Capítulo 02 - Momentos Difíceis.

1367 Words
Helena Duarte O cheiro de livros antigos era como um abraço. Para alguns, aquele aroma de papel envelhecido podia parecer melancólico, mas para mim, era sinônimo de casa. A livraria era o coração da minha vida, o último presente que minha mãe me deixou antes de partir. A porta de madeira rangeu levemente enquanto eu a abria para começar mais um dia. O sol da manhã atravessava as janelas de vidro, espalhando pequenos feixes de luz que dançavam entre as prateleiras abarrotadas de histórias de todos os tipos. O letreiro sobre a entrada estava desbotado, e a pintura das paredes precisava de uma nova mão, mas, ainda assim, aquele lugar tinha uma magia única. Sofia corria entre os corredores estreitos, com os cachos castanhos balançando, e sua risada ecoava como música. — Mamãe, posso organizar os livros infantis? Quero fazer uma prateleira só com dragões! — disse ela, segurando um livro colorido com um desenho de dragão na capa. Sorri para ela, enquanto colocava o avental que usava para limpar a poeira e organizar o estoque. — Claro, meu amor. Mas cuidado para não se perder entre os dragões, hein? Ela riu, como sempre fazia quando eu tentava brincar com suas histórias favoritas, e correu para a área infantil da livraria. Era por ela que eu continuava. Era por ela que eu acordava todas as manhãs e enfrentava cada desafio. A livraria não estava indo bem, e eu sabia disso. As vendas diminuíam mês após mês, e o aluguel do espaço era alto demais para o que eu conseguia arrecadar. Mas não havia outra opção. Fechar as portas significava perder não só minha fonte de renda, mas também o legado da minha mãe, o lugar que significava tanto para mim e, agora, para Sofia. Suspirei e comecei a organizar uma prateleira próxima à entrada. A rotina era sempre a mesma: limpar, reorganizar, planejar promoções que raramente davam o resultado esperado. Mas hoje, algo estava diferente. De repente, senti um arrepio ao olhar para a entrada da livraria. Por um instante, achei que alguém estava me observando, mas quando olhei pela porta, só vi a praça vazia. Estranhei, mas logo voltei ao trabalho. Enquanto limpava as estantes, meus pensamentos começaram a vagar. Era inevitável. Sempre que a situação ficava difícil, uma lembrança específica voltava para me assombrar. A livraria estava silenciosa, exceto pelo som suave de Sofia murmurando enquanto reorganizava os livros. Foi quando vi, em cima do balcão, um chaveiro velho, esquecido ali por algum cliente. Ele tinha o símbolo de um time de futebol. O mesmo símbolo que o pai de Sofia usava em sua carteira. Fechei os olhos por um momento, e as lembranças invadiram minha mente como uma tempestade. Rafael. O nome ainda tinha o poder de me fazer estremecer. Não por saudade, mas por tudo o que ele representava. Quando o conheci, ele parecia ser exatamente o que eu precisava: charmoso, atencioso e com palavras que me faziam acreditar em qualquer coisa. Ele tinha um jeito de me convencer de que o mundo estava aos nossos pés. Mas aquilo foi um engano. A primeira vez que ele perdeu o controle, fiquei paralisada. O grito, o olhar de fúria, as palavras que me cortaram como lâminas. "Você não é nada sem mim." Eu queria acreditar que era só um momento r**m, que ele mudaria, que o homem por quem me apaixonei ainda estava ali. Mas os momentos ruins se tornaram rotina, e a mulher que eu era começou a desaparecer. Foi só quando descobri que estava grávida de Sofia que tudo mudou. Eu não podia deixar que ela crescesse naquele ambiente, que testemunhasse o que eu aceitava como "amor". Eu não sabia como seria viver sem ele, mas sabia que não podia continuar com ele. Quando finalmente tive coragem de ir embora, Rafael me acusou de traição, de ingratidão. "Você vai se arrepender," ele disse. Mas o único arrependimento que carrego é não ter ido antes. — Mamãe? A voz doce de Sofia me trouxe de volta ao presente. Ela segurava um livro com um desenho de unicórnio agora, os olhos