CAP 22 - LÚCIO E AMÁLIA PARTE 4

2438 Words
Conforme Lúcio conversou com Lucas, ele decidiu procurar Amália e contar toda a verdade. Sabia ser essa a melhor decisão. Chegando na casa da moça, sua família já os deixavam a sós devido ao compromisso marcado. Iriam casar em duas semanas. Naquela época era normal casar sem muito tempo de conhecimento e por algum tipo de benefícios mútuos. No caso de Amália, era seu pai quem iria beneficiar-se. Lúcio e Amália já se acompanhavam de longe por quase um ano. Sentiam que se conheciam há muito tempo. Isso era devido à forte ligação espiritual de outras vidas. Tinha vindo, por exemplo, em uma vida na Índia onde pertenciam a castas diferentes, não podendo ficar junto. Lúcio, sempre mais bonito que Amália, decidiu passar aquela vida ao lado dela e mesmo não podendo ficar juntos como casal, não se separaram como amigos. Ela não se casou, nem ele e viveram assim, respeitando sua religião e seu amor. Essas eram as vidas que Angélica lembrava e tinha confirmado com terapia de vidas passadas. Ela tinha também lembranças da erraticidade na colônia espiritual e no umbral, mas não gostava de comentar, nem pensar a respeito. Lúcio convida Amália para passearem no jardim. Precisava ter certeza que ninguém os escutaria. A moça gosta da ideia, afinal amava natureza. Angélica estava junto e com o semblante aliviado. Aquilo tinha mudado. No que se lembrara, jamais tinha contado a ela toda a verdade. Seria possível mudar mesmo o passado? Ela fica observando e orando. Eles sentam-se em uma cadeira branca de madeira, estilo da época. Lúcio pega a mão de Amália, que percebe sua angústia. Amália: - O que está acontecendo? Você sabe que pode me falar tudo o que precisar, não é? Lúcio: - Tenho certeza disso, mas… - ele hesita por uns segundos… Amália: - Mas? Lúcio: - Só me prometa que não vai duvidar do meu amor por você? Amália olha nos olhos de Lúcio. era impossível duvidar de qualquer coisa que ele lhe dissesse. Ela delicadamente diz: - Prometo. Lúcio: - Faz meses que olho para você e quero me aproximar, mas só a pouco tempo, que descobri ser a filha do senador Nicolau. Amália: - E isso teria importância por qual motivo? Lúcio: - Eu precisava me aproximar do seu pai…- diz pausadamente. Amália: - Por qual motivo? Não estou entendendo… Lúcio: - Seu pai era inimigo político do meu pai. Poucos dias antes de morrer, descobriu algumas coisas a respeito do seu pai, desconfio. Amália não se surpreenderia se descobrisse maldade no seu pai. Percebia seus valores distorcidos e um certo grau de maldade, mas procurava não julgar, afinal era seu pai...não podia mudar isso, embora quisesse. Admirava o pai de Lúcio em tudo. Era um exemplo de homem, cidadão e pai. Um verdadeiro modelo a ser seguido. Algo em seu coração também estranhou a morte daquele forma dos pais de Lúcio, mas guardava para ela. Ela fica calada, esperando ele desabafar. Sabia que estava sendo difícil, era como se sentisse o que ele estava sentindo. Lúcio respira e continua: - O incêndio foi dito como acidental pelas autoridades competentes, porém eu desconfio. Papai não era descuidado, nem mamãe. Eu sei disso! Amália: - E você acha que papai teve algo a ver com isso? Lúcio: - Desconfio. Papai iria levar a público essas informações. Amália fica calada. De alguma forma aquilo fazia sentido para ela. Ela diz: - Lembro que na noite da morte dos seus pais, papai estava muito agitado, fumou vários charutos naquela noite. Eu lembro porque gostava muito do seu pai. Fiquei chocada com sua morte. Lúcio estava comovido com os sentimentos de Amália por seu pai. Sabia que se fosse vivo, adoraria aquela moça. Ele diz: - Eu só preciso que saiba que não quis firmar compromisso com você, para me aproximar do seu pai. Isso aconteceu inevitavelmente. Amália diz: - Tenho certeza disso. Tenho certeza, que de alguma forma, posso ajudá-lo nessa sua angústia. Aquelas palavras deixaram o coração de Lúcio calmo. Desde que firmou compromisso com a moça, sentia-se angustiado e com medo de um mau entendido. Ele lhe beija as mãos, dizendo: - Eu sabia que podia contar com você. Amália: - Sempre. E do jeito que demonstra confiar em mim, pode ter certeza que aconteça o que acontecer, sempre vou ouvir seu lado primeiro e permanecer nele. Lúcio olha para ela e hesita novamente. Amália: - Acho que tem uma segunda parte nessa conversa, não? Angélica estava emocionada. Toda vez que vinham lembranças de outra vida, faltava confiança e entrega de ambos. Era como se o amor deles não fosse o suficiente para estabelecerem um laço de cumplicidade. Faltava justamente isso. Realmente tudo estava ficando diferente.Será que seu futuro mudaria, afinal? Lúcio diz, suavemente, sem impor