Capítulo 9

1587 Words
Nando Ando de um lado para o outro na sala de estar da casa de Mirabella enquanto a espero descer. Me sinto sufocado mesmo com tanto espaço. A minha cabeça não para de fervilhar enquanto repasso uma e outra vez a conversa que pretendo ter com Mirabella. _ Que surpresa maravilhosa. – A voz de Mirabella me traz de volta a realidade. – Adorei receber essa visita. – Diz me envolvendo o pescoço. – Estava morrendo de saudades. – Beija meus lábios, mas não correspondo. – Você está estranho. Aconteceu alguma coisa? _ Aconteceu comigo, na verdade, e preciso ser honesto com você porque você merece total sinceridade. _ Está me deixando preocupada. – Diz se afastando dos meus braços. _ Mirabella, eu gosto muito de você. Muito mesmo. Você se tornou muito importante para mim e valorizo cada momento em que vivemos juntos. _ Eu também gosto muito de você, Nando. – Sorri um tanto confusa. – Mas continuo sem entender... _ Me deixa terminar. – Peço segurando suas mãos entre as minhas. – Estive pensando muito ultimamente e percebi que o sentimento que tenho por você não é amor. _ Como assim não é amor? – Pergunta puxando as mãos num movimento brusco. _ Eu sinto um carinho por você e pelo apoio que me deu, mas não nos imagino juntos como um casal no futuro. Não é justo te manter presa a um relacionamento em que não existe amor envolvido. Você merece estar com um homem que te ame de verdade. _ Não quero outro homem! Eu quero você! – Grita alterada. – Você só está confuso. – Diz apoiando as mãos sobre meus ombros. _ Nunca estive tão consciente de algo. – Dou um passo para trás me afastando. – O nosso namoro acaba aqui, mas podemos ser amigos. _ Amigos?! – Ri alto sem humor. – Acha que quero ser sua amiga? – Questiona transtornada. – Eu dediquei a minha vida a você nos últimos seis anos, fiz o meu pai te ajudar com aquele seu projeto com o seu amigo i*****l, te tirei do fundo do posso e te dei uma vida. – Grita completamente fora de si. – Fiz tudo isso por você e é assim que me paga?! _ Fica calma. _ Não me manda ficar calma! – Grita atirando um vaso em minha direção, mas consigo desviar a tempo evitando ser atingido pelo objeto de cerâmica. _ Está ficando maluca! – Alterno o olhar entre os restos do vaso e a mulher descontrolada a minha frente. – Isso podia ter partido a minha cabeça. _ Não me chama de maluca! – Um novo item de decoração é arremessado em minha direção e quebra bem ao meu lado. – Você vem até aqui dizer que não me ama e quer que aceite tudo com calma! – Mais um objeto passa voando ao meu lado e se espatifa na parede logo atrás de mim. _ Acho melhor ir embora antes que você acabe com toda a decoração da sua casa. Espero que fique bem. Me apresso em me afastar com os gritos e insultos de Mirabella ao fundo. A governanta tem os olhos arregalados quando a encontro no hall de entrada. _ Não entre na sala agora. – Digo olhando sobre o ombro quando ouço o barulho de mais coisas quebrando. – Deixe que se acalme. – Ela assente dando um passo para o lado abrindo espaço para que eu finalmente deixe a casa. Eu sabia que Mirabella não receberia bem a minha decisão de terminar, mas não imaginei que ela se descontrolaria a esse ponto. Acho que nunca a tinha visto agindo dessa maneira. Só espero que com o passar do tempo ela supere. Apesar de tudo me sinto aliviado por colocar um fim numa relação que não tinha mais futuro. Mas acho que nenhuma relação tem futuro para mim. Ao menos, não quando ainda insisto em manter vivo os sentimentos de um adolescente bobo por uma garota que foi embora sem olhar para trás. Quando chego a Mar de Estrelas metade dos barcos já deixaram a marina, cumprimento a recepcionista quando atravesso o pequeno hall de entrada e uso o elevador para subir até o andar onde ficam as salas da diretoria. _ Olha ele aí. – Santiago fala assim que deixo o elevador. – Pode ligar para o delegado García e avisar que ele apareceu. – Diz para a minha secretária no tom brincalhão de sempre. _ Muito engraçado. – Reviro os olhos. – Eu só me atrasei um pouco. Você faz isso quase todos os dias. _ Exatamente. Esse é um comportamento meu. Você é sempre chega antes de todo mundo. A Blanca quase teve um ataque do coração quando foi até a sua sala e não te encontrou. _ Não