brilhando de animação. — Acho que os unicórnios também merecem um espaço, né? Sorri para ela, afastando as sombras do passado. — Claro que merecem. Unicórnios são tão mágicos quanto dragões. Ela riu e voltou para seu "trabalho". Eu a observei por um momento, sentindo um aperto no peito. Sofia era a prova de que algo bom podia nascer mesmo de um lugar tão escuro. Ela era minha força, minha esperança. A livraria pode estar desmoronando, as contas podem estar se acumulando, mas enquanto eu tiver Sofia, vou continuar lutando. Antes que eu pudesse me perder novamente em pensamentos, meu celular vibrou no balcão, arrancando-me de vez das memórias que tanto me assombravam. Peguei o aparelho e vi o nome de Aurora piscando na tela. Ela era minha melhor amiga desde os tempos de escola e, agora, dona da pequena cafeteria na esquina da praça. — Oi, amiga. Algum problema? — perguntei, preocupada. — Nada grave, mas você não vai acreditar no que eu acabei de ouvir — respondeu ela, com aquele tom que indicava que algo sério vinha pela frente. Apoiei o celular no ombro e continuei organizando uma pilha de livros. — O que foi agora? — Lembra que eu te falei sobre aquela empresa que anda comprando propriedades por aqui? Parece que já compraram metade da cidade! Minha mão parou no ar por um momento. — Metade da cidade? Como assim? — Minha voz saiu um pouco mais alta do que eu pretendia. — Pois é. Pelo que ouvi, eles estão fechando acordos com vários proprietários, principalmente os donos de prédios comerciais. A questão é: ninguém sabe exatamente quais propriedades foram compradas ainda. Senti um frio no estômago. — Você acha que o seu Henrique pode ter vendido o prédio da livraria? — Aurora perguntou, quase lendo minha mente. A ideia me atingiu como um soco. O senhor Henrique era o dono do imóvel há décadas. Sempre foi gentil comigo, mas ultimamente, ele vinha demonstrando cansaço com a manutenção do prédio e até comentou algumas vezes sobre se aposentar de vez. — Não sei... Ele não mencionou nada, mas... — Minha voz falhou. Eu não queria acreditar que ele poderia vender sem me avisar. — Essa gente só pensa em dinheiro, amiga — continuou Aurora, indignada. — Quem faz isso? Compra propriedades e desmantela uma cidade inteira, sem se importar com quem mora aqui? Aposto que é alguma dessas empresas de fora, cheia de CEO arrogante que acha que pode comprar o mundo. Revirei os olhos, mas sua indignação tinha um ponto. — Será que eles já começaram a construir alguma coisa? — perguntei, tentando controlar a ansiedade. — Nada ainda. Acho que estão planejando, mas, de qualquer forma, é melhor você falar com o senhor Vicente o quanto antes. Eu suspirei, sentindo o peso de mais uma preocupação se acumulando sobre meus ombros. A livraria era meu sustento e o legado da minha mãe. Perder aquele espaço seria como perder parte de quem eu era. — Obrigada por me avisar, amiga. Vou tentar conversar com ele amanhã. — Claro. Qualquer coisa, me chama. Não se preocupe. A gente dá um jeito. Desliguei o telefone e encostei as mãos no balcão, tentando acalmar o turbilhão de pensamentos. "Metade da cidade..." Quem quer que estivesse por trás dessa compra, certamente não estava pensando nos moradores. Tudo o que importava para essas empresas era lucro, expansão, números. Sentia um misto de raiva e impotência ao imaginar que, para eles, a livraria da minha mãe não passava de um espaço comercial qualquer. Olhei para Sofia, ainda entretida com sua arrumação de livros, e soube que não podia deixar isso acontecer. Eu havia lutado tanto para construir uma vida para nós duas. Não seria uma empresa sem rosto que levaria tudo embora. Mas, no fundo, algo me incomodava ainda mais. Quem seria tão ousado e c***l a ponto de comprar metade de uma cidade e não se preocupar com as pessoas que viviam ali? "Um CEO arrogante que acha que pode comprar o mundo," pensei, ecoando as palavras de Aurora. Talvez ela tivesse razão.
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