Brenda
Embora ainda ache o plano de Helena muito arriscado faço tudo como ela me pediu. Procuro agir de maneira natural durante o jantar e demonstro certa tristeza quando Helena comenta que está de partida. Levo Olívia para o quarto assim que terminamos com a desculpa de que vou fazê-la dormir esperando que Thomás não estranhe a demora e venha atrás de mim.
Nos vestimos com as roupas que Helena deixou separada para nós e então esperamos. Encaro a porta o tempo todo torcendo para que o plano funcione e realmente consiga sair desse lugar com a minha filha.
O pequeno relógio ao lado da cama marca exatamente duas horas da manhã quando a porta do quarto é aberta e Helena entra apressada.
_ Estão prontas? – Pergunta num sussurro e confirmo com um movimento rápido de cabeça. – Então acho que podemos ir.
_ Para onde a gente vai, mamãe? – Olívia questiona confusa.
_ Vamos embora. – Digo tocando o seu rostinho.
_ Sem o papai e o vovô?
_ Sim. – Sorrio afastando uma mecha de cabelo do seu rosto. – Vamos para um lugar onde eles não vão nos encontrar.
_ Nunca?
_ Nunca.
_ É melhor irmos logo. – Helena diz um tanto agitada. – Pegue a menina no colo e tome cuidado para não fazer ruídos.
Faço o que me pede. Não é tão difícil já que passei os últimos seis anos treinando esta habilidade com afinco. Ela sai na frente para checar o corredor e depois me convida a segui-la. De forma cautelosa e em silêncio nós atravessamos o corredor e seguimos até a ala dos empregados.
Meu coração está tão acelerado que o escuto batendo em meus ouvidos quando alcançamos o jardim, corremos até o portão dos fundos e alcançamos a rua completamente deserta.
_ Tome isso. – Me entrega uma pequena mochila que pegou atrás da lixeira. – Tem uns poucos pares de roupas para vocês e também alguns trocados. – Me estende um envelope pardo. – Deve dar por um tempo e depois...
_ Depois dou um jeito. – Garanto enfiando o envelope no bolso da calça.
_ Há um carro as esperando na rua de cima. É um velho amigo meu. Ele vai leva-las até a rodoviária e lá você decide o caminho que vão seguir.
_ Obrigado por tudo, Helena.
_ Não precisa me agradece. – Diz com um meio sorriso. – Se cuida e cuida dessa princesinha. – Beija o rosto de Olívia. – Agora vá e não olhe para trás.
Trocamos o abraço apertado antes correr rua acima com Olívia em meu colo. Avisto o carro de vidros escuros assim que dobro a esquina. Os vidros se abaixam quando nos aproximamos.
_ Brenda? – Questiona um senhor de ralos cabelos grisalhos e bigode avantajado.
_ Sim. – É tudo o que consigo dizer um tanto ofegante.
_ Entre. – Manda com um movimento de cabeça, apenas obedeço e me acomodo no banco de trás com Olívia em meu colo.
A abraço mais forte quando o carro ganha as ruas da cidade e a velha mansão vai ficando cada vez mais para trás. Sem o trânsito conseguimos chegar à rodoviária em apenas trinta minutos. Agradeço ao amigo de Helena pela ajuda antes de saltar do carro e corro para dentro.
Mesmo em plena madrugada o movimento de pessoas e malas é intenso. A maioria turistas. Preciso desviar delas até chegar no guichê num canto afastado do saguão. Tem duas pessoas na minha frente mais parecem vinte. Evito levantar a cabeça e mantenho o rosto de Olívia escondido com o capuz do seu casaco.
_ O que vai querer? – Um homem com cara de sono pergunta quando finalmente chega a minha vez.
_ Quero duas passagens para o próximo ônibus que vai deixar Madrid. – Peço aperto Olívia mais a mim.
_ O próximo ônibus vai sair em quinze minutos na plataforma 12 com destino a Valencia. – Diz sem desviar os olhos do monitor. – São cem euros.
Preciso fazer um pequeno malabarismo para pegar o dinheiro no bolso sem soltar Olívia. Com as passagens em mãos preciso correr para chegar a tempo. Os autofalantes começam a anunciar a última chamada para o embarque quando finalmente alcançamos a plataforma.
Um homem de uniforme parado ao lado da porta nos sorri simpático quando entrego as passagens e então embarcamos. Encontro os nossos lugares e nos acomodamos ao mesmo tempo em que ouço o ronco do motor e, finalmente, o ônibus começa a se mover nos levando realmente para longe do inferno e espero nunca mais precisar voltar para lá.
