CAP 29 - LUCAS E IOLANDA PARTE 3

2813 Words
Era chegada a hora de Lucas se desligar da sua batina. Iolanda começava a ficar com medo e sentia que padre Emanuel fazia de tudo para mantê-lo na igreja. Temia que Lucas voltasse atrás. Ele tinha combinado com todos a cerimônia no dia seguinte. Padre Emanuel tenta dissuadi-lo a prorrogar mais uma vez devido à chegada de Alencar e Glória, mas Emanuel sabia que Samuel e os dois estavam encaminhados. Já não havia necessidade de sua presença lá. Ademais, os três partiriam para as terras dos irmãos. Lá encontrariam trabalho e abrigo longe de Júlio e protegidos por Lúcio. Já sem a batina, Lucas está com Iolanda, sentados em um banco no pátio da paróquia, olhando as estrelas. Eles estão abraçados e ele beija sua testa. Era maravilhoso estarem ali, juntos, simplesmente admirando as estrelas e a lua. Coisa que pouco faziam, já que viviam em trabalhos comunitários. Lucas: - Nem acredito que amanhã iremos para nosso cantinho. Lúcio fez questão de construir um chalé para termos nossa privacidade. A casa está cheia e tem muito barulho e movimento. Iolanda: - Gosto de uma casa cheia. É alegria. Nunca tive família. Lucas: - Se quiser podemos ficar na casa grande. Lá tem vários quartos. Iolanda: - Não, eu vou adorar ter um cantinho nosso, só estava comentando que não me importo. Estando com você é lar. Os dois se beijam. Padre Emanuel chega e fica constrangido com o beijo. Lucas ao ouvi-lo termina o beijo, dizendo: - Padre Emanuel, do que precisa? Padre Emanuel fala sem graça: - Não quis incomodar o casal. Vim apenas para dar boa noite, já vou me recolher. Na verdade ele tentaria deixar Lucas com a consciência pesada em partir. Era um traço triste, de caráter, do religioso. Tentava com chantagem emocional afetar Lucas e sua decisão. Só que dessa vez, Lucas estava certo do que queria. Pela primeira vez sentia-se feliz e livre e não entendia como se enganou tanto com seu coração. Emanuel sai. Iolanda diz: - Tenho certeza que veio tentar convencê-lo a adiar mais nosso casamento. Lucas sorri, concordando. Os dois seguem abraçadinhos, com suas cabeças encostadas apenas sentindo paz. A presença um do outro era tudo o que precisavam. Alencar chega no pátio e tenta dar meia volta, mas Lucas diz:- Vem cá, meu novo amigo. Pronto para irmos amanhã para casa? Lucas queria deixar todos bem. Sabia o quanto era r**m não ter um lar, pois via junto a comunidade a dor e a carência. Iolanda era prova viva disso. Tentava sempre acolher a todos, generosamente. Alencar sorri, encabulado. Não estava acostumado com tanta bondade e generosidade. Ele fica calado e depois de instantes, diz - Parece um sonho. Lucas: - Pois não é. Lúcio e meus irmãos, chegamos a conclusão que temos que ajudar nossos cooperadores de alguma forma. Você vai trabalhar, ganhar o justo e comprar seu lote e sua casa como tantos que trabalham com a gente. Tudo de forma justa e correta. Com esse dinheiro, Lúcio investe em novas terras e vai ajudando mais pessoas que vão chegando para trabalhar. Pode plantar e cultivar o que quiser e vender se quiser para a cidade. Temos um grupo que já faz isso. Inclusive as mulheres bordam, fazem trabalho de rendas e alimentos para vender também. Muitas confeitarias já se renderam a essas facilidades. Não conseguem produzir tudo o que vender e buscar de fora mais produtos e de diferentes sabores. Alencar: - É difícil mesmo pessoas serem assim, como vocês. Geralmente exploram e querem sempre mais. O que vocês ganham fazendo isso? Lucas respira e sorri. Lembra do seu pai, que lhe ensinou muito bem e de seu irmão Lúcio que sabia seguir seus passos e ser a base dele e de seus irmãos. Em segundos foi grato a Deus pela família que teve de grandes homens e mulheres. Tinha visto, no sacerdócio, tanta miséria não só financeira, mas emocional. Percebe o quanto era bendito e responde: - Ganhamos a consciência tranquila de fazer a nossa parte. Tivemos terras de nossos antepassados como herança, temos mais que o suficientes para nós e nossos filhos, então qual o sentido de acumular mais? Trabalhamos