Capítulo 04 - Memórias.

1453 Words
Gabriel Montenegro A antiga casa da minha família ainda parecia grande demais para mim, mesmo depois de todos esses anos. Era o mesmo casarão imponente de minha infância, com suas paredes carregadas de histórias e segredos. Eu estava na cozinha, sentado à mesa de madeira maciça, enquanto o cheiro de café fresco preenchia o ambiente. Minha mãe estava à minha frente, com aquele mesmo olhar firme que sempre carregou, mas agora suavizado pelos anos. — Então, como foi o primeiro dia de volta? — perguntou ela, com um toque de curiosidade na voz. Dei de ombros, levando a xícara aos lábios. — Nada fora do comum. Só... rever a cidade. Minha mãe sorriu de lado, como se soubesse que eu não estava sendo totalmente sincero. — A cidade pode ser a mesma, Gabriel, mas você não é. Não respondi. Em vez disso, meu olhar vagou pela janela, para o jardim que eu conhecia tão bem. Era lá que eu passava boa parte das tardes na adolescência, e as lembranças vieram como um vendaval. Era o mesmo jardim onde Helena e eu costumávamos nos deitar na grama, observando as nuvens enquanto fingíamos adivinhar suas formas. Ou onde jogávamos bola com Max, o cachorro da família, um labrador grande e desajeitado que adorava a presença dela. Helena sempre dizia que Max tinha uma alma gentil, e eu ria, achando que ela era a pessoa mais doce e peculiar do mundo por pensar assim. Lembrei-me de como ela ria enquanto Max a derrubava no chão com sua empolgação, lambendo seu rosto enquanto ela tentava afastá-lo, mas sem nunca parar de sorrir. Eu ficava observando de perto, perdido em sua alegria simples e genuína. — Você está tão calado — minha mãe comentou, interrompendo minhas memórias. — Pensando em algo específico? Hesitei por um momento, mas balancei a cabeça. — Nada de mais. Só... lembranças. Ela pareceu aceitar minha resposta, mas seus olhos continuaram me analisando, como se tentassem desvendar algo que eu mesmo não estava pronto para encarar. Helena. Era impossível não pensar nela agora. Cada canto desta casa guardava um pedaço dela, mesmo que ela nunca tivesse realmente pertencido a este lugar. Os finais de tarde no jardim, os beijos roubados no corredor enquanto ninguém olhava, as conversas sobre tudo e nada... Helena tinha o poder de transformar até os momentos mais simples em algo extraordinário. E eu fui embora. Deixei tudo isso para trás sem olhar para trás. Não foi uma decisão minha, não de verdade, mas também não fiz nada para impedi-la. Meu pai, com sua autoridade incontestável, decidiu que era hora de eu ir embora para "me tornar alguém". Lembro-me de sua voz grave me dizendo que amores como aquele eram passageiras distrações. E eu, com a juventude cheia de obediência e medo, cedi. Voltei ao presente com um aperto no peito que o café quente não conseguia aliviar. — Você sabe que não pode mudar o passado, não é? — minha mãe disse, como se tivesse lido meus pensamentos. Olhei para ela, surpreso com sua percepção, mas apenas assenti. — Sim, eu sei. Mas enquanto olhava para o jardim novamente, me perguntei se o passado realmente podia ficar para trás quando estava tão vivo dentro de mim. Minha mãe colocou sua xícara sobre o pires com delicadeza, os olhos pousando em mim com aquele olhar inquisitivo que sempre me desconcertou. — E então, Gabriel, o que exatamente sua empresa pretende fazer aqui na cidade? Suspirei, já esperando a pergunta. Ela conhecia meu trabalho, sabia das minhas responsabilidades, mas sempre teve uma visão romântica da cidade e das pessoas que aqui viviam. — Estamos adquirindo alguns imóveis no centro para um novo projeto imobiliário — respondi, tentando soar objetivo. Ela franziu a testa, mas manteve a calma. — Imóveis no centro? Isso não vai afetar os pequenos negócios? — Mãe, é inevitável. É assim que o mercado funciona. Não há crescimento sem mudanças. Ela balançou a cabeça, desaprovando, mas sem dizer mais nada. Depois de um momento de silêncio, perguntou: — E você, quando pretende voltar para São Paulo? — Assim que resolver tudo relacionado à herança e concluir as negociações dos imóveis. Não deve demorar muito. Ela parecia satisfeita com a resposta, assentindo levemente. — Faz sentido. Na próxima semana, vou viajar para a Itália. Minhas irmãs têm insistido há meses para eu visitá-las, e