Mauro e Madalena conversam e a moça vai para casa.
Ambos estavam encantados um com o outro. Madalena nem sonhava que era seu pai, e que aquele era o cunhado dele.
Ao chegar em casa, Madalena vê sua mãe visivelmente doente. Estava com o aspecto abatido que se prolongava por dias.
Madalena - Mamãe, precisa ir ao médico.
Marta: - Só estou cansada. Logo passa.
Madalena: - Sabia que não passaria. Sua mãe estava emagrecendo muito rápido e tinha uma tosse seca e constante. Se escondia o tempo todo e estava sempre muito cansada.
O que Madalena não sabia era que Marta já tinha ido ao médico e sabia exatamente o que tinha. Era questão de tempo para seu desencarne. Estava em conflito se contava ou não a Miguel antes de partir. Ficava olhando Madalena estudar e pensando no que seria da moça sozinha no mundo. Ela passou a ensinar Madalena tudo, afinal era seu negócio. Madalena não queria saber daquilo...queria ser professora...ensinar...Não entendia o motivo de sua mãe querer-lhe ensinar tudo de um negócio que não era dela.
Marta exigia a atenção da moça, que fazia para agradar sua mãe e evitar que se aborrecesse.
Madalena e Mauro começam a se encontrar diariamente. Ele resolveu separar as coisas entre a mãe da moça e ela. Ia buscá-la sempre nas casas onde dava aula. Toda vez que levava a moça para casa, entravam no bordel, pois a moça morava nos fundos com sua mãe. Mauro tratava todos com muito respeito, mas sentia ciúmes de Madalena vivendo naquele ambiente. Moço em uma época muito machista, ele tinha medo que a moça acabasse naquela vida. Isso não suportaria.
O tempo foi passando e Mauro já era tratado como namorado de Madalena. Marta sabia de quem se tratava, mas estava muito doente para se importar. Iria confiar nos desígnios do senhor. E daí que fosse irmão de Isadora?
Mauro percebia a doença de Marta e tentava preparar Madalena para o pior, mas sempre que tentava a moça começava a chorar. Tinha medo de ficar sozinha no mundo. Mesmo Mauro prometendo nunca deixá-la, cresceu em um ambiente que desconfiava dos homens. As moças viviam falando coisas a respeito do gênero, generalizando e rotulando. Madalena tentava manter sua mente aberta, mas não tinha muitos homens bons servindo de exemplo. Tinha visto, aliás, no bordel, muitos que não valiam o que comiam. Tudo isso confundia seu coração e ela permanecia desconfiada de Mauro. Temia que ele desistisse dos dois, pois sentia nele estranheza sempre que entravam no Bordel. Era como sempre a estivesse testando.
Marta já não levantava mais da cama. Madalena começava a prestar atenção no fato de sua mãe estar piorando. Temia o pior.
Madalena: - Mamãe, vai me contar o que está acontecendo?
Marta pede para filha sentar na poltrona ao seu lado, o que ela faz. Então ela cria coragem de contar que estava desenganada.
Madalena cai em prantos copiosamente. No fundo sabia, mas não queria acreditar. Vivia em negação e toda vez que Mauro tentava conversar sobre isso, chorava e fugia…
Marta tenta acalmar sua filha. Precisava lhe contar a verdade. Ela diz: - Você não ficará sozinha, meu amor, seu pai estará com você.
Madalena pensava que seu pai tivesse morrido. Ela olha para sua mãe surpresa e pergunta: - Meu pai?
Marta: - Sim. Seu pai está vivo e preciso que saiba que irei contar tudo para ele.
Madalena - Ele não sabe de mim?
Marta: - Filha, você já está bem grandinha. Vou lhe contar tudo. Seu pai teve sua esposa desenganada. A noite que isso aconteceu, ele, que não era muito de beber, veio ao bordel e se embebedou. Como ele era um homem bem quisto socialmente, pedi ajuda para os meninos e o levamos para meu quarto. Acontece que sempre amei seu pai, mas ele amava sua esposa. Naquela noite eu percebi que ele estava fora de si com a bebida e quis tê-lo para mim, engravidando de você. Sabia que tinha chance de engravidar, queria e consegui. Depois daquela noite a esposa dele melhorou e eu parti da cidade para te ter longe de tudo. Não queria que juntassem os fatos e estragasse a vida do seu pai com uma traição. Mais tarde ele te viu e me perguntou se era filha dele, o que neguei. Não achei justo com ele. Por mais que você fosse uma benção em nossas vidas, ele não estava bem naquela noite e me aproveitei disso. Ele não merecia pagar por toda essa situação.
Madalena: - Mas como ele não lembrou?
Marta: - Ele estava bêbado o suficiente para não se lembrar, mas não para ter relações comigo. Conheço bem isso me um homem, nesse trabalho é fácil conhecer. - ela pára um pouco e diz: - Entenda filha, você foi a melhor coisa que me aconteceu e sei que seria para seu pai, mas escolhi protegê-lo dos meus erros. Eu o enganei naquela noite.
Madalena escuta tudo atentamente, mas não entendia como ela poderia esconder isso dele. Mesmo assim, vendo sua mãe tão m*l, não iria julgá-la, pelo menos não verbalmente.
