais para essa conversa.
— Nada, Só confia em mim, Dessa vez.
Mas eu não consigo.
Porque confiar nele significa duvidar de Lucas.
E duvidar de Lucas significa encarar a possibilidade de que aquela mensagem anônima não seja apenas uma provocação c***l.
Saio da sala antes que ele possa dizer mais alguma coisa.
O corredor parece mais longo na volta.
Minhas pernas tremem, mas sigo andando, determinada a não olhar para trás.
Do lado de fora, o sol atinge o meu rosto, quente demais, quase agressivo.
Respiro fundo, tentando afastar a sensação de sufocamento.
Meu celular vibra dentro da bolsa.
Meu coração dispara automaticamente.
Não é Lucas.
É outro número desconhecido.
Abro a mensagem com os dedos trêmulos.
-Ele não vai te contar a verdade, Nenhum deles vai.
Sinto o chão desaparecer sob meus pés.
Guardo o celular, olhando ao redor como se pudesse identificar quem está me observando.
Pessoas passam por mim, apressadas, alheias ao caos que começa a se formar dentro de mim.
Meu irmão me avisou.
A mensagem me avisou.
Até o silêncio de Lucas me avisou.
E, ainda assim, a única coisa que eu quero fazer, é correr até ele e exigir que me diga tudo.
Porque, mesmo com todos os alertas, mesmo com o medo crescendo feito uma sombra, existe uma verdade que eu não consigo negar,
Se Lucas for mesmo o perigo que todos dizem,
então eu já estou no centro da tempestade.
E não sei mais se quero ou se consigo sair dela.