Os dois estudavam na biblioteca. Sempre fazia isso juntos. Pedro tinha momentos que resvalava em grosserias. Parecia querer voltar aos velhos momentos. Serena o lembrava de que não era mais preciso aquilo.
Ele tentava se aproximar de maneira diferente dela, mas sempre vinha a questão da irmã e de sua mãe. Ficava tão frustrado que acabava sendo agressivo. Era uma defesa para evitar sentir o que sentia.
Quanto mais ele reparava no jeito doce dela, mas irritado ficava, por adorar tudo o que ela fazia, do jeito que fazia. Tudo lhe dava desejo. Já estava na idade dos hormônios mais alto.
Serena já amava ele, mas ainda estava despertando para o desejo, talvez aí estava o problema dele achar que para ela era somente um irmão. Sentia-se rejeitado. Ela não entendia. Seu amor vinha mais do coração e aos poucos estava dando lugar à paixão…não entendia mesmo a forma como ela a tratava…uma hora de forma doce, outra de forma grosseira e insensível.
Sempre quando não estava olhando, Pedro focava nos s***s dela, ou na parte da perna que aparecia. Ela não tinha muita malícia e sentava-se às vezes mostrando mais as pernas, sem querer. Ela sentia-se à vontade com Pedro. Aparentemente parecia achá-lo irmão, mas quem pudesse sentir seu coração, sabia que era por sentir-se parte de Pedro e ele dela.
Pedro só sentia a aparência. Isso dilacerava seu coração. Queria beijá-la, mas como dar esse passo, se para ela ele era só um irmão? Mesmo que ela dissesse que não, demonstrava isso. O medo do menino e a aparente frieza dela, fazia com que ele não tivesse coragem. Então refugiava-se novamente nas piadas e grosserias.
Serena agora estava mais segura e menos chorona. toda vez que ele fazia algo que não gostava, olhava firmemente e dizia não gostar. Ele retornava a calma e recuava. Oscilava entre o antigo Pedro e o novo Pedro.
Lúcio e Amália entram na biblioteca e vêem os dois lendo. Ele queria mostrar para sua esposa a quantidade de livros que possuíam. Amália fica fascinada. Poderia passar a vida dela ali. Ela começa a olhar as obras, enquanto Lúcio começa a conversar com os irmãos: - Então, Pedro está se comportando? - pergunta para Serena.
Serena: - Mais ou menos. Ele parece voltar a ser malvado, mas estou sendo firme com ele.
Lúcio dá um beijo na testa do irmão, dizendo: - Faz muito bem. Se ele não lhe obedecer, fale comigo, que puxo suas orelhas.
Pedro olha por cima do livro e fica calado. Afinal, era Lúcio.
Amália vem sorrindo. Lúcio diz, acariciando seu rosto: - Gostou , amor?
Amália: - Nossa, muito! Passaria a vida aqui.
Lúcio a olha com admiração.
Pedro se pergunta quem gostaria de viver na biblioteca? Só uma louca, mas fica calado, obviamente. Serena, já o conhecendo, parece saber o que pensava.
Lúcio e Amália saem. Serena diz: - Você não tem jeito.
Pedro: - O que?
Serena: - Sei bem o que pensou?
Pedro fala sem paciência: - Vai dizer que não é um pouco estranho? Passar a vida em uma biblioteca? Com tanta coisa para fazer?
Serena: - É porque você não gosta de ler.
Pedro: - E por acaso você gosta?
Serena: - Mais do que você, sim.
Pedro: - Só para me contrariar.
Serena: - Você é que acha tudo r**m e está sempre resmungando…
Pedro: - Eu?
Serena: - Parece estar sempre de mau humor.
Pedro: - E você parece que está sempre sorrindo com cara de i****a.
Serena: - Você está sendo grosseiro de novo.
Pedro fala gesticulando: - Vá lá contar para o irmãozinho. Fofoqueira.
Serena lhe mostra a língua e ele retribui.
Decididamente eram duas crianças. Tinham muito o que viver até se encontrarem no amor.
Micael e Clara entram na biblioteca. Ele diz a Pedro: - Quer vir orar com a gente?
Pedro olha para seu irmão com cara contrariada.
Micael, por conversar com Clara, tentava manter seu irmão no bom caminho. Odiaria perdê-lo como a Júlio. Então fala como irmão mais velho: - Eu não estou pedindo, Pedro.
Pedro levanta-se contrariado, dizendo: - Está bem.
Serena vai também.
Já era tarde e Ursinha, olhando mais gente para as orações, fica feliz e pisca para Clara.