nada: - Talvez, precise iniciar carreira na política, para conquistar a confiança do seu pai. Amália realmente não se importava. Se ele quisesse, tivesse vocação ou só um motivo forte, ela entendia. Só ficava com medo pelos avisos de Clara. Ela fica com o semblante fechado. Lúcio: - Vejo que agora, você tem algo a me dizer. Amália: - Sim, eu tenho. Já que estamos conversando sobre tudo e abrindo nossos corações… Lúcio: - Sim… Amália: - Agora me prometa que não vai me achar louca? Lúcio dá uma risada espontânea. Do que ela estaria falando? Ele diz: - Prometo que nunca farei isso, mas qual o motivo desse medo? Amália: - Explico, mas preciso que mantenha a mente aberta. Lúcio diz: - Prometo. Amália: - Minha irmã é chamada de louca por um motivo, certo? Lúcio: - Sim. Amália: - Ela conversa com espíritos, entre outras coisas. Lúcio: - Assim dizem… Amália: - Você acredita nisso? Lúcio: - Não sei o que pensar sobre isso. Nasci e me criei no catolicismo. Sei que já peguei minha mãe, quando viva, lendo livros que falavam de vida após a morte. Eu acredito que não acabamos aqui. Qual o sentido de uma criança morrer e ir para o mesmo lugar que um assassino? Ou sermos condenados eternamente ao inferno, por um erro, sem chance de nos redimir? Simplesmente não creio que estamos aqui ao acaso sem um plano, ou um cuidado. Amália: - Então você acredita em uma vida após a morte? Lúcio: - Sim. Agora estudar as doutrinas que falam disso, nunca estudei. Não posso lhe dizer se acredito em algo que nunca procurei entender. Amália: - Eu acredito em minha irmã. Ela já teve confirmações do que dizia. O fato é que acredito nela, sem precisar de confirmações científicas. Eu realmente sei que o que ela diz é verdade, de alguma forma, por mais incrível que possa parecer. Lúcio: - Se acredita, eu confio em seu julgamento. Amália ficava com o coração sorrindo, toda vez que Lúcio falava algo assim. Ele sempre sabia o que dizer. Parecia ter o dom natural para isso. Ela então prossegue em seu raciocínio: - Ela veio me falar que você corria perigo se iniciasse na política. Lúcio fica pensativo. Amália: - Eu realmente acredito que algo de r**m pode acontecer se prosseguir nisso...e se está me dizendo que fará isso para descobrir sobre um assassinato, meu coração fica apertado com isso. Lúcio só conseguia pensar, em o quanto era importante para ele, saber que ela se preocupava. Ele pensa um pouco e responde: - Se houver alguma outra forma para descobrir. Amália: - Eu sinceramente não me importo se vai ou não seguir alguma carreira, seja ela qual for. Se estiver feliz. Só que nesse caso, nem seria vocação, seria apenas um meio para atingir um fim. Sabemos que meu pai não é correto como o seu era. Talvez esse meio te leve para caminhos sem volta. Tem que ter outra forma de descobrirmos. Lúcio sorri com um “nós”. Foi a primeira vez que ouviu isso de Amália. Era bobo achar que todo o resto não importava? Amália olha a expressão dele sorrindo e diz: - O que está sorrindo? Lúcio: - Você falou "nós'' ...implícito, mas falou. Amália agrada seu rosto. Lúcio lhe dá um suave beijo, sendo correspondido. Angélica derrama uma lágrima. Então começa a desaparecer, acordando em sua cama. Débora estava lhe ajeitando as cobertas. Ao ver que a amiga desperta, diz: - Perdão, querida, não quis lhe acordar. Só estava ajeitando mais uma coberta. Está esfriando. Angélica olha pela janela. Ela perde pelos cães. Débora: - Estão pela casa. Sempre vem te ver. Angélica: - Quanto partir, você cuidará de todos para mim, não? Débora segura a mão da amiga. Sabia que se sentiria melhor se confirmasse: - Sim, fique tranquila. Angélica: - Estou com vontade de comer biscoito de Natal. Sonhei com isso. Débora: - Não tenho pronto, mas posso fazer. Angélica: - Aquele que fazíamos juntas? Débora: - Sim, receita de seu avô… Angélica sorri lembrando dos avós. Não gostava de ser de origem alemã, mas tinha orgulho de ter sido neta deles. Mesmo do seu avô, que não era bom marido, nem pai, nem boa pessoa, mas lhe foi ótimo avô. Carregava uma foto de Hitler no bolso com orgulho. Angélica lembrava que seu avô sempre lhe fazia biscoitos de natal. Era seu aniversário e ele e sua avó nunca deixavam de comemorar. Angélica amava o natal, embora não tivesse muitas boas lembranças com ele. Mas a época, os enfeites, as histórias, a culinária, o clima de renovação, o que as pessoas acreditam nesse momento, que deveriam acreditar sempre...aquilo enchia seu coração de paz. Ela sorri lembrando de bonecos de neve. Era algo norte americano, mas muito natalino. Ela estava feliz, realmente acreditava que tinha voltado ao passado e mudado tudo. Então pede a amiga: - Seria possível enfeitar a casa como se fosse