Capítulo 10

1542 Words
Brenda A minha cabeça ainda gira um pouco quando consigo abrir os olhos e a primeira pessoa que vejo é ele. Nando. Pensei que tinha sido um sonho ele ter aparecido para nos salvar daqueles homens, mas foi real. Ele está aqui. Suas mãos seguram o meu rosto com ternura enquanto seus olhos me analisam tão cheios de surpresa quanto os meus. _ Mamãe! – Olívia chama por mim assustada. _ Estou bem, amorzinho. – Murmuro com a voz um tanto estranha aos meus ouvidos. – Estou bem. _ Não parece bem, Brenda. – Sinto o coração descompassar por alguns segundos quando o ouço dizer o meu nome. – Acho que deveríamos ir até o hospital para que um médico te examine. _ Não é necessário. – Digo apressada. – Já estou melhor. – Tento levantar da espreguiçadeira, mas falho miseravelmente. _ Vejo como está bem melhor. – Diz em tom irônico. – Não seja teimosa. Vamos para um hospital. _ Já disse que não precisa. – Repito me obrigando a levantar e ignorando a leve tontura que me atinge assim que o faço. – Estou bem. Foi apenas um m*l-estar. Não precisa fazer uma tempestade num copo d’água. _ Se você diz. – Ergue as mãos em sinal de rendição ao se afastar. – Posso dar uma carona até o hotel em que estão hospedadas já que não quer ir até o hospital. – Sugere enfiando as mãos nos bolsos da calça. _ Eu agradeço pela ajuda, mas posso me virar sozinha a partir de agora. _ Como quiser. – Diz com a expressão fria antes de se afastar. Espero que suma completamente do meu campo de visão antes de tomar Olívia pela mão e seguimos para a velha cabana. Faço todo o caminho com cuidado redobrado temendo que aqueles homens voltem a aparece para terminar o que começaram. Apresso um pouco mais os passos quando tenho a sensação de estarmos sendo seguidas. O coração, que ainda não se recuperou do susto recente, bate errático me causando um pouco de falta de ar. Mas não paro até estar diante do lugar que vem sendo a nossa casa na última semana. Olho em volta me certificando que não tem por perto antes de entrar e escorar a porta de madeira puída com uma velha cadeira. Me encolho num canto mais afastado com Olívia que desembrulha o nosso jantar com mãos avidas. _ Está muito gostoso. – Diz antes de dar uma nova mordida em seu sanduíche e sorrio fraco. A minha pequena está faminta. _ Eu sei. – Limpo as migalhas da sua bochecha. – Mas coma devagar ou vai acabar engasgando. – Ela apenas meneia que sim com a cabeça concentrada em sua comida. Como metade do meu sanduíche e depois guardo para Olívia comer no dejejum de amanhã. Venho fazendo isso nos quatro dias para economizar o pouco dinheiro que tínhamos e que acabou quando comprei o jantar dessa noite. O que significa que as coisas podem se complicar ainda mais depois de hoje. O barulho de algo quebrando do lado de fora me faz ficar alerta. Puxo Olívia para o meu colo quando percebo que a maçaneta da porta se mexendo. Meu corpo treme, o suor frio escorre por meu rosto e o ar não encontra o caminho até meus pulmões. Minha mente grita para que reaja e fuja, mas meus pés parecem estar colados no chão. Aperto ainda mais a minha filha em meus braços quando, com um pouco de esforço, a porta é aberta. Várias coisas passam por minha cabeça nos segundos que o invasor leva para surgir diante dos meus olhos. E então a sensação de alívio se espalha por todo o meu corpo ao reconhecer o nosso visitante inesperado. _ Quer nos m***r do coração?! – Grito ainda ofegante pelo susto. – O que faz aqui? _ Segui vocês. – Responde dando de ombros. – E que bom que fiz isso. – Olha em volta. – Estão vivendo aqui? – Aponta a mochila com tudo o que temos largada no chão. _ Não é da sua conta, Nando. – Respondo ríspida. _ Por que estão vivendo aqui? – Pergunta ignorando o meu tom. _ Porque o papai não pode achar a gente aqui. – Olívia responde por mim o deixando mudo. – Não conta para ele, por favor. – Pede em sua inocência. Ele me olha em busca de confirmação e assinto com um maneio de cabeça um tanto envergonhada pela situação que me encontro. _ Prometo que não vou contar. – Garante com um meio sorriso. – Mas vocês não podem ficar aqui. Esse lugar é perigoso. _ Mas é o único