Marta: - Agora que estou assim, preciso falar com ele. - ela lhe entrega uma carta e pede que a moça vá até a casa de Miguel.
Madalena diz: - Ele é meu pai?
Marta: - Sim.
Madalena: - Ele é cunhado de…- diz paralisada.
Marta: - Sim, cunhado de Mauro. Peço que não comente com ele. Se Miguel quiser contar, contará. Agora vá até lá e entregue a carta.
Madalena - Se Mauro me perguntar sobre o que eu quero com Miguel?
Marta: - Vá até o trabalho de Miguel que ninguém perceberá. Ele recebe muitas pessoas todos os dias, mas vá agora.
Madalena estava vendo a urgência nos olhos de sua mãe. Ela então sai desesperada.
Chegando no trabalho de Miguel, ele estava em sua mesa, concentrado. Os olhos de Madalena o fitavam como se lhe quisesse abraçar. Era a primeira vez que tinha visto seu pai. Ele era lindo. Começou a ver alguns traços que possuía e não era de sua mãe. Tudo estava explicado. Miguel percebe-se olhado e levanta seu rosto olhando em direção a Madalena. Ele levanta-se e vai cumprimentar, dizendo e estendendo a mão: - Desculpe, não lhe vi, ai, sentada.
Madalena: - Acabei de chegar.
Miguel a convida para sentar-se em frente a sua mesa. Sentando em sua cadeira, pergunta: - Mas o que lhe traz aqui? - ele tinha um carinho especial pela moça, pois sabia que era filha de Marta.
Madalena: - Minha mãe pediu para lhe entregar isso. - diz esticando sua mão e entregando a carta.
Enquanto Miguel lia, ela olhava cada detalhe dele. Estava feito criança admirando seu pai, toda orgulhosa.
Miguel percebe aquele olhar e fica um pouco sem graça, mas continua lendo a carta que pede urgência para ele ir até a casa de Marta. Ela explica estar morrendo. Ele fica em choque. Gostava de Marta e não esperava por isso. Levantando-se, pega seu chapéu, coloca, dizendo a moça: - Vamos agora falar com sua mãe.
Os olhos da moça brilhavam igual ao de uma criança vendo bolinhas de sabão pela primeira vez.
Miguel sentia o olhar e estava começando a ficar sem graça. Ele então tenta quebrar o gelo: - Você é a namoradinha de Mauro, não?
Madalena fala com as bochechas vermelhas: - Eu creio que sim, mas não foi feito pedido formal.
Miguel olha bem para a moça, dizendo: - Vou consertar isso, prometo.
Madalena sabia que sim. só de olhar para seu pai, já confiava nele.
Eles chegam ao bordel. Madalena o leva até o quarto.
Marta sorri envergonhada do seu estado físico. Não queria que ele a visse feia, então tentou se arrumar um pouco, mas estava muito magra e abatida. Ela diz para Madalena: - Deixe-nos a sós. Preciso conversar com ele, mas fique por perto para quando lhe chamar.
A moça sorri e sai.
Miguel na hora sente uma intuição e parecia saber do que se tratava.
Marta sorri e pede que sente na poltrona do seu lado. Miguel assim o faz.
Ele diz: - Como está se sentindo?
Marta: - Cansada. Estou partindo e preciso lhe dizer tudo o que está em meu coração.
Miguel estava emocionado. Sabia bem o que ela sentia.
Marta: - Preciso lhe pedir perdão.
Miguel olha para Marta que consegue ver claramente os olhos de Madalena iguais aos dele. Tinha gravado o semblante dele, mas o tempo foi apagando bem de leve o traçado. Então via em Madalena uma forma de lembrá-lo. Agora com Miguel ali em sua frente, estava tudo nítido novamente.
Miguel: - Não estou entendendo.
Marta olha para ele com carinho e lhe estende a mão. Ele segura e ela lhe diz: - Você sabe que sempre te amei, não?
Miguel faz sim com a cabeça.
Marta: - Sempre fiz silêncio. Sempre soube do amor que tinha por Isadora e lhe ver feliz era o bastante para mim. Naquela noite que sua esposa foi desenganada, eu a vi ali tão frágil e quis lhe cuidar com todo meu amor e carinho. Você estava acabado e eu fui fraca. Sabia que não teria outra chance.
Miguel estava visivelmente triste. Uma parte era pela moça, mas a outra por Isadora e seus votos. Mesmo não escolhendo nem querendo, sentia-se um traidor. Ele pergunta: - Tivemos algo naquela noite?
Marta: - Sim.
Miguel olha para os olhos de Marta e pergunta: - Madalena é minha filha, não?
Marta:- Sim.
Miguel estava dividido com seus sentimentos. Sentia naquela moça uma ligação absurda, mas tentando não pensar a respeito. Ao mesmo tempo, tinha tristeza por ter certeza que realmente traiu sua esposa na pior noite de sua vida, enquanto ela quase morrera. Como olharia para ela agora?
Marta: - Eu jamais lhe contaria. Agora estou morrendo e preciso que cuide bem dela.