Eles sentam-se e começam a oração. Pedro estava, em um primeiro momento segurando o riso, mas logo depois sentiu seu coração envolto de calor. Uma sensação e emoção invadiu seu ser. Ele estava calmo e sereno. Diante da oração, sentiu-se em paz. Finalmente via sentido naquilo. Serena estava surpresa com a reação de Pedro. Ele aparentemente estava concentrado e rezando.
O que não sabiam é que Pedro era médium doutrinador e, assim como Clara, sabia sair do seu corpo. Nunca tinha acontecido tal manifestação, mas diante de tanta oração, união e ajuda de seus pais, era hora dele acordar sua mediunidade. Pedro cai em transe e ele e Clara saem do corpo. Assustado olha para si, sentado à mesa. Ele olha para Clara igualmente sentada. Então diz: - Nós morremos?
Clara sorri e lhe estende a mão, dizendo: - Não, estamos só viajando conscientes, com nossos espíritos.
Pedro: - Mas isso é possível?
Clara: - Acaso não está consciente?
Pedro: - Sim.
Clara: - Não vê que é real e possível?
Pedro: - Mas isso não é plausível, devo estar sonhando. Isso! Dormi na oração…bem que senti uma paz interior…
Clara: - Espere mais um pouco e logo verá seus pais.
Pedro puxa a mão, assustado, dizendo: - Então eu morri. Fale logo a verdade…e você não é louca é bruxa.
Clara coloca a mão na cintura e diz: - Bruxa é mais plausível que isso que estamos vivendo?
Pedro: - Sei lá eu. Falei o que me veio à mente por primeiro. Nem sei mais o que digo.
Clara lhe estende a mão, dizendo: - Pedro, você tem um trabalho a realizar. Venha, seus pais lhe esperam. Você é o único que terá a graça de vê-los.
Pedro, receoso, segura a mão de Clara que o leva para a cabana de Julio.
Eles aparecem na cabana. Júlio volta a dormir, bêbado. Estava exausto e, com a atitude amistosa de Yasmin, conseguiu se entregar ao sono.
Yasmin vê os dois e sente-se aliviada. ela pensa: - Que bom que voltaram.
Pedro coloca a mão na boca dizendo: - Jesus, eu li os pensamentos dela.
Clara ri do jeito dele, explicando: - Somos espíritos e conseguimos acessar os pensamentos.
Pedro: - quer dizer que mamãe e papai acessam meus pensamentos?
Isadora diz: - Qual o motivo da preocupação, mocinho? Tem algo errado neles?
Pedro surpreso diz: - Mamãe! - ele corre abraçá-la.
Miguel, que estava dando passe em Júlio, vem e diz, abrindo os braços: - E seu pai, não ganha um abraço?
Pedro em lágrimas de felicidade corre abraçar seu pai, dizendo: - É o dia mais feliz da minha vida.
Isadora vai abraçar os dois e responde: - O primeiro de muitos.
Clara fica olhando. Yasmin consegue ver Pedro abraçando seus pais. Ela fica surpresa. Tudo era muito novo para seus conhecimentos. Elas esperam o reencontro acontecer.
Pedro chora e seus pais tentam acalmá-lo. Aos poucos Pedro vai parando de chorar e sentindo paz.
Isadora olha seriamente para Pedro, secando suas lágrimas. Ela então diz: - Precisamos de sua mediunidade.
Pedro sem entender bem o termo, questiona: - Como assim?
Miguel: - Filho, você veio com uma capacidade espiritual. Você é um doutrinador. Precisamos de você para doutrinar o possessor de Júlio.
Pedro esquiva-se: - Ele está com um demônio?
Isadora ri do jeito do filho e diz: - Não filho, possessão não é com demônios como o catolicismo diz.
Pedro: - Então é como?
Isadora: - Existem espíritos menos evoluídos, cruéis, que podem possuir corpos.
Pedro: - Como assim?
Miguel: - Calma, filho. Vamos tentar explicar. Por favor, sente-se.
Pedro senta e fica prestando atenção.
Miguel: - Os espíritos podem se apoderar do corpo de alguém, se for permitido. Isso aconteceu com Júlio.
Pedro: - Ele então não está sendo responsável pelo que está fazendo?
Isadora: - Não. Ele tem culpa de permitir que o espírito tome dele sua vontade, mas não é dele tanta maldade.
Pedro coloca a mão no peito, dizendo: - Graças a Deus. Não entendia como ele tinha ficado tão perverso.
