Capítulo 11

1474 Words
Nando Por mais que tente não consigo parar de olhá-la. É difícil de acreditar que Brenda está novamente diante de mim. Idealizei esse reencontro várias vezes. Em todos a imaginei elegante, altiva e feliz com a vida que levava com o homem por quem me trocou. Nunca me passou pela cabeça que a encontraria vivendo em uma cabana abandonada com a filha para se esconder do marido. Quero confrontá-la por tudo. Ouvir finalmente uma explicação para ela ter me deixado por aquele i*****l. Saber por que mãe e filha estão fugindo. Mas me controlo por causa da pequena. Olívia. O nome ainda ecoa em minha cabeça trazendo lembranças do dia que comentei que gostava desse nome e ela disse que se um dia tivéssemos uma filha esse seria o seu nome. Esse dia nunca chegou. _ Terminei, mamãe. – A pequena fala me tirando do transe. – Comi tudo. – Suspira deixando o prato na ponta da mesa de centro e Brenda se apressa em afastá-lo um pouco mais. _ O que acha de tomar um banho e se trocar para dormir. – Convida deixando a sua comida de lado. _ A não, mamãe. – Balança a cabeça manhosa. – Vou assistir desenho com o Nando agora. – Encosta a cabecinha em meu braço. – Nem tô com sono. – Fala antes de bocejar. _ Podemos assistir ao desenho depois que tomar o seu banho. – Digo quando deveria estar dando desculpas para ir embora. Já fiz muito por elas. Não preciso me envolver mais nessa história, mas é mais forte do que eu. _ Sério?! – Confirmo com um movimento de cabeça. – Então eu vou tomar banho rapidinho. Vem, mamãe. – Desce do sofá puxando a mãe pela mão. _ Pode mostrar onde fica o banheiro? – Brenda pede um tanto acanhada e apenas assinto. Pego a mochila delas e subo na frente sendo seguido por elas. As acomodo na suíte principal, que é o maior e mais aconchegante da casa, depois desço para arrumar a bagunça da sala e guardar as sobras. O que me faz lembrar que preciso providenciar mantimentos para elas. Se já que estou ajuda é melhor fazer direito. Depois lido com as consequências. _ Já voltei, Nando. – Olívia anuncia correndo em minha direção com os bracinhos aberto e não tenho outra alternativa senão pegá-la no colo. _ Que perfumada. – Sorrio beijando o seu rosto corado. – Vamos assistir? – Convido e ela assente coçando os olhos em sinal de sono. Não demora e vai estar dormindo. A pequena ainda luta contra o sono, mas é uma luta injusta e não demora para Olívia estar ressonando em meus braços. Com cuidado afasto o cabelo do seu rostinho e me demoro analisando os seus traços buscando algo daquele homem, mas não existe. Olívia é simplesmente uma cópia da mãe. _ Ela se parece com você. – Comento ainda sem tirar os olhos da pequena. Ouço Brenda murmurar algo, mas não entendo direito. – O que disse? _ Disse que agora que ela dormiu você já pode me entregar ela que vou leva-la para a cama. – Fala finalmente se aproximando de nós. Entregar a garotinha para a mãe seria a atitude mais sensata a se tomar. Mas não estou conseguindo ser sensato no momento. _ Pode deixar. – Me ergo trazendo a pequena junto. – Eu mesmo a levo para a cama. _ Não precisa. – Protesta quando caminho até a escada sendo seguido por ela. – Eu posso cuidar da minha filha sozinha. _ Sei que você pode cuidar dela sozinha. – Digo me voltando para ficar de frente para ela. – Parece que vem fazendo isso a muito tempo. Mas vocês tiveram uma noite complicada que quero ajudar. É só. Seus olhos se prendem aos meus por alguns segundos. Tão tristes e abatidos que não lembram em nada a paixão pela vida e a alegria da Brenda de dezessete anos. Os ombros curvados parecem carregar o peso do mundo. Os lábios ainda conservam a palidez que me causa calafrios. _ Tudo bem. – Balbucia desviando o olhar e subindo os degraus apressada. Subo logo atrás dela. Fico parado no meio do quarto esperando que prepare a cama para a pequena. Quando termina noto que está ofegante e um pouco de suor escorre por sua testa. Coloco Olívia na cama com cuidado para não acorda-la, mas sem tirar os olhos dela. _ Está