exagera, Santiago. – Blanca fala dando um tapinha em seu braço. – Não tive um ataque do coração, mas realmente fiquei preocupada, chefe. Pensei que tivesse acontecido alguma coisa com o senhor no caminho para cá. _ De certa forma aconteceu. _ É alguma coisa com a sua mãe ou sua irmã? – Santy pergunta com o semblante preocupado. _ Elas estão bem. _ Vai me contar o que aconteceu ou vou ter que adivinhar? _ Me atrasei porque estava com a Mirabella. – O rosto de Santiago se contorce em uma careta só em ouvir aquele nome. _ Por favor, não estrague a nossa manhã contando sobre o seu momento romântico com aquela mimadinha. _ Não houve momento romântico algum. Muito pelo contrário. Eu fui até a casa dela essa manhã para acabar com o nosso namoro. _ Isso é mesmo sério? – Assinto com um maneio de cabeça. – Ouviu isso, Blanca? Parece que milagres existem. – Diz risonho. – Acho que essa foi a melhor decisão que tomou nos últimos seis anos. _ Vou ter que concordar como ele, chefe. – Blanca fala com um meio sorriso. – Estava na cara que você não tinha nada a ver com ela. _ Bem. Precisamos comemorar que você está finalmente livre daquele encosto. – Santy fala passando o braço sobre meus ombros. _ Precisamos começar a trabalhar, isso sim. – Digo recebendo uma careta em resposta. Sorrio antes de me afastar e seguir para a minha sala. Quando me sento de frente para o computador não existe mais Mirabella, a nossa discussão, as implicâncias de Santiago ou a minha raiva de Brenda. Tudo se resume a números, dados e projeções. Estou tão mergulhado no trabalho que só percebo que já anoiteceu quando tenho a minha sala invadida por Santiago, que está decidido a me levar para comemorar o meu término e não aceita nenhuma das minhas desculpas para não sair com ele. Acabamos por ir em uma boate perto da praia que é o destino de muitos turistas que estão buscando um pouco de diversão noturna. Estou no meio do meu segundo drink quando Santiago começa a conversar com uma brasileira de pele morena e cabelos cacheados e não demora muito para ser esquecido. Decido ir embora quando a batida da música começa a me dar dor de cabeça. Não me dou ao trabalho de me despedir de Santiago. O meu amigo deve estar aos beijos com a brasileira em algum canto e não quero atrapalhar. A brisa fria da noite me abraça enquanto caminho em direção a orla. O cheiro do mar parece acalmar um pouco a bagunça que está a minha mente. Estou imerso em meus pensamentos quando o som de vozes alteradas me traz de volta a realidade. Olho em direção ao som e vejo um pequeno grupo de quatro homens num ponto pouco iluminado e mais afastado da orla. Estava na cara que se tratava de uma briga entre bêbados. Pretendia ignorar os idiotas e seguir na direção oposta. Mas então eu a vejo no meio daquela confusão. Mesmo com a pouca luz a reconheço. Brenda. A dona dos meus pensamentos. Meu coração descompassa como o t**o que é. Os seus olhos apavorados olham em todas as direções buscando uma saída enquanto se mantém abraçada ao que parece ser uma criança. Paraliso em choque por alguns segundos antes de caminhar na direção deles com passos firmes e apressados. _ Ei! – Grito chamando a atenção dos homens quando chego a uma distância considerável. – Deixem a moça em paz! _ Não se mete, cara. – O magricelo curvado fala com a língua embolada pela bebida. – Isso não é assunto seu. _ Já disse para deixarem a moça em paz. – Digo sem me preocupar com os seus colegas a me cercarem. _ O que vai fazer? – Pergunta com um sorriso torto. – Estamos em quatro e você está sozinho. _ Está enganado. Chamei a polícia assim que vi o que estavam fazendo com a moça. Eles já devem estar chegando. É melhor irem se não querem se meter em encrenca. _ Vamos embora, cara. – Um dos amigos do magrelo pede o puxando para longe de mim. – Essa mulher não vale a nossa noite. – O ouço dizer antes de seguir em direção a boate que acabo de sair. Quando os meus olhos encontram os dela vejo o espanto. O choque do reencontro. A face está pálida, os lábios tem um leve tom azulado e a respiração irregular. Ela abre a boca para dizer algo, mas não saí nenhuma palavra. Seus olhos reviram, suas pernas falham e me apresso em ampará-la e impedir que a criança caia.
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