Helena Duarte
Eu sempre gostei das tardes na livraria. A luz dourada que atravessava a vitrine, as prateleiras repletas de histórias esperando para serem descobertas... Era meu refúgio, meu pequeno mundo em meio ao caos. Sofia estava na escola, e, apesar do vazio no ambiente, eu sentia uma paz rara.
Havia poucos clientes naquele dia. Depois que a última pessoa saiu, sentei-me atrás do balcão, folheando um exemplar de um romance antigo que eu gostava. O sino da porta tocou, tirando-me do devaneio.
Levantei o olhar, e meu coração parou por um instante. Era Gabriel Montenegro.
Ele entrou como se o tempo não tivesse passado, mas, ao mesmo tempo, tudo nele parecia diferente. O terno impecável, a postura confiante… Ele estava longe de ser o jovem que eu conheci. Meu primeiro instinto foi disfarçar o desconforto, mas sabia que ele já havia me notado.
— Helena — disse ele, com a voz grave que eu lembrava bem, embora mais firme.
— Gabriel — respondi, lutando para soar indiferente.
Ele se aproximou, os olhos percorrendo o espaço ao nosso redor.
— A livraria não mudou nada. Ainda tem o mesmo charme de sempre.
Sorri de canto, amarga. O comentário parecia casual, mas ele não sabia o quanto eu havia lutado para manter aquele lugar de pé.
— Algumas coisas não precisam mudar — respondi.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio, como se tentássemos medir a presença um do outro. Finalmente, ele quebrou o gelo:
— Como você está?
Quis rir da ironia. Ele pergunta isso agora, anos depois de desaparecer sem sequer uma despedida? Mas, em vez disso, escolhi a diplomacia:
— Sobrevivendo, como todos. E você? Parece estar... indo bem.
— Estou. Mas a vida acaba nos levando por caminhos diferentes, não é?
Assenti, sentindo a mágoa borbulhar sob a superfície. Ele não fazia ideia do estrago que sua partida havia causado, e talvez fosse melhor assim.
— E você? Está casada? — perguntou, sem rodeios.
O ar pareceu pesar. Respirei fundo antes de responder:
— Não. Me divorciei há algum tempo. Tenho uma filha agora.
Vi a surpresa em seu rosto, mas ele mascarou rapidamente.
— Não sabia que você tinha uma filha.
— Sofia. Ela tem cinco anos. Está na escola agora.
Ele pareceu digerir a informação por um momento, depois assentiu.
— Imagino que ela seja como você... cheia de personalidade.
Ignorei a tentativa de cordialidade e devolvi a pergunta:
— E você? Casado? Filhos?
Ele balançou a cabeça, um meio sorriso se formando.
— Não, nada disso. Acho que nunca me permiti pensar muito em construir uma família.
Seus olhos se desviaram por um instante, e eu percebi algo nele — um vazio que não combinava com o homem confiante que havia entrado ali. Mesmo assim, minha mente correu para conclusões. Será que ele se tornou alguém ambicioso a ponto de deixar tudo mais para trás?
Mas fiquei calada. Não era hora de confrontá-lo com minhas impressões.
— Imagino que sua vida tenha sido movimentada — arrisquei.
— Sim, bastante. Mas ainda há coisas que o tempo não apaga.
Houve algo em seu tom que me fez desviar o olhar. Não estava pronta para lidar com o peso do que aquilo significava.
— Bem, se precisar de ajuda para encontrar um livro, é só me chamar.
Ele percebeu a sutileza no corte. Não insistiu, apenas assentiu e deu um pequeno sorriso antes de começar a caminhar pelas prateleiras.
Enquanto o observava, senti uma mistura de emoções conflitantes. Parte de mim queria expulsá-lo da livraria, proteger o pequeno mundo que eu havia construído para mim e Sofia. Outra parte queria entender por que ele estava ali, e o que ainda restava entre nós.
Assim que o sino da porta soou novamente, anunciando a saída de Gabriel, um silêncio pesado tomou conta da livraria. Respirei fundo, tentando acalmar a tempestade que ele deixara em meu peito. Meu olhar vagou pelas prateleiras, como se cada livro fosse um pedaço de memória escondido, esperando para ser revisitado.
Foi inevitável. Minha mente me arrastou de volta para um tempo em que aquela livraria era mais do que apenas um negócio. Era o lugar onde tudo acontecia. Onde nós dois, aos 17, talvez 18 anos, éramos apenas jovens tentando descobrir o mundo – e um ao outro.