se sentindo bem? – Questiono preocupado. _ Sim. – Diz raspando a garganta e endireitando a postura. – Só estou cansa. Foi uma noite complicada. – Ergue levemente os ombros. – Acho que preciso de um banho e dormir um pouco em uma cama de verdade. _ Fico com Olívia enquanto toma o seu banho. – Ela faz menção de protestar, mas se cala e apenas segue para o banheiro. Esperava que o banho a fizesse se sentir melhor, mas Brenda parece ainda mais abatida e cansada. A ideia de deixa-las aqui sozinhas é totalmente descartada quando deixo as duas no quarto. Não me sentiria bem indo embora com Brenda nesse estado. Depois de me certificar de que a casa está completamente trancada retorno ao andar de cima e me acomodo no quarto ao lado do delas. Assim, se algo acontecer, vou ouvir e conseguirei ajudar rápido. O sono não vem quando me deito. Minha cabeça está uma completa bagunça diante de tudo o que aconteceu nas últimas horas. A cada vez que fecho os olhos vejo aquele olhar vazio que Brenda carrega. As únicas vezes em que vi alguma leveza neles foi quando estavam perdidos de amor pela filha. Minha mente cria teorias sobre o que pode ter acontecido que a deixou nesse estado. Desisto de dormir quando os primeiros raios de sol invadem o quarto através da fresta da cortina de maneira tímida. A cabeça pesa um pouco pela péssima noite de sono quando deixo a cama e vou até o banheiro do corredor para jogar um pouco de água no rosto. Assim que deixo o banheiro me deparo com Brenda empunhando um abajur como se fosse um taco de basebol. _ É você. – Suspira aliviada levando a mão ao peito. – Quase me matou do coração. – Não fosse a sua palidez acharia que era apenas força de expressão. – O que faz aqui tão cedo? _ Dormi aqui. Não quis deixar vocês duas aqui sozinhas. – Admito sem rodeios. – O que pretendida fazer com isso? – Questiono apontando o abajur. _ Me defender. – Dá de ombros. – Parecia uma boa arma na hora. – O seu argumento me faz gargalhar. – Quer parar. – Pede rindo também. – Você é mesmo um i****a. – Diz ainda tentando controlar o riso. _ Um i****a que te fez rir. – Rebato com um sorriso bobo ainda brincando em meus lábios. – Por que levantou tão cedo? _ Costume. – Seus olhos desviam dos meus e encaram os pés num claro sinal de que está mentindo. Novamente tenho vontade de confrontá-la, mas me seguro. Tenho a impressão de que se fizer isso agora Brenda vai se fechar e ficar ainda mais na defensiva. Então apenas aceito o que me diz. _ Vou sair para comprar comida. – Digo depois de raspar a garganta. – Não demoro. – Ela assente com um maneio de cabeça ainda sem me dirigir o olhar. Faço uma parada em casa antes de ir ao supermercado. O meu plano é tomar um banho e sair o mais rápido possível. Não quero deixar Brenda e Olívia sozinhas por muito tempo. Pode parecer t**o, mas sinto um desejo primitivo de cuidar das duas. Independentemente de qualquer mágoa do passado. Encontro com minha mãe e Catarina sentadas à mesa para o café da manhã quando desço as escadas apressado. Não paro para conversar com elas com a desculpa de estar apressado para resolver alguns assuntos importantes. O supermercado está praticamente vazio quando chego. Sem uma lista fico um tanto perdido e acabo exagerando um pouco. Não resisto em comprar uma pelúcia em formato de abelha para Olívia quando passo na sessão infantil antes de seguir para o caixa. A pequena vem me receber com um abraço quando chego enquanto a mãe nos observa de longe. _ Onde você foi, Nando? – Pergunta inclinando a cabecinha para o lado. – Não achei nunca você depois que acordei. _ Fui comprar um pouco de comida e um presente para você. – Digo me ajoelhando para ficar na mesma altura que ela. _ Um presente para mim? – A sua surpresa me toca e assinto engolindo o nó que se forma em minha garganta. O brilho em seus olhinhos quando entrego a pelúcia é impagável e descubro um novo objetivo de vida. O objetivo de nunca deixar esses olhinhos tristonhos novamente.
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