Capítulo 4

1492 Words
Brenda Fingir gostar de estar em um lugar onde não quero se tornou uma habilidade depois de viver anos com León e a aprimorei nos últimos dois meses quando acabei casada com Thomás. Sorrio para as pessoas a minha frente e faço breves comentários quando sou mencionada na conversa como se estivesse amando estar aqui. Thomás aproveita a presença de Philip e Susan para me tocar e beijar. Sinto um pequeno alívio quando os homens se retiram para conversar sobre negócios no escritório. _ De longe se nota que o Thomás te ama muito. – Susan comenta vindo sentar ao meu lado no sofá maior. – Vocês formam um bonito casal. – Dou apenas um meio sorriso em resposta. – Pensam em ter filhos? _ Não. – A palavra escapa da minha boca. _ Imagino que queiram aproveitar um pouco mais o casamento antes de pensar nos filhos. – Comenta com um sorriso de lado. Apenas sorrio de volta temendo abrir a boca e falar o que não devo. A conversa gira em torno de assuntos superficiais. Comento qualquer coisa uma vez ou outra para não parecer que está conversando sozinha. Passamos para a mesa de jantar quando os homens retornam. Como de costume jogo a comida de um lado para o outro do prato sem comer nada. Finjo ouvir o que estão falando até que o licor é servido ao final da refeição. _ Não vai nos acompanhar, Brenda? – Susan questiona recostada nos braços do marido. _ Eu não posso beber nada que tenha álcool, Susan. – Respondo com um meio sorriso. _ E por quê? – Pergunta Philip. _ Por questões de saúde. – Thomás responde por mim passando o braço sobre os meus ombros. _ A minha filha tem uma saúde frágil como a mãe. – León acrescenta numa crítica sutil que apenas eu entendo. _ Espero que fique bem logo, querida. – Deseja Susan com o olhar de pena que tanto detesto. _ Ela vai ficar. Estou cuidando pessoalmente para isso. Não é, docinho? – Seus dedos acariciam o meu braço me fazendo retrair um pouco. _ Sim. – Digo num quase sussurro. Não luto quando Thomás me leva para o quarto depois que os convidados vão embora. Não luto quando ele arranca as minhas roupas. Não luto quando ele abusa de mim mais uma vez. Tudo o que faço é desejar que tudo acabe logo. Corro para o banheiro quando Thomás adormece e tomo um novo banho na tentativa de me limpar. Mas a sensação de sujeira parece que nunca vai me deixar mesmo depois de horas esfregando meu corpo com a esponja. Retorno para o quarto me acomodo na ponta da cama onde sei que Thomás não vai me alcançar. Durmo, mas o meu sono nunca é tranquilo. Estou sempre atenta a qualquer movimento de Thomás. Acordo cada vez que o sinto perto e ainda me sinto exausta quando preciso deixar a cama. Uma leve tontura me atinge enquanto desço as escadas e preciso me segurar com força no corrimão para não cair. Quando me junto a todos para o café da manhã tenho o estômago um tanto revolto. Obviamente esse é o reflexo de todo esse estresse na minha vida. Já que não é a primeira vez que sinto esses sintomas. Existe também a possibilidade do meu problema cardíaco ter piorado já que não venho seguindo à risca as recomendações do médico. _ Mas que d***a! – Thomás esbraveja me fazendo encolher em meu lugar. _ Algum problema, filho? – León questiona antes de levar a xícara até a boca e tomar um gole de seu café. _ Sim. – Responde sem tirar os olhos do celular. – Uma das filiais na Itália está com problemas e preciso ir até lá para resolver. – Larga o aparelho com tanta força que me impressiona não ter quebrado. – Estou mesmo cercado de inúteis. _ Quanto tempo vai ficar fora? _ Espero que não muitos. – Massageia as têmporas. – Tenho muito trabalho aqui agora que Philip Baker é meu sócio. _ Não se preocupe. Posso cuidar de tudo enquanto estiver fora. _ Agradeço a sua boa vontade, sogro. Mas prefiro que não se envolva demais em meus negócios. Não quero terminar na falência como o senhor. Aperto os lábios para evitar sorrir do comentário de Thomás e do efeito que ele causa no meu pai. León fica claramente irritado, mas tenta manter a compostura e não debater com