lugar onde posso ficar sem correr o risco de sermos encontradas. _ Se eu conseguir encontrar vocês outra pessoa pode fazer o mesmo. – Argumenta erguendo levemente os ombros. _ Sei disso. Mas não tenho outra opção. Está bem?! Sei que não é grande coisa, mas ao menos é um teto que nos protege do relento. _ Um teto que está quase caindo em nossas cabeças. – Aponta os pedaços de madeira apodrecidos sobre nós. – Quer saber? Vamos deixa essa conversa de lado. Ela não vai nos levar a nada. – Concordo com um breve movimento de cabeça. – Recolha as suas coisas. Vocês vão comigo. _ Para onde vai nos levar? _ Para um lugar muito melhor do que este. – Tento protestar, mas ele me impede. – Pareceu um convite? Perdão. Eu quis dizer que vocês vão comigo e isso não está em discussão. – Diz passando direto por mim para pegar a minha mochila. – Vamos logo. – Chama indicando a porta com um movimento de cabeça. Caminhamos lado a lado no mais completo silêncio até o seu carro que ficou estacionado no final da rua. Me acomodo com Olívia no banco de trás enquanto ele ocupa o lugar atrás do volante deixando minha mochila no banco do carona. Nossos olhares se cruzam através do retrovisor antes que ele nos coloque em movimento. Seguimos por ruas paralelas até uma parte mais isolada da praia onde apenas uma casa se impõe de modo majestoso. Mesmo estando completamente apagada. E fica ainda mais linda à medida que nos aproximamos. A sua arquitetura é moderna, mas não destoa das construções locais. Tem dois andares, janelas grandes voltadas para o mar e um deque particular um pouco mais distante. Dentro é um sonho. As paredes são pintadas em azul claro e branco. Os móveis não todos em tons claros. Quadros delicados decoram as paredes, mas não tem nenhuma fotografia. _ De quem é essa casa? – Pergunto parada no meu da sala com Olívia ainda em meus braços. _ É de um amigo que vive em Madrid. – Conta largando as minhas coisas sobre uma poltrona. – Ele não costuma vir muito. Pode ficar tranquila. – Assinto com um maneio de cabeça. – Vocês podem se instalar no andar de cima. – Aponta as escadas. – Tem produtos de higiene no banheiro e toalhas limpas nos armários caso queiram tomar um banho. – Explica em espanhol e só concordo com a cabeça ainda muda. – Bom. Vou deixa-las a vontade. _ Você vai embora? – Olívia pergunta nos deixando surpresos quando ele faz menção de sair. Nando a olha mudo por alguns segundos. Vejo um certo encantamento em seus olhos quando se aproxima com um meio sorriso. _ Tenho que ir, pequena. _ Não vai. – Pede se jogando em sua direção e ele não tem outra opção que não pegá-la no colo. _ Acho que posso ficar um pouco. – Diz afastando uma mecha de cabelo que caia em seus olhos. – Podemos pedir alguma coisa bem gostosa para comer e assistir desenho. _ Isso mesmo. – A pequena concorda com um largo sorriso que a muito tempo não aparecia. Os dois se acomodam no sofá enquanto permaneço no mesmo lugar apenas os observando. Por alguns segundos tenho o vislumbre de como a minha vida seria se nada de r**m tivesse acontecido. Como Nando e a nossa filha assistindo a um desenho juntos no final do dia e com as nossas risadas ecoando pela casa sem medo. _ Vem, mamãe. – Chama me despertando do meu devaneio. Me junto a eles no sofá esperando que Olívia volte para perto de mim, mas ela prefere o colo dele. Estranhamente se sente à vontade com alguém que sequer conhece. Depois de escolhe o desenho que vão assistir Nando pede pizza. Queria negar e dizer que não é preciso, mas m*l jantamos e preciso deixar o orgulho de lado e pensar na minha filha. A entrega chega rápido e cuido dos pratos enquanto Nando pega a comida. _ Cuidado para não sujar os móveis, Olívia. – Peço depois de entregar o seu prato. _ O nome da pequena é Olívia? – Assinto com um maneio de cabeça. _ Foi um amigo da minha mamãe que escolheu. O nome dele é Nando igual ao seu. Mas eu não conheci ele. – Explica antes de voltar sua atenção para a televisão. Os olhos dele procuram os meus. Mas desvio meus olhos sem conseguir sustentar o olhar e me concentro em comer a minha fatia de pizza.
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