Capítulo 06 - A Verdade Sob a Superfície

1038 Words
Helena Duarte Sentei-me atrás do balcão, com o computador aberto e um peso no peito que eu não conseguia ignorar. Desde a conversa com o senhor Henrique, uma inquietação me consumia. Ele sempre foi um homem sensato, mas confiava demais na bondade dos outros. Eu, por outro lado, sabia que grandes empresas raramente eram tão benevolentes quanto pareciam. Abri o navegador e comecei a digitar o nome da empresa que ele mencionava durante nossa conversa. Montenegro Holdings. O nome soava imponente, mas era também familiar demais. Meu estômago embrulhou ao me lembrar de Gabriel, mas tentei afastar a associação. Precisava de respostas, não de distrações. A primeira coisa que apareceu foi o site oficial da empresa. Um design moderno, repleto de imagens de prédios reluzentes e projetos urbanos de grande escala. A página inicial prometia "progresso sustentável" e "respeito à história local". Cliquei em alguns links, mas tudo parecia artificial, cuidadosamente projetado para transmitir uma imagem confiável. — Não me enganam tão fácil... — murmurei, clicando para fechar o site e indo direto para as notícias. Os resultados seguintes foram bem diferentes. Várias matérias relatavam histórias sobre a empresa. No início, os projetos pareciam promissores: compromissos com preservação, revitalização e benefícios para as comunidades locais. Mas então vieram os relatos de problemas. "Conglomerado Montenegro acusado de alterar planos em bairro histórico." "Moradores reclamam de desapropriação forçada e mudanças drásticas no projeto inicial." "De preservação a demolição: as reviravoltas do Montenegro Holdings." A cada artigo que eu lia, meu coração batia mais forte. Eles faziam promessas de preservação, conquistavam a confiança dos proprietários e, depois, mudavam completamente os planos. Muitos dos lugares que eles haviam adquirido acabaram transformados em centros comerciais ou prédios de luxo. — Não pode ser... — minha voz saiu trêmula. O senhor Henrique confiara cegamente nessa empresa. E por que não confiaria? Eles pareciam legítimos, profissionais, até generosos. Mas agora, tudo que eu conseguia pensar era que ele fora enganado. Que todos nós havíamos sido enganados. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando conter as lágrimas. Não era apenas o prédio. Era a história, a memória da minha família, tudo o que a livraria representava. Eu me lembrei do sorriso confiante de seu Henrique, da maneira como ele acreditava que havia feito a escolha certa. Ele queria o melhor para mim, para Sofia, para todos que amavam aquele lugar. Mas ele não sabia. Passei as mãos pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos. Era como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés. A ideia de que aquela livraria poderia ser destruída ou transformada em algo completamente diferente me deixava sem ar. Olhei para o relógio. Era quase hora de buscar Sofia na escola, mas eu não conseguia me mexer. Fiquei ali, encarando a tela do computador como se ela pudesse me dar alguma resposta, alguma saída para isso. Eu precisava fazer alguma coisa. Precisava proteger esse lugar. Não sabia como, nem contra quem, mas a única certeza que eu tinha era que não deixaria Montenegro Holdings — ou quem quer que fosse — destruir tudo o que aquela livraria significava. Engoli em seco, desliguei o computador e me levantei. O peso no meu peito continuava lá, mas algo mais começava a surgir. Determinação. Eles poderiam ter o dinheiro e o poder. Mas eu tinha minha história. E isso, eu não deixaria ninguém levar. Desliguei o computador, mas a inquietação continuava. Peguei minha bolsa e as chaves da livraria, ainda tentando organizar meus pensamentos. Tudo o que eu havia descoberto parecia uma bomba prestes a explodir. Como eu ia contar isso ao senhor Henrique? Como eu ia lutar contra algo tão grande? Sai da livraria e caminhei em direção à escola de Sofia, tentando focar no som dos meus passos no asfalto para acalmar minha mente. Mas a angústia estava lá, latente. Quando cheguei ao portão da escola, vi Sofia saindo com a mochila maior do que ela nas costas e o sorriso mais radiante do mundo. Só de olhar para ela, meu peito se apertou. Precisava ser forte por ela, sempre. — Mamãe! — Sofia gritou, correndo em minha direção. Abracei-a apertado, inspirando o cheiro doce do shampoo em seu cabelo. Era incrível como aquele simples gesto sempre me trazia um pouco de paz. — Oi, meu amor. Como foi o dia? — perguntei, forçando um sorriso. Sofia me olhou com aqueles olhos curiosos e espertos que pareciam enxergar tudo. — Foi legal! Mas... você tá triste, mamãe? A pergunta dela me pegou de surpresa. Engoli em seco e tentei suavizar a expressão. — Não, querida, não é nada. Só estou um pouco cansada. Ela me olhou desconfiada, mas não insistiu. Em vez disso, começou a falar sobre o dia dela com a animação de quem tem o mundo inteiro para compartilhar. — A professora disse que semana que vem vai ter um projeto sobre animais! Eu quero fazer sobre tigres. Eles são muito rápidos e têm listras como pijamas, sabia? Não pude deixar de rir. — Como pijamas? — É, mamãe! Mas um pijama de super-herói, porque eles são muito fortes também! Enquanto caminhávamos para casa, ela continuou a falar sobre os amigos, os jogos no recreio e como um menino da turma dela tinha derrubado a caixa de lápis no chão e fingiu que foi de propósito só para não parecer desastrado. — E sabe o que mais? — Sofia disse, parando de repente para olhar para mim. — Eu acho que o Pedro gosta da minha amiga Clara. Porque ele sempre empresta os lápis roxos pra ela, e ela adora roxo! Ri novamente, sentindo meu coração se aquecer. A inocência de Sofia era o que me mantinha de pé, mesmo nos dias mais difíceis. — Você acha? — provoquei, segurando sua mão. — Tenho certeza! — ela afirmou, balançando a cabeça com confiança. Sem que percebesse, ela havia conseguido me distrair dos meus próprios pensamentos sombrios. Quando chegamos em casa, eu me sentia um pouco mais leve, ainda que soubesse que as preocupações não tinham desaparecido. Enquanto ela corria para pegar seus livros de colorir, fiquei parada na sala, observando-a. Sofia era minha força. E, por ela, eu lutaria por essa livraria até o fim. Mesmo que isso significasse enfrentar essa empresa.
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