Miguel: - Precisamos que você nos ajude a tirar esse possessor dele.
Pedro arregala os olhos, dizendo: - Mas o que eu posso fazer?
Isadora passa a mão no queixo do filho, dizendo: - Você precisa apenas respirar e fazer o que manda seu coração.
Pedro:- Meu coração está mudo.
Miguel: - Filho, olha para seu irmão e tenta apenas sentir seu coração. Vá lá e olhe para seu irmão.
Pedro olha para Júlio desmaiado com a bebida. Ao chegar perto, olhando para ele, vê que seu irmão estava com outro semblante. Era deformado. Pedro se assusta e Miguel coloca a mão no seu ombro lhe dando sensação de proteção.
Pedro sente vontade de tocar em seu irmão. Ao fazer isso, o espírito do possessor acorda olhando para ele com raiva.
Pedro tenta ir para trás, mas Miguel lhe segura, dizendo: - Ele não pode lhe fazer m*l, filho. Confie.
Pedro tem fé em seu pai. Sabia que jamais o machucaria.
O possessor diz: - Você é o irmãozinho caçula do Júlio. Veio chorar pelo irmão, veio?
Pedro respira e sente seu plexo solar emanar calor e paz, então diz: - Vim ajudá-lo e a você.
Possessor diz: - Eu não preciso de ajuda. Saia daqui.
Júlio não acordava.
Pedro sente que não podia acordar o irmão, mas sabia que precisava conversar com o possessor. Ele pergunta: - Qual é o seu nome?
O possessor não espera a pergunta. Fazia tempo que era chamado de Júlio e que ninguém o olhava e se interessava por ele. Ele fica confuso e pensativo. Não lembrava o seu nome e não sabia o que fazer.
Pedro aproxima-se e impõe as mãos. Um calor invade o peito do possessor. Ele por um momento fica quietinho sentindo-se protegido e acalentado. Depois de um tempo acorda e reage, erguendo-se e saindo de perto e dizendo: - Saia de perto. O possuidor entra no corpo de Júlio e acorda o seu corpo.
Júlio levanta-se possuído e passa a quebrar tudo. Estava transtornado com o calor e a luz que recebeu.
Pedro se afasta e olha para seus pais que fazem sinal de calma.
Isadora diz: - Está tudo bem. A doutrinação de um possessor leva tempo. Você foi muito bem.
Miguel abraça o seu filho, beijando sua testa e dizendo: - Você me deu orgulho.
Os três se abraçam e ficam assim por um tempo.
Miguel e Isadora vem até Clara para que ela transmita para Yasmin a mensagem. Yasmin só via o casal quando abraçava Pedro, mesmo assim de forma transparente.
Clara estava com Yasmin explicando tudo, conforme Miguel e Isadora falavam: - O possessor iniciou o processo de despertar. Demoram um tempo, mas já está percebendo que também está em um transe perdendo sua própria personalidade. Ele finalmente percebeu que esqueceu seu nome e sua história e que ninguém mais o olhava nem prestava atenção nele. Só viam Júlio e ele estava desaparecendo.
Yasmin presta atenção em tudo.
Clara continua comunicando tudo: - Miguel e Isadora pedem quem confie neles. Ele está agressivo e vai tentar te machucar, mas não vai conseguir. Precisa confiar e chamar por Júlio. Ele só vai despertar com você.
Pedro presta atenção em tudo. Aquilo era fascinante. Muito melhor que os livros de aventura que lia. Queria saber mais de tudo isso.
Depois de explicarem tudo para Yasmin, que começa a fingir estar dormindo, enquanto o possessor começa a beber e a falar sozinho, sem prestar atenção à sua volta, Pedro reúne-se com seus pais e Clara em um canto da cabana.
Pedro: - Não quero ir e deixá-los.
Isadora afaga o rosto do filho, dizendo: - Estaremos em breve em casa e você poderá nos ver sempre.
Pedro: - Vocês prometem?
Miguel: - Prometemos, ao menos em desdobramento.
Pedro: - Não acordado?
Isadora e Miguel se entreolham,dizendo: - Não sabemos se é vidente, mas é fato que um vidente pode desdobrar-se e ter outros tipos de mediunidade. Agora sua mediunidade vai aflorar e irá aprender a se conhecer.
Eles se despedem e Pedro e Clara partem. Chegando em seus corpos, despertam. Ursinha sente a volta dos amigos e vê seus espíritos retornarem a seus corpos, terminando a oração.
