CAPÍTULO 27

799 Words
Clara O dia amanhece pesado, como se o céu soubesse algo que eu ainda tento ignorar. Desde a mensagem da noite anterior, minha mente não encontra descanso. Tudo parece carregado de significado demais, o som distante dos carros, o toque do vento na janela, o silêncio que se estende dentro de mim. Tento me convencer de que estou exagerando, de que o medo está criando monstros onde não existem. Mas o corpo não mente. E o meu está em alerta constante. Decido ir até a empresa do meu irmão sem avisar. Talvez porque eu precise ouvir algo que confirme minhas suspeitas. Talvez porque eu queira que ele me diga que estou errada. Ou talvez porque, no fundo, eu saiba que ele sempre soube mais do que deixou transparecer. Assim que entro no prédio, sinto os olhares curiosos, sou conhecida ali, A irmã do chefe. A garota que sempre passa rápido, sorrindo, sem chamar atenção. Hoje, porém, cada passo meu ecoa alto demais no corredor. A secretária tenta avisá-lo, mas eu já estou batendo na porta. — Entra — ele diz, com a voz tensa. Quando nossos olhares se cruzam, tudo fica claro, ele percebe imediatamente que algo mudou. Que eu não estou ali por acaso. — Clara — começa, fechando a porta atrás de mim. — Aconteceu alguma coisa? Cruzo os braços, tentando conter o tremor nas mãos. — Eu recebi uma mensagem. Ele não pergunta qual. Nem de quem. Apenas suspira, passando a mão pelo rosto como quem se prepara para uma conversa que sempre temeu. — Eu sabia que isso ia acontecer — murmura. Meu coração aperta. — Sabia o quê? — pergunto, dando um passo à frente. — O que você sabe que eu não sei? Ele se afasta da mesa, andando até a janela. Fica de costas para mim por alguns segundos, como se precisasse reunir forças. — Lucas nunca foi um homem simples — diz, por fim. — Você sempre o viu como o amigo leal, o protetor, o cara que estava sempre por perto. Mas essa não é a história inteira. — Então me conta — insisto. — Para de falar em enigmas. Ele se vira lentamente. Os olhos estão sérios, duros de um jeito que eu raramente vi. — Tem coisas que não posso te contar. Não porque eu não queira, mas porque não são minhas. — Isso não é justo — minha voz falha. — Estão todos me pedindo para confiar, mas ninguém diz a verdade. — A verdade pode te machucar — ele responde, sem rodeios. Dou uma risada curta, nervosa. — E você acha que isso aqui não está machucando? — aponto para o peito. — Esse silêncio? Essas ameaças veladas? Ele fecha os olhos por um instante. — Clara, escuta — diz, se aproximando. — Fica longe dele. Pelo menos até tudo isso se acalmar. — Se acalmar o quê? — pergunto, sentindo a irritação crescer. — O passado não some só porque a gente finge que não existe. Ele segura meus ombros, firme. — Você não faz ideia do tipo de gente que faz parte desse passado. O toque dele, que deveria me tranquilizar, só aumenta o nó no meu estômago. — Lucas nunca me fez m*l — digo, quase implorando para que isso seja suficiente. — Ainda — ele responde. A palavra cai entre nós como uma sentença. Me afasto, o coração disparado. — Você está dizendo que ele vai me machucar? — Estou dizendo que ele pode destruir tudo ao redor — responde. — E você está no meio disso agora. O silêncio que se segue é ensurdecedor. Saio da sala antes que ele possa dizer mais alguma coisa. Preciso de ar. Preciso fugir daquele olhar que mistura medo e culpa. Do lado de fora, o sol me cega por alguns segundos. Apoio as mãos nos joelhos, respirando fundo. Meu celular vibra no bolso. Outra mensagem. Número desconhecido. “Eles estão tentando te proteger. Lucas está tentando te afastar. Mas ninguém vai te salvar quando a verdade vier à tona.” Sinto um arrepio percorrer minha espinha. Olho ao redor, procurando rostos, movimentos estranhos, qualquer sinal de que não estou sozinha. Pessoas passam apressadas, vivendo suas vidas comuns, completamente alheias ao caos que se forma dentro de mim. Guardo o celular com força, como se pudesse esmagar aquela ameaça invisível. Meu irmão me avisou. As mensagens me avisaram. O silêncio de Lucas me avisou. E mesmo assim, tudo dentro de mim grita para correr até ele. Porque, se existe algo pior do que descobrir que o homem que desejo é perigoso, é continuar sem respostas. E eu sei, com uma clareza que me assusta, que estou cada vez mais perto de uma verdade que talvez nunca consiga esquecer. Mesmo que ela venha manchada de sangue.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD