Nando
Valencia – Espanha
2015
Observo os barcos retornando para a marina enquanto o sol se põe no horizonte pintando o céu num tom alaranjado. Ainda custo a acreditar que meu sonho é real. Hoje posso dizer que meu amigo, Santiago, e eu somos os reis dos mares espanhóis. Não foi um caminho fácil a percorrer. Mesmo tendo Diego e o hotel dos pais de Mirabella como sócios as pessoas não confiavam muito em nós por sermos jovens. Foi necessário muito trabalho duro para estarmos aqui hoje.
_ Sabia que ainda estaria aqui. – Mirabella diz ao invadir a minha sala. – Você nunca para. – Critica me abraçando por trás.
_ Já estou encerrando. – Me volto para ficar de frente para ela. – Precisa de algo?
_ Sim. – Sua mão passeia por meu peito de modo despretensioso. – Preciso que deixe o trabalho um pouco de lado e se concentre um pouco em mim. – Enlaça os braços em meu pescoço. – Estou com saudades, bebê. – Diz com a voz manhosa. – Bem que podíamos sair para jantar. Abriu um novo restaurante francês no centro. Podemos ir lá e depois estender a noite com os nossos amigos naquela boate que eu adoro.
_ O que acha de marcarmos esse programa para outro dia? – Afasto uma mecha de cabelo do seu rosto. – É que estou cansado.
_ Ultimamente você vive cansado para fazer qualquer coisa comigo. – Se afasta magoada. – Fala a verdade, Nando. Você não gosta mais de mim.
_ Não faz uma cena, por favor. – Bufo passando as mãos no rosto. – Só estou dizendo que prefiro ir para casa, tomar um bom banho e dormir está noite.
_ Tudo bem. – Diz claramente irritada. – Faça como quiser. – Me dá as costas e sai pisando duro.
Sei que espera que vá atrás dela, mas não estou no clima para os joguinhos de Mirabella. Amanhã falo com ela e resolvo tudo. Se for falar com ela agora vou acabar piorando as coisas.
Minha cabeça dói um pouco quando deixo o pequeno prédio a beira mar e sigo para casa. Depois de um banho demorado me reúno com Catarina e minha mãe para o jantar.
_ Por que está com essa cara de quem comeu um prato de Socarrat? – Catarina pergunta com ar de riso.
_ Discuti com Mirabella. – Conto num suspiro.
_ Outra vez? – Mamãe questiona devolvendo o copo com suco à mesa. – Vocês tem discutido bastante nesses últimos meses.
_ Aposto que discutiram porque a Mirabella queria alguma coisa e você disse que não. – Catarina diz revirando os olhos em tédio. – A sua namorada é uma mimada, Nando.
_ Mimada ou não, foi a Mirabella quem me ajudou a superar o que a Brenda fez comigo.
_ Não diria que ela ajudou muito já que não acredito que tenha superado a Brenda de verdade. – Minha irmã rebate com um sorriso vitorioso.
_ Por que discutiram, filho? – Mamãe pergunta tentando mudar o foco da conversa.
_ Ela quer um pouco mais de atenção e não a culpo. – Descanso os talheres sobre o prato e apoio o antebraço na mesa. – Tenho estado muito ocupado com a expansão dos negócios nas cidades vizinhas e acaba que não tenho encontrado tempo para ficar com ela.
_ Mas ela sabia que esse era o seu sonho e deveria te apoiar ao invés de te criticar. – Catarina argumenta como a boa advogada que será um dia.
_ A sua irmã tem razão, filho. – Mamãe concorda também descansando os talheres sobre o prato. – Se ela não entende o que está fazendo talvez seja melhor acabarem com essa relação e cada um seguir o seu caminho.
_ Vou pensar nisso, mãe. – Garanto com um meio sorriso. – Bem. Eu já vou me recolher. – Deixo o meu lugar e deposito um beijo no rosto de cada uma. – Vejo vocês amanhã.
Quando estou finalmente no silêncio do meu quarto sou tomado pelas lembranças daquela tarde que não pude esquecer. Aquela tarde em que Brenda destroçou o meu coração ao escolher ficar com aquele infeliz a ficar comigo.
Abro a gaveta do móvel ao lado da cama e pego o meu pequeno tesouro. A foto que tiramos na última vez em que estivemos juntos. Estávamos felizes que finalmente tínhamos alcançado os tão sonhados dezoito anos e que poderíamos estar juntos sem ter que nos preocuparmos com o seu pai.
Procurei me desfazer de tudo o que me lembrava Brenda depois do que aconteceu em Madrid. Mas não consegui jogar essa foto fora. Acho que o Nando de seis anos atrás a guardou como um pequeno fio de esperança de que as coisas poderiam voltar a ser como antes.
Torno a guardar a foto em meu esconderijo, me jogo na cama e fico a encarar o teto branco até que acabo por cair no sono.
A primeira coisa que faço assim que acordo é ligar para uma floricultura e peço que entreguem um buquê de rosas vermelhas na casa de Mirabella como um pedido de desculpas pela nossa briga de ontem e também envio uma mensagem a convidando para almoçar comigo hoje.
Pulo o café da manhã em família e corro para a marina evitando os comentários da minha irmã sobre o meu relacionamento com Mirabella. Já me basta ter que aguentar Santy implicando com isso durante todo o dia.
Sou o primeiro a chegar ao prédio e aproveito a calmaria para adiantar a leitura dos contratos de expansão da Mar de Estrelas para as cidades de Altea e Vila Joiosa. Faço algumas anotações sobre alguns pontos que podem ser melhorados que beneficiem a ambos.
Consigo responder a todos os e-mails importantes antes das nove, que é quando as coisas começam a se agitar por aqui. Santy e eu participamos de reuniões com os nossos futuros associados de Altea e Vila Joiosa para fazermos os últimos acertos necessários para a concretização do nosso novo projeto.
_ A Mar de Estelas é oficialmente a maior frota de embarcações espanhola. – Santy fala empolgado quando encerramos a videoconferência.
_ Não exagera, cara.
_ Não é exagero, Nando. É um fato. – Pontua de modo solene me fazendo rir. – Eu já te disse que o céu é o limite. Nós precisamos comemorar. Vamos sair para uma festa hoje.
_ De que festa estão falando? – Mirabella pergunta ao entrar na sala de reuniões.
_ Uma festa só para amigos íntimos e você não está convidada. – Santy responde à fazendo revirar os olhos num ar de tédio.
_ Eu não vou perder o meu tempo com você, Santiago.
_ Devo me sentir ofendido?
_ Chega vocês dois. – Peço me colocando entre eles. – Vem, Mirabella. Vamos para a minha sala.
_ Até mais, Belinha. – Ouço Santy gritar quando já estamos no corredor e preciso segurar Mirabella para impedir que volte e arme um escândalo.
Ela se solta de mim assim que entramos na minha sala. Leva um tempo até a sua raiva diminuir um pouco.
_ Esse seu amigo é insuportável. – Bufa passando as mãos nos cabelos. – Você bem que deveria se afastar um pouco dele. Essa amizade de vocês não parece te fazer bem. – Se aproxima novamente de mim e espalma as mãos em meu peito. – Se for pelo fato dele ser o seu sócio o meu pai pode comprar mais ações aqui para te ajudar e você pode dispensar aquela anta quadrada que você chama de amigo.
_ A minha amizade com o Santiago e a nossa sociedade aqui na Mar de Estrelas não é algo discutível, Mirabella. – Afasto suas mãos de mim e coloco alguma distância entre nós dois. – Sou muito grato pelo suporte que o seu pai nos forneceu no início, mas essa empresa é um sonho meu e do Santy. Não posso simplesmente descarta-lo por mero capricho seu.
_ Por que não? Ele quase não faz nada por aqui. É sempre você quem ficar com o trabalho mais pesado.
_ Se for continuar com isso é melhor pararmos por aqui. – Corto já cansado dessa atitude dela.
_ Tudo bem. – Suspira forçando um sorriso. – Vamos deixar esse assunto de lado. – Me envolve o pescoço e toca meus lábios em um beijo rápido. – Vim te buscar para irmos almoçar como combinamos.
Queria cancelar esse almoço depois dessa conversa, mas ela não me dá espaço para isso. Vamos no meu carro até o seu restaurante preferido. Deixo que decida tudo. Desde o vinho até a sobremesa.
Depois do almoço uso a desculpa do trabalho para não estender o nosso passeio e praticamente corro para longe quando nos despedimos no estacionamento da marina.
Sozinho novamente em minha sala me ponho a pensar se continuar com esse relacionamento é mesmo a coisa certa a fazer. Talvez o melhor seria que seguíssemos caminhos separados. Mirabella me ajudou muito no passado, mas não a amo e nunca vou amar. Essa é a verdade.