Serena e Micael ficam calados. Sentiram um distanciamento de Pedro e Clara. Micael agora entendia tudo, mas ainda assim ficava surpreso com o novo mundo que se abrira.
Pedro estava em prantos. Ele começa a chorar sem parar. Serena levanta-se e o abraça. Ele lhe abraça firme. Tudo o que precisava era sentir seu lar em Serena.
Ursinha serve um pouco de água fluida e lhe dá para beber.
Ao beber Pedro vai se acalmando. Era uma água com remédio espiritual, daí o nome.
Serena abraçada nele, pergunta: - O que houve, qual o motivo desse choro? Nunca te vi chorar assim…
Micael sabia que a verdade precisava ser dita ali naquela mesa. Era momento de pararem com meias palavras, então ele abre o verbo: - Creio que devia sentar, Serena. Clara e Pedro precisam te contar algo.
Todos olham para Micael que olha para Pedro e faz sim, firmemente com a cabeça.
Pedro diz, temendo a reação de Serena: - Eu saí do meu corpo e fui onde Júlio está com a moça aquela desaparecida.
Serena arregala os olhos inocentemente, dizendo: - Yasmin?
Pedro: - Sim. Ela está prisioneira do Júlio.
Serena fala exaltada: -Eu não acredito que ele fez isso!
Pedro: - Se acalme. Ele na verdade não fez.
Serena confusa, diz: - Como assim?
Pedro olha para Micael que balança a cabeça, afirmando para o irmão contar. Ele então conta tudo a Serena que escuta calada. No final ela continua muda e Pedro diz com a sua costumeira impaciência: - Não vai dizer nada?
Serena: - Graças a Deus. - fala deitando-se sobre a mesa, escondendo seu rosto.
Pedro coloca a mão no ombro dela, dizendo: - Graças a Deus por qual motivo?
Serena ergue-se e diz: - Achei que estava ficando maluca.
Pedro: - E qual o motivo?
Serena: - Escutava mamãe falando com Ursinha e quase morria de medo.
Ursinha: - Menina, você ficava ouvindo atrás da porta?
Serena fala assustada: - Não! Quando começava a escutar a voz dela eu ia correndo para perto de Pedro. Ele fala tanto que abafa qualquer som.
Todos riem.
Pedro diz: - Por que não me contou?
Serena: - Achei que fosse rir de mim e me chamar de louca. - ela olha para Clara, dizendo: -Desculpe.
Clara: - Já estou acostumada.
Micael segura sua mão.
Clara diz: - Mas sinto-me agora em casa e com a minha verdadeira família.
Pedro: - Confesso que achava tudo uma bobagem e…- ele faz uma pausa, terminando: - Desculpe, Clara, mas te achava louca. Agora que vi o que vi, passei pelo que passei, não duvido mais. Quero saber muito, cada vez mais.
Ursinha diz: - Que bom, pois temos muito o que ler e estudar.
Pela primeira vez Pedro estava animado para isso. Odiava ler e estudar, fazia por obrigação, mas sentia-se entusiasmado e no caminho certo para se aproximar dos seus pais.
Ele diz: - Tem mais uma coisa.
Todos olham para ele.
Pedro: - Vi papai e mamãe.
Micael sorri.
Pedro: - Não sei se vou ver sempre, mas eles me disseram que quando sair do meu corpo posso vê-los.
Ursinha: - Já que estamos confessando…vocês se achavam já perdendo minhas faculdades mentais pela idade…e, na verdade, vejo os pais de vocês.
Micael: - Nossa! Será que tenho um poder dessas?
Ursinha o corrige: - Não é um poder, filho. Mediunidade é sério e todos temos a nossa, mas alguns não afloram. Se você começar a estudar, vai aflorar a sua.
Micael diz: - Pois vamos estudar!
Pedro diz: - Vamos comer, que estou morrendo de fome, depois estudamos.
Ursinha diz: - Podemos estudar depois da janta. Agora preciso começar a fazê-la.
Todos ajudam a arrumar a mesa de café, conversam e trocam experiências. Micael fica empolgado tentando descobrir qual seria sua mediunidade. Ursinha começa a ensinar algumas coisas e Clara estava olhando feliz, por se sentir em casa. Serena já prestava atenção em tudo. Pedro interrompia e questionava Ursinha pela sua ânsia em entender tudo. Todos falavam juntos, empolgados com as novas descobertas. Tinham certeza que estava em um caminho certo e repleto de novos acontecimentos. Pedro sentia seus pais perto, novamente e tinha se curado daquela dor da perda que tanto insistia em confundi-lo.