natal? Débora fica emocionada, segura em sua mão e diz: - Claro, minha amiga. Não vejo motivo para não fazermos. Angélica: - O pinheirinho tem que estar no quarto, quero pisca pisca colorido… Débora: - Vou providenciar. Agora tente dormir um pouco. Angélica volta a dormir e está novamente naquele jardim junto a Amália e Lúcio. Eles terminam o beijo e ficam por um tempo em silêncio, com o nariz e a testa unidos. Ela fica olhando e lembrando do quanto era bom ficar assim com ele. Lúcio diz: - Eu te amo. Amália responde: - Eu também te amo. Angélica pensa: - Isso nunca aconteceu. Realmente tudo vai mudar… Os dois ficam ali abraçados, olhando tudo quietos. A sensação era de paz e plenitude. Não importava o que acontecesse, se estivessem juntos tudo ficaria bem. Naquele momento decidiram nunca mentir um para o outro, nem esconder nada, nem duvidar um do outro. Depois de um tempo voltam para a casa da moça. Lúcio se despede com um selinho e Amália segura seu rosto com uma das mãos, acariciando. Ele sai para casa e ela vai para o quarto pensar nele. Lúcio estava sorridente de um jeito t**o. Finalmente ela se declarou. Faltavam duas semanas para não se separar mais dela e tudo ficaria bem. Chegando em casa vai para seu escritório. Ficava ali horas, lendo e estudando, quando não tinha paciente. Naquela época atendia em casa, quando chamado. Tinha dias da semana que passava nas casas dos mais humildes e lhes atendia de graça. Lúcio também ia nos asilos e orfanatos prestar atendimento gratuito. Tudo que podia fazer, fazia. Seus pais haviam lhe deixado bem, ele e seus irmãos e, quando não estava administrando o patrimônio da família, geralmente exercia medicina gratuitamente, só cobrando de nobres e afortunados. Ele seguia os passos de Miguel, mesmo não exercendo a mesma profissão. Pensativo, fica lembrando de sua conversa com Amália. Miguel, perto do filho, lhe diz, sussurrando nos pensamentos: - Deixe isso de descobrir da minha morte de lado, filho. Vai viver sua vida, distribuir a bondade no seu coração, viver em paz com sua família. Isso que importa. Faça o bem, mas não fique querendo consertar tudo no mesmo dia. As coisas se ajeitam com o tempo. Isadora abraça Miguel. Ambos queriam ver seu filho seguindo seu caminho em paz. Lúcio fica por um momento pensando em se dedicar somente à medicina, Amália e os irmãos. Deixar isso de descobrir a verdade para lá, mas devia isso a seu pai. Miguel lhe sussurra no ouvido: - Você não me deve nada. Acha que não quero te ver feliz com sua vida? Estarei em paz se você estiver em paz. Depois da morte do seu pai, Lúcio nunca mais sentira seu coração em paz como naquele momento. Era como se estivesse conseguindo aceitar sua perda. Algo tinha aquietado, ele sorri e pensa: Será a magia do amor? Miguel e Isadora sorriem. Ela diz: - É sim meu bebê, a magia do amor. Ele cura tudo e transforma o mundo em um lugar melhor. Não é preciso muito nessa vida, só amar e transbordar esse amor… Lúcio estava sorrindo, pensando em Amália. Tudo parecia fazer sentido agora. Amá-la até ali lhe fez feliz, mas saber que era correspondido lhe fez pleno. Quase não conseguia parar de sonhar. Amália também estava lá em seu quarto sonhando com Lúcio. Era como se eles estivessem conectados em pensamento. E estavam. Sentiam a presença do outro de maneira mágica. Enquanto ele estava ali espiritualmente junto de Amália em um enlace, Isadora fala a Miguel: - Será que ele vai seguir? Miguel: - Espero que sim. Não conseguimos descobrir nada sobre o futuro dele, afinal ele ainda está fazendo suas escolhas. Nem descobrimos nada da tal Angélica. Como não a vemos ou ela nos vê?E como Clara consegue? Isadora: - Estou com meu coração de mãe apertado. Ele precisa ter um destino melhor que o nosso. Miguel: - E terá. Faremos de tudo para isso. Os dois dão um longo passe em Lúcio, que tem sua aura envolta de uma luz azul. Angélica está ali, mas não enxerga ambos, nem eles, a ela. Novamente pareciam em dimensões paralelas. Ambos saem e Lúcio vai para o quarto. estava sentindo um leve torpor, uma sonolência. Angélica o acompanha mantendo distância. Era estranho Lúcio deitar no meio do dia, mas ele precisava. Seus pais haviam lhe dado um passe restaurados e sua energia tinha lhe deixado anestesiado espiritualmente. Ele deita e se desprende do seu corpo. Ao desprender-se do corpo enxerga seus pais, que o esperavam de braços abertos. Que felicidade estava sentindo, achou que jamais os veria de novo, não em vida. Estava consciente. Ele fica ali, abraçado neles como um menino pequeno precisando de colo dos pais. Isadora lhe dá um beijo na testa e Miguel lhe afaga o rosto suavemente.
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