Capítulo 5

1517 Words
Nando Valencia – Espanha 2015 Observo os barcos retornando para a marina enquanto o sol se põe no horizonte pintando o céu num tom alaranjado. Ainda custo a acreditar que meu sonho é real. Hoje posso dizer que meu amigo, Santiago, e eu somos os reis dos mares espanhóis. Não foi um caminho fácil a percorrer. Mesmo tendo Diego e o hotel dos pais de Mirabella como sócios as pessoas não confiavam muito em nós por sermos jovens. Foi necessário muito trabalho duro para estarmos aqui hoje. _ Sabia que ainda estaria aqui. – Mirabella diz ao invadir a minha sala. – Você nunca para. – Critica me abraçando por trás. _ Já estou encerrando. – Me volto para ficar de frente para ela. – Precisa de algo? _ Sim. – Sua mão passeia por meu peito de modo despretensioso. – Preciso que deixe o trabalho um pouco de lado e se concentre um pouco em mim. – Enlaça os braços em meu pescoço. – Estou com saudades, bebê. – Diz com a voz manhosa. – Bem que podíamos sair para jantar. Abriu um novo restaurante francês no centro. Podemos ir lá e depois estender a noite com os nossos amigos naquela boate que eu adoro. _ O que acha de marcarmos esse programa para outro dia? – Afasto uma mecha de cabelo do seu rosto. – É que estou cansado. _ Ultimamente você vive cansado para fazer qualquer coisa comigo. – Se afasta magoada. – Fala a verdade, Nando. Você não gosta mais de mim. _ Não faz uma cena, por favor. – Bufo passando as mãos no rosto. – Só estou dizendo que prefiro ir para casa, tomar um bom banho e dormir está noite. _ Tudo bem. – Diz claramente irritada. – Faça como quiser. – Me dá as costas e sai pisando duro. Sei que espera que vá atrás dela, mas não estou no clima para os joguinhos de Mirabella. Amanhã falo com ela e resolvo tudo. Se for falar com ela agora vou acabar piorando as coisas. Minha cabeça dói um pouco quando deixo o pequeno prédio a beira mar e sigo para casa. Depois de um banho demorado me reúno com Catarina e minha mãe para o jantar. _ Por que está com essa cara de quem comeu um prato de Socarrat? – Catarina pergunta com ar de riso. _ Discuti com Mirabella. – Conto num suspiro. _ Outra vez? – Mamãe questiona devolvendo o copo com suco à mesa. – Vocês tem discutido bastante nesses últimos meses. _ Aposto que discutiram porque a Mirabella queria alguma coisa e você disse que não. – Catarina diz revirando os olhos em tédio. – A sua namorada é uma mimada, Nando. _ Mimada ou não, foi a Mirabella quem me ajudou a superar o que a Brenda fez comigo. _ Não diria que ela ajudou muito já que não acredito que tenha superado a Brenda de verdade. – Minha irmã rebate com um sorriso vitorioso. _ Por que discutiram, filho? – Mamãe pergunta tentando mudar o foco da conversa. _ Ela quer um pouco mais de atenção e não a culpo. – Descanso os talheres sobre o prato e apoio o antebraço na mesa. – Tenho estado muito ocupado com a expansão dos negócios nas cidades vizinhas e acaba que não tenho encontrado tempo para ficar com ela. _ Mas ela sabia que esse era o seu sonho e deveria te apoiar ao invés de te criticar. – Catarina argumenta como a boa advogada que será um dia. _ A sua irmã tem razão, filho. – Mamãe concorda também descansando os talheres sobre o prato. – Se ela não entende o que está fazendo talvez seja melhor acabarem com essa relação e cada um seguir o seu caminho. _ Vou pensar nisso, mãe. – Garanto com um meio sorriso. – Bem. Eu já vou me recolher. – Deixo o meu lugar e deposito um beijo no rosto de cada uma. – Vejo vocês amanhã. Quando estou finalmente no silêncio do meu quarto sou tomado pelas lembranças daquela tarde que não pude esquecer. Aquela tarde em que Brenda destroçou o meu coração ao escolher ficar com aquele infeliz a ficar comigo. Abro a gaveta do móvel ao lado da cama e pego o meu pequeno tesouro. A foto que tiramos na última vez em que estivemos juntos. Estávamos felizes que finalmente tínhamos alcançado os tão sonhados dezoito anos e que poderíamos estar juntos sem ter que nos preocuparmos com o seu pai. Procurei me desfazer de tudo o que me lembrava Brenda depois do que aconteceu em