alguns outros parentes também querem me ver. — Fico feliz que vá. Faz tempo que você não se dá esse luxo. — Sim — ela sorriu, mas logo voltou a me analisar com cuidado. — E você? Vai ficar bem aqui na casa? Balancei a cabeça. — Não vou ficar aqui. Reservei um quarto em um hotel no centro. Facilita para lidar com os negócios. Ela assentiu novamente, mas com um toque de preocupação nos olhos. — Essa casa é grande demais para você, de qualquer forma. Parece que sempre foi. Sorri de canto, sem responder, e depois de mais algumas trocas de palavras, me levantei, dizendo que precisava subir. Enquanto subia a escadaria, um peso começou a se formar em meu peito. Fazia anos que eu não entrava no meu antigo quarto. A porta rangeu levemente ao ser aberta, revelando o espaço que parecia ter congelado no tempo. As mesmas paredes cobertas por pôsteres antigos, a mesma cama, o mesmo cheiro levemente empoeirado de um lugar que não vê vida há muito tempo. Entrei e fechei a porta atrás de mim. Era estranho estar ali novamente. Cada canto daquele quarto carregava lembranças de um Gabriel que eu já não reconhecia, de uma época em que as coisas eram simples. Mas uma memória em particular tomou conta de mim. Helena. Lembrei-me da primeira vez que ela esteve ali, nervosa, mas confiante. Era uma noite qualquer, e ficamos sozinhos. Estávamos juntos havia meses, e ela sempre foi clara sobre sua vontade de esperar o momento certo para dar aquele passo. Eu nunca a pressionei, nunca sequer cogitei insistir, mas naquela noite ela decidiu que estava pronta. Ela confiou em mim para algo tão importante, algo que, para ela, era muito mais do que um ato físico. Eu a amava profundamente naquela época, de uma forma que me assustava pela intensidade. Fomos cuidadosos, respeitosos, e, mesmo anos depois, lembrava-me com clareza do brilho nos olhos dela depois. E agora? Agora ela provavelmente me odiava. Sentei na beira da cama, segurando a cabeça entre as mãos. Helena havia sido uma das pessoas mais importantes da minha vida, mas eu a tinha magoado de um jeito que talvez nunca pudesse consertar. "Será que existe perdão para algo assim?" pensei, enquanto encarava o teto familiar. A resposta não veio. Apenas o silêncio, pesado e implacável. Fiquei ali sentado por alguns minutos, encarando o teto, como se ele pudesse me oferecer alguma resposta. Mas tudo o que encontrei foi o peso sufocante das memórias. Essa cidade parecia uma cápsula do tempo, insistindo em me arrastar de volta a momentos que eu acreditava ter superado. Helena. Seu nome estava em tudo. Na livraria que eu visitara hoje, no jardim da minha casa, até mesmo neste quarto. Ela parecia ser uma sombra que a cidade inteira fazia questão de projetar sobre mim, e eu odiava isso. Passei a mão pelos cabelos, exalando um suspiro irritado. "Isso não vai me abalar", pensei. Não podia permitir que fosse diferente. Eu não era mais aquele garoto apaixonado, sonhador e t**o que acreditava em histórias de amor perfeitas. A vida já tinha me ensinado que essas coisas não existiam. Levantei-me, caminhando até a janela do quarto. O céu da cidade já começava a escurecer, e as luzes espalhadas pelas ruas davam uma falsa sensação de tranquilidade. Helena e eu tínhamos mais de 30 anos agora. Éramos adultos com vidas próprias, experiências, cicatrizes. Não fazia sentido algum ficar remoendo um passado adolescente, cheio de sonhos que nunca se realizariam. Eu construí uma carreira. Uma vida. Trabalhei duro para chegar onde estou. Não deixei que as emoções me controlassem antes, e não seria agora que isso mudaria. Helena seguiu em frente, assim como eu. As nossas vidas se separaram há muito tempo, e nada do que aconteceu naquela época deveria importar mais. Endireitei os ombros, decidido. Eu estava aqui para resolver questões práticas, a herança, os imóveis, o projeto. Não para reviver memórias ou me deixar prender pelo que ficou para trás. Helena era parte de um capítulo encerrado da minha vida, um capítulo que eu não tinha intenção de reabrir. Sai do quarto com passos firmes, descendo as escadas e deixando aquele ambiente sufocante para trás. Amanhã seria outro dia, e eu me concentraria no que realmente importava: o presente e o futuro. O passado podia ficar onde estava.
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