para manter o que temos e ajudar quem não tem. Não seria esse o sentido da vida? Alencar estava com o coração cheio de esperança. Nunca tinha conhecido pessoas assim, temia estar confiando demais e, ao mesmo tempo, sentia a bondade em todos ali. Precisava pagar para ver e ia. Já estava decidido. Estava curioso para conhecer esse tal Lúcio. Iolanda diz, empolgada: - Eu vou querer fazer algo, seja ajudar a Dona Úrsula, ou fazer algo para fora. Não sei ficar quieta sem fazer nada. Lucas fala: - Se ela escuta que a chamou de dona vai te dar um puxão de orelha. Iolanda sorri. Alencar fica mais surpreso ainda. Naquela época, a mulher quase não participava das conversas. Ele não concordava com isso, pois tinha tido grandes mulheres em sua vida, que eram guerreiras. Mas era uma época que quanto mais submissa mais perfeita a mulher seria. Com a graça de Deus isso mudaria com o tempo. Alencar não consegue esconder sua cara perplexa. Lucas diz: - O que está surpreso, meu amigo? Alencar: - sinceramente? Lucas faz sim com a cabeça. Alencar: - Com tudo. Vocês são homens incomuns. Lucas sorri, dizendo: - Isso é algo bom… Alencar: - O modo como tratam os excluídos e, nesse grupo, as mulheres… isso é fantástico. Lucas: - Sabia que pensava assim e sentia isso em seu coração. Nunca me engano com uma pessoa. Alencar sorri. Glória chega e senta-se do lado de Alencar, em outro banco, dizendo: - Que bom que estão conversando. Não consigo dormir, estou empolgada, com amanhã. Na verdade ela estava feliz, pois iria mudar para uma casa e um lote junto de Alencar. Eles até questionaram se ela gostaria de ficar na casa grande, ou ter sua própria terra, mas Alencar se adiantou e ela concordou, dizendo que morariam no mesmo lugar. Tinha um compromisso subentendido entre eles. O que era visível para os que se aproximavam. Como de costume, os irmãos não se metiam e nem julgavam. Estavam ali para ajudar. Todos teriam seu próprio canto, inclusive Samuel, que pensava em recomeçar sua vida e sonhava com Yasmin. Ele estava em seu quarto lembrando da moça. Será que estaria bem? O que será que aquele maluco estava fazendo com ela? Pensamentos terríveis lhe assolavam a mente. Ele simplesmente não conseguia dormir, nem se acalmar. Será que ela estaria viva?Só de imaginar o mundo sem ela…não poderia. Ele lembra-se dela dançando e sorrindo. Tinha sempre lhe tratado bem. Podia agora recomeçar. Sua história não era muito animadora. Tinha vindo, fugido de uma aldeia distante. Samuel foi vítima de vigaristas que não só lhe furtaram tudo o que tinha, como lhe fizeram parecer culpado de um grave crime. Assustado, fugiu com as roupas do corpo. Era sozinho e muito bem de vida, mas não teria chance de provar inocência. Tudo tinha sido preparado de uma forma sórdida e premeditada, como pessoas cruéis sabem fazer. Ele estava confuso e perdido. Era um boêmio sem se importar com nada. tudo que lhe acontecera o fez acordar para a vida. Conheceu de perto a maldade humana, mas também a face da verdadeira bondade. Jamais tinha aprendido tanto e crescido tanto como pessoa. Era um mimado, sem ligar para nada e nem para ninguém. Usava as mulheres como trocava de roupas. Simplesmente fazia o que lhe dava prazer sem pensar em consequências. Finalmente entendeu que colheu o que plantou e sentiu-se merecedor de tudo de r**m que lhe aconteceu. Mas conhecer Yasmin era como se, finalmente, estivesse tendo sua redenção. Depois de tanto tempo, sentiu que merecia algo bom e, se ela lhe desse uma chance, passaria a vida tentando lhe fazer feliz. Um grande peso lhe veio ao coração. Sentia que se a perdesse….se ela apenas não existisse mais, iria para o inferno novamente,mas materia aquele juizinho sem escrúpulos. Samuel fica ali remoendo pensamentos. Ele então faz algo que nunca mais tinha feito desde sua infância, quando sua mãe estava viva: Começou a rezar por Yasmin. A moça, de lá onde estava, sentiu uma leve sensação de acolhida e paz. Se todos soubessem a força que existe em uma oração…infelizmente muitos crêem não ser de grande valia, nesta nossa terra de ninguém. Eles