Zafira desceu do ônibus no ponto habitual, sentindo o asfalto ainda quente sob a sola de seus sapatos.
A noite na faculdade de administração havia sido produtiva, mas o cansaço acumulado das últimas doze horas começava a cobrar seu preço de forma impiedosa.
Cada músculo de suas costas parecia carregar um fardo invisível, e o peso da mochila em seus ombros apenas acentuava a exaustão que nublava seus sentidos.
Ela soltou um suspiro longo, uma mistura de alívio por estar perto de casa e desânimo pela subida que ainda teria que enfrentar.
A caminhada morro acima foi lenta. Seus passos eram irregulares, e a respiração, antes compassada, tornou-se um chiado baixo enquanto ela vencia cada metro de inclinação.
Suas pernas, exaustas pela rotina de faxinas e caminhadas, tremiam levemente a cada esforço.
O morro à noite tinha uma vida própria, o som de música vindo de janelas abertas, o cheiro de comida frita e as vozes de vizinhos que aproveitavam a brisa noturna. Mas Zafira não via nada disso; seu foco estava apenas no portão enferrujado que marcava o fim de sua jornada diária.
Quando finalmente chegou à frente de sua casa, ela parou por um instante, respirando fundo enquanto um sorriso cansado, mas vitorioso, surgia em seus lábios.
Havia vencido a última batalha do dia: a gravidade. No entanto, o sorriso congelou em seu rosto assim que seus olhos registraram a figura encostada no muro, logo ao lado de seu portão.
Ela arqueou a sobrancelha em puro choque. Era o Espectro. Ele estava ali, imponente e deslocado naquele cenário de simplicidade, com os ombros largos encostados na parede descascada e o olhar fixo no chão.
Ele tragava um cigarro com uma calma quase melancólica, a fumaça subindo em espirais cinzentas sob a luz amarelada do poste.
— Cael? — a voz dela saiu pequena, carregada de uma surpresa que ela não conseguiu esconder.
Ele levantou o olhar imediatamente. No momento em que as íris escuras de Cael encontraram as de Zafira, toda a rigidez de sua postura, a aura de perigo que ele carregava como uma armadura, pareceu suavizar.
O olhar predatório que mantinha os inimigos à distância deu lugar a algo que Zafira nunca imaginou ver: uma vulnerabilidade genuína.
— O que faz aqui? — ela perguntou, tentando entender o que levaria o dono do morro a esperar em frente à casa de uma faxineira no meio da noite.
Cael jogou a bituca do cigarro no chão e a esmagou com o sapato, mantendo o olhar preso ao dela.
— Você saiu sem se despedir... senti sua falta — ele confessou.
As palavras foram ditas com uma honestidade tão crua que Zafira sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha.
Ela ficou paralisada, a mão segurando a alça da mochila com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Sua voz falhou completamente, e por alguns segundos, ela esqueceu como os pulmões deveriam trabalhar. "Senti sua falta". Ninguém, em muito tempo, havia dito aquelas palavras com aquele peso.
Cael, percebendo o impacto de sua declaração, pigarreou de leve, sentindo que havia exposto demais a sua guarda. Ele não estava acostumado a sentir "falta" de nada que não pudesse ser comprado ou conquistado pela força.
A ausência de Zafira durante a tarde na mansão havia criado um vácuo estranho em seu peito, uma inquietação que o álcool não silenciou. Ele precisava vê-la, precisava confirmar que ela era real e não apenas um delírio de sua mente solitária.
— Chegou agora? — ele mudou de assunto rapidamente, tentando dissipar o ar denso e carregado que sua confissão havia criado.
— Ah... sim — Zafira travou por um instante, tentando recuperar o fôlego. — Quer entrar?
— Não vou atrapalhar? — ele a encarou, esperando uma confirmação. Havia um respeito ali, um pedido de permissão que ele nunca usava com mais ninguém.
— Não. Entre — ela respondeu, abrindo o cadeado do portão.
Eles entraram juntos na pequena construção.
Zafira sentiu uma pontada de ansiedade, mas ela logo desapareceu ao notar que Cael não se comportava como as outras pessoas. Ele não olhou em volta com julgamento, não analisou a pobreza dos móveis ou o tamanho reduzido do espaço. Ele apenas caminhou para dentro como se estivesse entrando em um lugar sagrado.
A casa de Zafira era um reflexo dela: simples, mas impecavelmente organizada e limpa. Para ela, a ordem externa era o único jeito de manter a sanidade quando o mundo lá fora parecia desmoronar.
Cael sentiu o cheiro de produtos de limpeza e alfazema, uma fragrância que contrastava violentamente com o cheiro de pólvora e metal que impregnava sua própria vida.
— Sente-se, pode ficar à vontade — ela disse, colocando a mochila em cima da pequena mesa da sala. Retirou os sapatos com um suspiro de alívio e calçou suas havaianas, sentindo-se finalmente "em casa", mesmo com o dono do morro sentado em seu sofá.
— Você jantou? — ela perguntou, o encarando brevemente enquanto prendia o cabelo em um coque frouxo.
— Ainda não.
— Gosta de macarrão?
— Gosto de tudo o que você fizer — ele respondeu prontamente.
Zafira sentiu o rosto esquentar novamente. Havia uma adoração implícita naquelas palavras que a deixava desarmada.
— Tá... vou colocar a água para ferver enquanto tomo banho. Pode ficar à vontade nesse meio tempo.
Ela seguiu para a cozinha, seus movimentos agora automáticos pela rotina. Encheu a panela, ligou o fogão e, assim que o som da chama estalou, ela correu para o banheiro.
Ao fechar a porta, Zafira se encostou na parede fria dos azulejos e soltou todo o ar que nem sabia que estava prendendo. Seu coração batia freneticamente contra as costelas.
O que estava acontecendo? Por que o homem mais temido do Rio de Janeiro estava sentado em sua sala esperando por uma macarronada simples?
Ela se despiu e entrou no banho, deixando a água gelada percorrer cada centímetro de sua pele exausta. A água parecia levar embora não apenas o suor e a poeira do dia, mas também um pouco do estresse.
Por um breve momento, sob o som constante do chuveiro, ela se esqueceu de quem ele era. Esqueceu das cicatrizes, da voz grave e rouca que a chamara de "Zaf", e da confissão perigosa que ele fez no portão.
Suspirou, balançando a cabeça como se pudesse fisicamente afastar os pensamentos que a faziam se sentir tão pequena e vulnerável diante dele.
Saiu do banho renovada, vestindo um short curto de malha e uma regata leve, já que o calor daquela noite estava sufocante.
Ao sair do quarto, secando o cabelo com uma toalha, ela parou. Cael estava no celular. Sua voz agora era outra, a voz do Espectro. Ele passava ordens secas, precisas, algo sobre carregamentos e território.
Zafira sentiu um frio na barriga, mas decidiu seguir direto para a cozinha, fingindo que não ouvia nada. Ela entendia as regras do lugar onde vivia: o que não era dito para você, não deveria ser ouvido por você.
Ela abriu a geladeira e começou a picar verduras e legumes com uma agilidade prática.
Estava concentrada no barulho da faca contra a tábua de madeira quando sentiu a presença dele na porta da cozinha.
Cael estava ali, encostado no portal, observando-a com uma intensidade que a fazia sentir-se o centro do universo.
— Posso ajudar? — ele ofereceu, sua voz voltando ao tom suave que reservava apenas para ela.
Zafira negou com a cabeça, concentrada em fatiar um pimentão.
— Não precisa. Gosto de cozinhar sozinha, prefiro assim. É uma forma de descansar a mente também — ela sorriu de leve, sem olhar para trás.
Cael deu um passo para dentro da cozinha, o espaço parecendo ainda menor com sua presença imponente.
— Não vai me perguntar nada sobre a ligação? — ele questionou, a curiosidade brilhando em seus olhos escuros.
Zafira parou a faca por um segundo e se virou devagar. Suas sobrancelhas estavam arqueadas em uma expressão de genuína confusão.
Ela não entendia por que ele daria tanta importância ao fato de ela ter ouvido algo que, tecnicamente, era proibido.
— Por que eu perguntaria alguma coisa, Cael? São seus assuntos. Se fosse algo que eu precisasse saber, você me diria, certo? — ela respondeu com uma simplicidade que o atingiu como um soco.
— Certo — ele murmurou, quase sem voz.
Ele a observou voltar ao trabalho, fascinado.
Cael estava acostumado com mulheres que tentavam arrancar informações dele para ganhar poder, ou que tremiam de medo ao ouvir suas ordens de execução. Mas Zafira era diferente.
Ela o tratava com uma normalidade desarmante, respeitando seu espaço de uma forma que ninguém nunca fez. Para ela, ele não era o monstro que dava ordens de morte no celular; ele era o homem que estava ali esperando o jantar.
Cael sentiu uma satisfação profunda ao perceber que Zafira não o via apenas como o Espectro. Aos olhos dela, ele era um ser humano digno de silêncio e respeito.
Enquanto a observava cozinhar, ele percebeu que a falta que sentia dela durante o dia não era apenas desejo físico; era a necessidade de estar perto da única pessoa que o fazia sentir que ele ainda possuía uma alma.
Zafira era o seu ponto de paz no meio da guerra, e ele, pela primeira vez na vida, estava disposto a lutar para que aquele pequeno universo de macarrão e simplicidade nunca fosse destruído.