Capítulo 7

1557 Words
Brenda Madrid - Espanha A mãozinha de Olívia aperta a minha com força um tanto assustada quando o avião começa o processo de aterrissagem. Um carro está a nossa espera na pista e que nos leva para casa assim que desembarcamos. Memórias do passado me atingem no momento em que cruzamos os portões da velha mansão onde cresci. Lembro de como fui feliz em minha primeira infância. Quando minha mãe ainda estava viva e corríamos pelo jardim nas tardes de verão e na primavera cultivávamos margaridas. As suas flores preferidas. Ela fazia questão de cuidar pessoalmente delas. Quando a saudade apertava eu costumava sentar perto das margaridas e conversar com elas. Na minha cabeça infantil falar com elas era o mesmo que falar com a minha mãe e isso amenizava um pouco a dor. _ Finalmente chegamos. – León bufa m*l-humorado assim que o carro estaciona em frente à entrada principal. Os empregados estão enfileirados no hall de entrada a nossa espera. Dentre os vários rostos um me chama a atenção. _ Sejam bem-vindos. – Helena, a governanta que eu costumava perseguir quando era mais nova, cumprimenta com um sorriso gentil. – Espero que tenham tido uma boa viagem. _ Foi como qualquer outra. – León a destrata como sempre fazia. – Vou subir para o meu quarto. – Passa direto por todos. – Não quero ser incomodado até o jantar. – Grita da escada. _ Também vou me recolher. – Thomás diz em sua pompa habitual. – Estarei a esperando em nosso quarto, docinho. – Beija o meu rosto antes de se afastar em direção as escadas. Trato de limpar o lugar do beijo assim que ele some do meu campo de visão. Odeio quando ele faz isso. _ Precisa de algo, senhora Lancaster? – Questiona Helena. _ Prefiro que me chame de Brenda. – Arrumo Olívia melhor em meu colo. – Você me conhece desde que nasci. Não precisamos dessa formalidade. – Sorrio indo a abraçar. – Senti a sua falta. – Digo com a voz um tanto embargada. _ Eu também senti saudades, minha menina. – Beija minha testa quando nos afastamos. – E quem é essa linda princesinha? _ Olívia. – Sorrio para a minha pequena luz. – A minha razão de viver. _ Ela se parece muito como você quando era pequena. – Constata com um largo sorriso. – Me diga, princesinha. Quer comer alguma coisa? – Olívia apenas balança a cabeça negando. – Sempre que quiser qualquer coisa basta me pedir. – Beija os dedinho gorduchos da minha pequena. – Devem estar cansadas. Podem subir. Pode acomodar a pequena em seu antigo quarto. Eu sempre o mantenho limpo e organizado. _ Obrigada, Helena. Olívia e eu ganhamos um novo beijo antes de seguirmos pelo mesmo caminho dos outros. Atravesso o corredor com um nó de emoção a me travar a garganta. As lembranças boas e ruins se misturam em minha mente. Sinto a crise de choro bater à porta, mas a jogo novamente para longe. Não posso me dar ao luxo de desmoronar. Preciso me manter firme pela minha filha. _ Gostei daquela velhinha. – Olívia fala quando estamos finalmente no quarto e a coloco no chão. – Ela parece bem boazinha. _ A Helena é um amor. – Sorrio afagando seu rostinho. – Foi ela quem cuidou de mim quando a sua vovó Victória foi morar no céu. _ Porque o vovô é muito bravo e não gosta nada de criança e barulho. – A maturidade em suas palavras me afeta. Olívia não deveria conhecer o lado r**m das pessoas sendo tão pequena. – A Helena te defendia do vovô quando ele gritava igual a senhora faz comigo? Assinto com um maneio de cabeça embora seja mentira. Na única vez que Helena tentou contraria-lo quase perdeu o emprego. Foi quando decidi aguentar as coisas calada. Preferia sofrer com rodas as maldades do homem que deveria me amar a ficar longe do único resquício de carinho que me restava. _ Agora chega de conversa. – Pincelo seu nariz a fazendo rir. – Vamos tomar um banho bem gostoso e descansar um pouco antes do jantar. A ajudo com o banho, a visto com algo mais confortável e depois a faço dormir. Fico um tempo admirando o seu rostinho sereno antes de ir até o quarto que sou obrigada a dividir com Thomás. _ Finalmente decidiu largar aquela pirralha para passar um tempo com o seu marido? – Pergunta ao me ver entrando no quarto, mas o ignoro e me concentro em pegar um par de roupas confortáveis na mala. – Estou falando com