seguem conversando até mais tarde e vão se deitar. Alencar acompanha Glória até seu quarto e se despede lhe dando um beijo na testa, dizendo: - Boa noite. Glória diz: - Nem acredito que amanhã estaremos em nossa casa. Alencar sorri. Era algo que tinha um efeito sonoro diferente. Nunca havia escutado aquilo de uma mulher. Naquele momento queria dizer muitas coisas, mas não sabia o que dizer. Glória já estava acostumada com o jeito ogro dele e tentava não esperar muito. Do jeito dele, no tempo dele, sempre a surpreendia. Não era assim o príncipe encantado dos livros, mas era perfeito para ela. Não queria mudar nada nele. Ela então sorri e entra. O coração dele se alegrava ao ver que ela o entendia. Sabia o quanto demonstrar sentimento lhe era difícil e não insistia. Ele saí e vai para seu quarto. Padre Emanuel, só consegue dormir depois de escutar a porta do quarto de Alencar. Sabia que Lucas jamais desonraria a casa de Deus, mas esse homem totalmente estranho…já tinha suas dúvidas. Lucas leva Iolanda para seu quarto. Ela coloca seus braços em volta de sua nuca, dizendo:- Amanhã estaremos juntinhos em nossa casinha. Lucas lhe dá um leve beijinho na boca e outro na testa, dizendo: - Não vejo a hora. Os dois dão mais um beijinho e Iolanda entra. Lucas vai para seu quarto e fica sonhando mais um pouco até dormir. Eles sentiam paixão, mas sabiam que teriam a vida inteira agora pela frente. Faltava apenas algumas horas para serem um do outro. Uma doce paz invadiu seus corações. O medo de não acontecer esse encontro de almas, corpos e espírito tinha ido embora, substituído pela certeza do destino. Até ali, tinham sofrido todas as noites, desde que se entenderam estar apaixonados, pela distância e a impossibilidade do toque. Naquela noite seus corações estavam em paz. Conseguiram dormir esperando um futuro juntos. Na manhã seguinte, cedinho, as irmãs começaram a arrumar tudo. Iam enfeitar com flores do campo que tinham sido trazidas por Lúcio das terras dos irmãos. Amália e as meninas estavam ajudando Iolanda. Lúcio e os meninos, ajudavam Lucas. Alencar e Glória ajudavam as irmãs e não tinham sido apresentados a Lúcio ainda. Perto da hora da cerimônia, Lúcio sai do quarto do irmão e vai até o altar. Uma tristeza lhe invade a alma. Lembra que faltava seus pais e um dos seus irmãos. Sentia falta de Júlio. Não de quem se tornara, mas de quem lembrava ser. Aquele sentimento saiu do peito de Lúcio e foi para o de Júlio. Amor sentido é como oração, invade, transforma, liberta, acolhe, cura e renova. Júlio em seu labirinto estava cansado. Sentia que jamais sairia dali. Andava e andava e a luz nunca estava próxima. Parecia que nunca a alcançaria. A luz dos sentimentos de Lúcio invade o peito de Júlio e ele sente-se forte novamente. Uma súbita coragem lhe faz seguir sem mais temer. Era a força do amor. Nunca duvidem dela. Alencar vê Lúcio e sabe exatamente quem deveria ser. Ele se aproxima e estende a mão. Lúcio acorda de seu aparente transe e corresponde dizendo: - Lúcio. Alencar diz seu nome. Lúcio: - Prazer conhecê-lo, finalmente. Glória se aproxima, dizendo e estendendo a mão, cumprimento não comum vindo das mulheres: - Glória. Lúcio gosta do jeito da moça e sorri, dizendo: - Lúcio. Prazer conhecê-la minha jovem. Todos chegam e se colocam nos lugares. Lucas está no altar como um noivo. Padre Emanuel, finalmente se dá por vencido e resolve fazer a coisa certa. Tinha algumas coisas para melhorar, mas no fundo tinha um bom coração. Um pouco confuso e perdido, mas bom. Iolanda entra e sorri para Lucas que sorri de volta. A Cerimônia acontece e eles ganham as bênçãos não do sacramento católico de matrimônio, mas de Deus por um padre e amigo. Para ambos era mais do que suficiente, pois sabia ser Deus a os unir para sempre e não os homens. Depois da cerimônia, as irmãs fizeram um bolo bonito e enfeitado com café. Era presente para o casal. Estava chorando. Tinham se apegado aos dois e sabia que partiriam. Lucas e Iolanda, as abraçam, agradecendo o gesto de carinho. Terminando de comer e confraternizar, eles vão