Helena Duarte
A manhã começou tranquila, mas, como sempre, meus pensamentos estavam cheios de contas e preocupações. Eu estava na livraria, organizando as prateleiras e revisando algumas notas para o pagamento do aluguel. Todo mês era a mesma luta: equilibrar o pouco que entrava com o muito que saía. Ainda assim, este lugar era minha vida, minha história, e eu fazia tudo o que podia para mantê-lo de pé.
Enquanto separava alguns títulos para uma promoção, ouvi o som da porta se abrindo. Olhei para cima e vi o senhor Henrique entrando com seu andar lento e seu sorriso habitual. Ele era o dono do prédio, um homem gentil e de fala mansa, que conhecia minha família desde antes de eu nascer.
— Bom dia, Helena! — ele disse, com a voz calorosa que sempre me trazia uma sensação de conforto.
— Bom dia, seu Henrique. O senhor está bem? — perguntei, indo até ele.
Ele assentiu, mas havia algo diferente em seu olhar. Um certo peso, talvez.
— Estou, sim, minha querida. Vim conversar com você sobre o aluguel deste mês.
Senti meu estômago revirar.
— Ah, claro. Vou pegar o dinheiro agora mesmo — respondi, tentando esconder a preocupação.
— Não precisa se apressar — ele disse, gesticulando para que eu me sentasse. — Na verdade, eu queria conversar sobre outra coisa.
Franzi a testa, sem entender. Ele parecia nervoso, algo incomum para ele.
— O que foi, seu Henrique?
Ele respirou fundo, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
— Helena, você sabe que esta livraria é um lugar especial para mim. Ela sempre foi. Eu vi você crescer aqui, correndo entre as prateleiras, ajudando seus pais... Sempre achei que esse lugar tinha um pouco da alma da sua família.
Assenti, sentindo um nó se formar na garganta.
— Eu sei, senhor Henrique. Este lugar significa muito para mim também.
Ele colocou a mão no bolso do casaco e puxou um envelope, colocando-o sobre o balcão.
— Eu decidi vender o prédio.
As palavras caíram como uma bomba. Meu coração disparou, e por um momento, achei que tinha ouvido errado.
— O quê? Mas... por quê?
Ele suspirou, os olhos cheios de emoção.
— Eu já não tenho mais idade para administrar nada, minha querida. Os anos estão pesando, e meus filhos insistiram para que eu me aliviasse desse fardo.
— Mas o senhor... o senhor nunca disse que estava pensando nisso... — Minha voz falhou.
— Não queria preocupar você. Mas veja — ele empurrou o envelope em minha direção —, parte do dinheiro da venda será sua.
Eu pisquei, confusa.
— Como assim?
Ele sorriu, um sorriso triste e carinhoso.
— Você é como uma filha para mim, Helena. Vi você crescer aqui, vi você se tornar a mulher forte que é hoje. Eu nunca poderia simplesmente vender este lugar e não pensar em você.
As lágrimas começaram a surgir, mas tentei contê-las.
— Seu Henrique... eu não posso aceitar isso.
— Pode, sim. E vai aceitar. Você merece, Helena. E eu sei que este dinheiro pode te ajudar com Sofia, com sua vida. Sei que não é fácil, mas é o mínimo que posso fazer por tudo o que você representa para mim.
Não consegui mais segurar. As lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto eu olhava para ele, sem palavras.
— Eu não sei como agradecer...
— Não precisa agradecer, minha menina. Só quero que você saiba o quanto você é especial para mim e o quanto eu admiro sua luta.
Nos abraçamos, e eu senti o calor e a bondade de um homem que sempre cuidou de mim como um pai.
Seu Henrique não se apressou em sair. Após o momento emocionante, ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, com o olhar sereno, mas carregado de algo que eu não conseguia decifrar.
— Sei que isso foi um choque para você, Helena, mas quero que fique tranquila quanto ao futuro deste lugar.
Enxuguei as lágrimas rapidamente, tentando recuperar a compostura.
— O senhor disse que vendeu para uma empresa. Eles... já falaram o que pretendem fazer com o prédio?
Ele assentiu, cruzando as mãos sobre a bengala.
— Sim, foi a primeira coisa que perguntei antes de fechar o negócio. Eles garantiram que o prédio não será demolido. Vai passar por uma reforma, claro, mas a estrutura será preservada.
— E a livraria?
— Eles disseram que há planos para manter uma livraria aqui. Talvez com algumas mudanças na gestão ou no modelo de negócios, mas nada que apague a essência do lugar. Foi por isso que aceitei vender. E também me garantiram que você continuaria trabalhando aqui.
Ele fez uma pausa, os olhos me observando com cuidado.
— Helena, se eles tivessem dito que iriam demolir ou transformar isso aqui em outra coisa, eu jamais teria vendido. Mesmo que meus filhos insistissem, mesmo que o dinheiro fosse necessário, não seria justo com você ou com a memória dos seus pais.
Meu coração se apertou, mas, ao mesmo tempo, senti um alívio indescritível.
— Obrigada, seu Henrique. Por pensar em mim, por se preocupar tanto... Não sei como vou conseguir retribuir.
Ele sorriu, aquele sorriso bondoso que sempre parecia saber exatamente como me acalmar.
— Não precisa retribuir, minha menina. Eu sempre soube que você faria seus pais orgulhosos. E sei que, independentemente do que aconteça, você vai encontrar um jeito de seguir em frente.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que ele se levantou com esforço.
— Bem, agora eu preciso ir. Tenho que organizar as papeladas com meus filhos antes de viajar.
Levantei-me também, acompanhando-o até a porta.
— Vou sentir sua falta por aqui, seu Henrique.
Ele segurou minha mão por um momento, com os olhos brilhando de emoção.
— Eu sempre estarei por perto, Helena. Mesmo de longe.
Nos despedimos, e ele foi embora, caminhando devagar pela calçada. Fiquei parada na porta, observando-o até desaparecer na esquina, e, quando voltei para dentro da livraria, um peso começou a se formar no meu peito.
Por mais que ele tivesse sido sincero, algo naquela história não parecia certo. Eu não confiava em empresas grandes, muito menos em promessas feitas a um homem tão bondoso quanto seu Henrique. Ele podia ter acreditado no que disseram, mas e se não fosse verdade?
Enquanto olhava ao redor, absorvendo cada detalhe da livraria que era meu lar, uma sensação incômoda me invadiu. Algo estava errado, e eu precisava descobrir o que era antes que fosse tarde demais.