você. – Segura o meu braço com força quando tento passar por ele em direção ao banheiro. – Não vai falar comigo, não? _ Não sou obrigada a trocar qualquer palavra com você. – Rebato puxando o meu braço me livrando da sua mão. _ Adoro quando fica bravinha. – Diz com um sorriso nojento nos lábios. – Deixa as coisas mais excitantes. _ Me deixa em paz. – O empurro para o lado e praticamente corro para o banheiro ao som da sua gargalhada doentia que me causa arrepios. Quando retorno ao quarto depois de um banho rápido o encontro dormindo espalhado na cama. Com passos cuidadosos para não causar ruídos deixo o cômodo e decido explorar um pouco a mansão. As coisas não parecem ter mudado muito. Os quadros e itens de decoração continuam os mesmos. Quase consigo ouvir a minha mãe me convidando para ver a sua nova pintura quando entro em seu antigo ateliê. Sorrio de modo triste enquanto os meus dedos passeiam por sua última tela ainda inacabada. Hoje entendo o motivo das cores tão escuras e pinceladas bem marcadas. São nesses tons que hoje enxergo a minha vida. Um pequeno ponto claro situado no centro do quadro talvez se refira a mim. Não duvido que era assim que ela me via, como a sua luz, porque é dessa maneira que vejo Olívia. _ Sabia que te encontraria aqui. – Ouço Helena dizer logo atrás de mim. – Esse costumava ser o lugar onde se escondia logo que a senhora Victória morreu. – Me volto para ficarmos de frente uma para a outra. – Você dizia que aqui se sentia mais perto da sua mãe. – Diz num meio sorriso. _ Ainda sinto. – A voz embargada pelo choro. – Esse lugar é muito importante para mim. _ Eu sei. – Toca o meu rosto numa caricia que me faz querer chorar ainda mais. – Só não entendo porque passou todos esses anos sem vir se esse lugar é tão importante para você. _ É um assunto complicado de falar. Você não entenderia, Helena. – Digo desviando os meus olhos dos dela. _ Se é difícil de falar você pode me mostrar o que aquele infeliz faz com você. – Ergo a cabeça surpresa. _ Como sabe? _ Eu conheço esse olhar abatido e apático. As mangas longas e golas altas para esconder os hematomas. Sem contar a maquiagem para mascarar tudo. Conheço porque vi acontecer com a sua mãe. Me lanço em seus braços em meio a uma crise de choro completamente rendida. Não preciso contar nada. Ela sabe. Os soluços escapam por meus lábios enquanto as minhas pernas perdem as forças e preciso do seu apoio para me manter de pé. _ Não suporto mais. – Digo entre soluços. – Não aguento mais viver essa vida, Helena. Só queria que tudo isso acabasse. _ Isso acaba hoje. – Determina e me afasto balançando a cabeça em negação. – Sim. – Diz segurando o meu rosto entre suas mãos. – Fechei os olhos para o que acontecia com a senhora Victória porque tinha medo do que poderia me acontecer e ainda hoje sou atormentada por minha atitude covarde. _ Não quero que corra perigo, Helena. _ Nada irá acontecer comigo. – Sorri secando as minhas lágrimas. – Hoje é o meu último dia na mansão. Vou morar com o meu filho em uma cidade no interior de Portugal. Mas não posso ir sabendo que você e a pequena estão no meio desses lobos. _ Agradeço que queria me ajudar, mas não tem como sair daqui, Helena. – Digo com os ombros curvados. – Esse lugar é vigiado dia e noite pelos homens do Thomás. _ Tenho um plano. – Sorri afagando meus cabelos. – Tudo o que preciso é siga tudo o que eu disser e que confie em mim. Pode fazer isso? – Assinto com um maneio de cabeça. – Ótimo. Ouvi um dos seguranças dizer que algumas das câmeras dos fundos da casa, que dão para a ala dos empregados, estão com defeito e que os técnicos só virão resolver amanhã pela manhã. Nós vamos aproveitar essa falha para tirarmos você e pequena Olívia de casa no meio da madrugada. Quando todos estiverem dormindo. _ Isso é muito arriscado. – Digo receosa. _ Mas vai dar certo. – Afirma confiante. – Você vai agir naturalmente durante o jantar. Na hora de se recolher leve a Olívia para o seu antigo quarto e só saia de lá quando eu forço busca-la. – Explica. – Você entendeu? – Novamente confirmo com um movimento de cabeça. – Ótimo. – Sorri carinhosa. – Agora seque essas lágrimas, criança. Essa tormenta está perto de terminar.
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