até o quarto pegar suas coisas. Despedem-se das irmãs e do padre. Samuel é ajudado pelos meninos a entrar na carruagem. O padre Emanuel diz: - Cuide-se do meu filho. Nunca deixe de fazer suas orações. - diz lhe dando um abraço. Lucas responde: - Jamais, obrigado por tudo. Ao virarem-se vinham todos da comunidade. Lucas e Iolanda não esperavam o gesto. Todos que ajudaram quiseram vir e os homenagear. Não tinha muito, mas quiseram trazer alguma coisa. Os que nada tinham lhe davam flores. Os dois ficaram emocionados e surpresos. Um dos aldeões chegou perto e lhes deu um abraço dizendo: - Em nome de todos, agradecemos tudo que fizeram pela gente e saibam que sempre poderão contar com todos nós. Lucas fala com seu coração: - Todos nós somos responsáveis pela nossa comunidade. Cada um deve seguir fazendo sua parte e ajudando. Unidos, como estivemos até agora, poderemos mudar essa realidade dura que vivemos. Eu e Iolanda não vamos deixar de ajudá-los. Vamos apenas mudar para um pouco mais longe e seremos agora um casal, mas estarei sempre disposto a ajudar, se continuarem me aceitando como amigo. O homem escolhido para falar por todos diz: - Não precisa nem perguntar. Você sempre estará em nossos corações e sempre será o amigo que confiamos e amamos. Todos aplaudem para concordarem com a fala do senhor. Iolanda, Lucas e os demais entram na carruagem e saem emocionados. Lá dentro, Iolanda segura na mão de Lucas que derrama uma lágrima. Seu coração estava se despedindo do padre e abraçando o homem apaixonado. Ao chegarem nas terras dos irmãos, Glória, Alencar e Samuel ficam surpresos com o tamanho de tudo. A carruagem deles seguem viagem, mas antes Lúcio diz: - Agora vocês vão ser levados para suas casas. Qualquer coisa esta é minha casa e Lucas estará logo ali. - diz mostrando as respectivas casas enquanto falava. Qualquer hora que precisarem. Amanhã estarei em suas casas para conversar e combinar tudo. Lucas e Iolanda vão para sua casa. Pequena, simples, mas deles. Ela não acredita ao olhar a delicadeza dos detalhes. Lucas fez questão de fazer um canteiro com suas flores preferidas. Ele abre a porta, dizendo: - Amada esposa, entre em seu lar. Iolanda abre um sorriso. Ela entra e começa a olhar tudo. Lucas fez tudo com detalhes, sabendo o que ela amava. Olhando tudo ela o abraça, dizendo: - Você lembra de tudo que te falei, de tudo que gosto. Lucas: - Cada detalhe e cada segundo do teu lado está gravado em mim. Creio que sempre te amei, mas demorei a perceber. Iolanda o beija e os dois finalmente se entregam ao amor, sem culpa nem receios. Glória e Alencar chegam em sua casa. A de Samuel ficava ao lado, um pouco mais adiante. Lúcio quis deixá-los próximos, já que já tinham uma amizade. Isso ajudaria na adaptação. Glória não acreditava no que estava vendo. Sua alegria deixava Alencar rindo à toa. Estava mais feliz pela felicidade dela, do que por ele propriamente dito. Ela entra na casa sem nem esperá-lo. Alencar olha para Samuel e sorri, o amigo, olhando de longe, sorri de volta e entra na sua casa. Estava feliz e sentindo-se seguro. Alencar entra atrás de Glória que não parava quieta. Parecia que tinha voltado a ser criança. . Ela gritava, mexia em tudo, falava sem parar e estava feliz. Sentia-se livre e, principalmente, no seu íntimo sabia ser seu lar com quem amava. Era um novo tempo, um novo recomeço. Tinha perdido tudo com a morte de sua mãe...com a possibilidade de reencontrar seu pai, tinha se iludido em ter algo de volta...uma família, mas em percebendo tudo o que lhe custaria, mais uma vez sentiu-se perdendo tudo. Agora, ao lado de Alencar, era como se finalmente tivesse algo seu que não a deixaria. Sentia que seria por muito tempo...e não sabia explicar. Ela olha para ele e o vê como seu amor. Ali percebe o que sentia. Se até ali estava despertando para o desejo, ao olhar para ele, percebendo que tinha uma família novamente, o desejo lhe invadia sem pudores. Que estranho sentimento lhe visitava a alma e o corpo? Alencar lhe olha com desejo.
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