Desembarcamos em Valencia junto ao nascer do sol. A rodoviária está lotada de turistas indo e vindo com suas imensas malas, pessoas gritando e os autofalantes a todo volume divididos entre tocar músicas populares e darem informações aos passageiros sobre suas viagens.
Sinto alguém esbarrar em mim quando desvio de um turista perdido enquanto tento atravessar o pátio, mas não paro para confrontá-lo. Tudo o que não tenho é tempo para perder com bobagens.
Respiro aliviada quando finalmente conseguimos deixar toda aquela agitação de gente. Coloco Olívia no chão assim que alcançamos a calçada e meus braços agradecem. Caminhamos para o lado oposto ao centro em busca de uma pousada pequena e barata para ficarmos até que eu pensar no próximo passo.
Depois de quase uma hora de caminhada parando para pedir informações consigo chegar a uma espécie de pensão que fica a uma quadra da praia. É uma construção simples com paredes pintadas num branco um tanto desbotado e com algumas falhas. Uma jovem corpulenta varre a varanda enquanto uma mulher um pouco mais velha parece lhe dar ordens.
_ Com licença. – Digo atraindo a atenção delas para mim. – Aqui é a pensão da senhora Rosa?
_ Por que quer saber? – A mulher pergunta m*l-humorada.
_ Mãe! – Repreende a mais jovem antes de se voltar para mim. – É aqui sim. Está interessada em um quarto?
_ Sim, por favor.
_ Temos um quarto disponível. – A jovem explica encostando a vassoura na parede. – Vem comigo. Vou te mostrar.
_ Espera um pouco, menina. – A mulher diz barrando a nossa passagem. – Se vai querer mesmo quarto precisa pagar primeiro. Como é você e a criança fica duzentos euros.
_ Tudo bem.
Vasculho os bolsos em busca do envelope com o dinheiro, mas tudo o que encontro são duas notas de vinte euros. Tentando não entrar em desespero procuro na bolsa, mas não encontro nada. Então me lembro do esbarrão mais cedo e tudo faz sentido.
_ Me roubaram. – Digo num misto de choque e raiva.
_ Faça-me o favor, menina. – Desdenha impaciente. – Acha que não conheço essa história? Vai dizer que foi roubada para ficarmos com pena e deixámos você e a criança ficarem sem pagar nada.
_ Juro que essa não é a minha intensão, senhora. – Me ergo do chão trazendo a bolsa ainda aberta junto. – Eu realmente fui roubada. Levaram todo o meu dinheiro.
_ Vai tentar enganar outro trouxa. – Grita de forma grosseira fazendo Olívia se assustar e se esconder abraçada as minhas pernas. – E saia logo da minha pensão antes que eu chame a polícia.
Sem ter o que fazer arrumo a mochila nos ombros, pego Olívia nos braços e me afasto da casa com a cabeça baixo e com passos apressados. O leve tremor do corpinho colado ao meu é o que me impede de me entregar ao desespero.
_ Está tudo bem. – Sussurro em seu ouvido quando alcançamos a orla de onde é possível sentir o cheiro do mar. – Não precisa ficar com medo. – Beijo os seus cabelos aspirando o seu perfume infantil. – Sabe onde estamos? – Ela n**a balançando a cabeça ainda escondida no espaço entre o meu pescoço e o ombro. – Estamos na praia. – Mais que depressa ela ergue a cabeça e ver o brilho em seu olhar acalma um pouco todo o turbilhão em minha mente. – O que acha de tomar o nosso café da manhã olhando o mar e depois pegar conchas?
_ Podemos, mamãe? – Lá está o sorriso que me mantem firme.
_ Agora nós podemos tudo. – Beijo a ponta do seu nariz.
Vamos até uma pequena lanchonete. Peço uma porção de bocadillos para ela enquanto tomo apenas um suco de laranja. Preciso economizar o pouco dinheiro que temos e também arrumar meios de conseguir mais. Encontrar um emprego é a solução mais lógica, mas ninguém contrataria uma mulher sem endereço fixo, recomendações e com uma filha pequena. Mas antes de tudo isso preciso encontrar um lugar para ficarmos.
Me ponho a pensar um pouco e lembro da velha cabana de pescador abandonada que costumava encontrar com o Nando quando vinha para cá. Não é o melhor lugar do mundo, mas é melhor que dormir ao relento. É para lá que seguimos depois de recolher meia dúzia de conchas e prometer a Olívia que voltamos um outro dia. Só espero que o lugar ainda esteja de pé.