Naquela época, meus pais comandavam a livraria, e eu passava horas ajudando no balcão ou organizando as prateleiras. Gabriel aparecia quase todos os dias, sempre com um sorriso fácil e aquele brilho nos olhos que fazia meu coração disparar. Ele dizia que vinha buscar livros para os estudos, mas era mentira. Ele vinha por mim.
Lembrei-me de uma tarde específica, quando ele apareceu com um exemplar de O Morro dos Ventos Uivantes debaixo do braço. Disse que queria entender por que eu gostava tanto daquele livro. Sentamo-nos juntos em um canto da livraria, escondidos entre as prateleiras de clássicos, e começamos a ler. Eu lia trechos em voz alta, e ele ria, zombando do drama dos personagens, mas no final confessou que gostou.
Outras vezes, não líamos nada. Apenas nos escondíamos entre os livros, longe do olhar atento dos meus pais, para nos beijarmos. Era um mundo só nosso. Gabriel tinha um jeito de me fazer sentir como se tudo fosse possível, como se nossos planos de fugir juntos, explorar o mundo, fossem mais do que sonhos de adolescentes.
Eu o amava. Não apenas com a intensidade de uma paixão juvenil, mas com algo que, mesmo agora, era difícil de descrever. Era como se ele fosse parte de mim, algo que eu nunca soube como viver sem.
Mas ele foi embora.
A lembrança de como tudo terminou ainda era dolorosa, mesmo depois de tantos anos. Uma manhã, ele simplesmente não apareceu. Nenhuma explicação, nenhum bilhete, nada. Descobri pelos outros que ele havia ido embora da cidade, levado pelo pai para algo "mais promissor", como disseram.
Por semanas, esperei por uma carta, uma ligação, qualquer coisa. Mas nada veio. O amor que eu sentia, tão vibrante e avassalador, transformou-se em mágoa. Era um peso que carreguei por muito tempo, até que um dia decidi enterrá-lo.
Ou pelo menos tentei.
De repente, percebi que estava apertando com força um exemplar de O Morro dos Ventos Uivantes que segurava sem perceber. Soltei o livro e esfreguei as têmporas.
— Não — sussurrei para mim mesma. — Ele não importa mais.
Queria acreditar nisso. Queria acreditar que Gabriel Montenegro não significava mais nada, que ele era apenas um fantasma do meu passado. Mas bastou um encontro, um simples olhar, para que as paredes que construí começassem a rachar.
Mas eu não iria ceder. Não desta vez.
O sino da porta tocou novamente, e voltei à realidade. Era uma cliente habitual, procurando um presente de Natal. Forcei um sorriso e me preparei para ajudá-la, tentando ignorar as memórias que Gabriel havia trazido de volta. Eu precisava seguir em frente. Para mim. Para Sofia. E para o mundo que construí, sem ele.
O resto da tarde transcorreu em um ritmo lento, mas minha mente estava longe dali. A presença de Gabriel parecia ter impregnado o ar da livraria, como um perfume que não desaparece. Mesmo enquanto atendia os poucos clientes que entraram, minha mente vagava, revisitando memórias que eu preferia manter enterradas.
Quando o relógio marcou 17h30, comecei a fechar a loja. Apaguei as luzes, guardei o caixa e passei os olhos pelas prateleiras mais uma vez, tentando me reconectar com o lugar que sempre foi meu refúgio. Mas hoje, ele parecia estranho, quase vazio, como se algo tivesse mudado.
Do lado de fora, a cidade começava a se acalmar com o fim do dia. As luzes dos postes acendiam, lançando reflexos dourados na calçada. Caminhei em direção à escola de Sofia, sentindo o vento frio da tarde bater em meu rosto.
Gabriel não saía da minha cabeça. Eu me odiava por isso. Depois de tudo que ele fez — ou melhor, deixou de fazer —, ainda permitia que ele ocupasse espaço em mim. Respirei fundo, tentando afastar os pensamentos.
Cheguei à escola no momento em que Sofia corria para o portão, com o mesmo sorriso iluminado que sempre fazia meu coração se acalmar. Ela segurava um desenho que fizera, e enquanto me mostrava entusiasmada, senti uma onda de gratidão por tê-la na minha vida.
— Mamãe, vamos comer bolo hoje? — perguntou, com os olhos brilhando de expectativa.
Sorri, inclinando-me para beijar sua testa.
— Vamos, meu amor. Um bolo bem gostoso.
Enquanto caminhávamos juntas de volta para casa, ouvi sua vozinha alegre contando sobre o dia, tentando focar em sua inocência e alegria. Mas no fundo, ainda sentia o peso de um reencontro que eu não tinha pedido — e cujas consequências ainda não sabia como lidar.