Madrid. Mas não consegui jogar essa foto fora. Acho que o Nando de seis anos atrás a guardou como um pequeno fio de esperança de que as coisas poderiam voltar a ser como antes. Torno a guardar a foto em meu esconderijo, me jogo na cama e fico a encarar o teto branco até que acabo por cair no sono. A primeira coisa que faço assim que acordo é ligar para uma floricultura e peço que entreguem um buquê de rosas vermelhas na casa de Mirabella como um pedido de desculpas pela nossa briga de ontem e também envio uma mensagem a convidando para almoçar comigo hoje. Pulo o café da manhã em família e corro para a marina evitando os comentários da minha irmã sobre o meu relacionamento com Mirabella. Já me basta ter que aguentar Santy implicando com isso durante todo o dia. Sou o primeiro a chegar ao prédio e aproveito a calmaria para adiantar a leitura dos contratos de expansão da Mar de Estrelas para as cidades de Altea e Vila Joiosa. Faço algumas anotações sobre alguns pontos que podem ser melhorados que beneficiem a ambos. Consigo responder a todos os e-mails importantes antes das nove, que é quando as coisas começam a se agitar por aqui. Santy e eu participamos de reuniões com os nossos futuros associados de Altea e Vila Joiosa para fazermos os últimos acertos necessários para a concretização do nosso novo projeto. _ A Mar de Estelas é oficialmente a maior frota de embarcações espanhola. – Santy fala empolgado quando encerramos a videoconferência. _ Não exagera, cara. _ Não é exagero, Nando. É um fato. – Pontua de modo solene me fazendo rir. – Eu já te disse que o céu é o limite. Nós precisamos comemorar. Vamos sair para uma festa hoje. _ De que festa estão falando? – Mirabella pergunta ao entrar na sala de reuniões. _ Uma festa só para amigos íntimos e você não está convidada. – Santy responde à fazendo revirar os olhos num ar de tédio. _ Eu não vou perder o meu tempo com você, Santiago. _ Devo me sentir ofendido? _ Chega vocês dois. – Peço me colocando entre eles. – Vem, Mirabella. Vamos para a minha sala. _ Até mais, Belinha. – Ouço Santy gritar quando já estamos no corredor e preciso segurar Mirabella para impedir que volte e arme um escândalo. Ela se solta de mim assim que entramos na minha sala. Leva um tempo até a sua raiva diminuir um pouco. _ Esse seu amigo é insuportável. – Bufa passando as mãos nos cabelos. – Você bem que deveria se afastar um pouco dele. Essa amizade de vocês não parece te fazer bem. – Se aproxima novamente de mim e espalma as mãos em meu peito. – Se for pelo fato dele ser o seu sócio o meu pai pode comprar mais ações aqui para te ajudar e você pode dispensar aquela anta quadrada que você chama de amigo. _ A minha amizade com o Santiago e a nossa sociedade aqui na Mar de Estrelas não é algo discutível, Mirabella. – Afasto suas mãos de mim e coloco alguma distância entre nós dois. – Sou muito grato pelo suporte que o seu pai nos forneceu no início, mas essa empresa é um sonho meu e do Santy. Não posso simplesmente descarta-lo por mero capricho seu. _ Por que não? Ele quase não faz nada por aqui. É sempre você quem ficar com o trabalho mais pesado. _ Se for continuar com isso é melhor pararmos por aqui. – Corto já cansado dessa atitude dela. _ Tudo bem. – Suspira forçando um sorriso. – Vamos deixar esse assunto de lado. – Me envolve o pescoço e toca meus lábios em um beijo rápido. – Vim te buscar para irmos almoçar como combinamos. Queria cancelar esse almoço depois dessa conversa, mas ela não me dá espaço para isso. Vamos no meu carro até o seu restaurante preferido. Deixo que decida tudo. Desde o vinho até a sobremesa. Depois do almoço uso a desculpa do trabalho para não estender o nosso passeio e praticamente corro para longe quando nos despedimos no estacionamento da marina. Sozinho novamente em minha sala me ponho a pensar se continuar com esse relacionamento é mesmo a coisa certa a fazer. Talvez o melhor seria que seguíssemos caminhos separados. Mirabella me ajudou muito no passado, mas não a amo e nunca vou amar. Essa é a verdade.
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