o seu querido genro. _ Mande preparem uma mala para mim. – Diz em tom autoritário para a mulher parada ao lado da mesa que logo se apressa em atende-lo. Terminamos a nossa refeição no mais completo silêncio. _ Bom. – Atira o guardanapo sobre a mesa. – Tenho que ir. – Se ergue abotoando o paletó. – Me acompanha até a porta, docinho. – Seu tom não dá espaço para negativas e apenas o acompanho até a porta sendo seguida por León. – Um beijo de despedida. Seus lábios imundos cobrem os meus num beijo que me deixa ainda mais enjoada. Seus dedos deslizam por meu rosto numa carícia que tento evitar. Minha atitude o deixa irritado e Thomás aperta meu rosto com tanta força que acabo mordendo a parte interna da bochecha e logo sinto o gosto de sangue se espalhar por minha boca. _ Espero que não tente nenhuma gracinha. – Sussurra em meu ouvido. – Seja uma boa menina enquanto eu estiver fora. Você não vai me querer irritado ao voltar, não é? – Balanço a cabeça em negação. – Foi o que imaginei. – Me solta e preciso me apoiar no aparador do hall para não cair. Meus olhos seguem até o meu pai esperando que finalmente reaja e faça algo a respeito pela forma como sou tratada, mas nada acontece. Os assisto deixar a casa e a porta se fechar em seguida. Queria ser mais forte e corajosa. Queria aproveitar a ausência dos dois projetos de ser humano e fugir daqui. Mas sou fraca e tudo o que faço é me render as ameaças de Thomás e sigo nesse inferno. Durante os três dias em que tenho um pouco de paz a ideia de acabar com tudo é tentadora. Mas também não tive coragem para fazê-lo. O retorno de Thomás faz o m*l-estar voltar ainda pior. Me sinto fraca todo o tempo e vomito quase tudo o que consigo comer. Sem contar as tonturas que me atingem de repente e quase me levam de encontro ao chão. _ Você está h******l. – Thomás diz ao observar meu reflexo ao lado do seu no espelho. – Tente dar um jeito nesse rosto pálido com um pouco de maquiagem. Não quero que o pessoal no clube a vejam nesse estado. – Coloca um pouco mais do seu perfume me causando náuseas. – E não esqueça de cobrir essa cicatriz h******l que tem no peito. Faço o que manda, mas estou me sentindo tão m*l que nem toda a maquiagem do mundo poderia melhorar minha aparência. Preciso prender a respiração quando estamos todos no carro para não vomitar em tudo. Me sinto ainda pior quando finalmente chegamos ao restaurante do clube e a mistura de aromas me deixa zonza. _ Sorria. – Diz ao meu ouvido quando nos acomodamos na mesa junto com todos. _ Está se sentindo bem, querida? – Susan questiona segurando a minha mão sobre a mesa. – Suas mãos estão frias. Tento responder, mas não consigo formular nada. O mundo parece começar a se apagar aos poucos. Será que é assim que as pessoas se sentem antes de morrer? Será esse finalmente o fim da tormenta em que vivo? É a última coisa em que penso antes de sucumbir a escuridão. _ Tem certeza do que está dizendo, doutor? – Ouço a voz de Thomás ao questionar antes mesmo de conseguir abrir os olhos. _ Cem por cento de certeza, senhor Lancaster. – Forço meus olhos a se abrirem e vejo os dois homens próximos a porta. – A sua esposa está entrando na oitava semana de gravidez. – O médico apoia a mão no ombro de Thomás com um largo sorriso. – Parabéns! _ Estou grávida? – Questiono esperando descobrir que ouvi m*l. _ Sim, senhora. – O homem de jaleco se aproxima. – Acabamos de confirmar com um exame de sangue. – Sorri animado. _ Que grande surpresa, docinho. – Thomás segura minha mão entre as suas. – Nosso primeiro filho está a caminho. – Beija a minha testa cheio de empolgação. _ Vou deixa-lo comemorando a novidade. – O médico diz antes de se retirar do quarto. _ Que maravilha! – Exclama. – Nosso primeiro herdeiro está a caminho. – Beija rapidamente meus lábio. Estou tão chocada que sequer penso em desviar. Não posso ter um filho desse homem. Isso não deveria acontecer comigo. Levo a mão até a barriga ainda plana. Essa gravidez não deveria existir.
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