THIAGO NARRANDO
Cheguei numa casa que por fora parecia de gente normal de morro, mas por dentro era pura ostentação. Vi uma televisão que parecia uma parede, objetos caros, e um sofá que parecia ter saído de uma revista de decoração. No sofá, uma mulher deitada e coberta com um lençol. Os homens que me arrastaram, me jogaram no chão da sala, ao lado do sofá onde a moça estava.
— Diz aí o que a gente precisa pegar. — Um deles disse.
— Um estetoscópio. — Eles se entreolhavam. — Aquele bagulho que pendura no pescoço assim. — Fiz o movimento que sempre fazemos ao pendurar um no pescoço.
Um deles saiu de perto, e voltou com uma caixa bem grande. Quando abri, vi várias coisas de primeiros socorros. Pelo visto, eles preferem ser atendidos no particular mesmo.
Peguei o estetoscópio e tirei cuidadosamente o lençol de cima da moça que aparentemente dormia. Vi que seu coração estava um pouco letárgico, então olhei as medicações, medi a pressão e comecei com a medicação. Eles disseram que ela vomitou muito, sua boca estava esbranquiçada e ela estava apagada desde o baile. Mexeram nela, bateram, sacudiram... E nada.
— Estafa por droga. — Comentei. — Usou demais. Não chega a ser uma overdose, mas foi quase. — Um deles arregalou os olhos.
— A culpa é do DJ. — Um deles disse. — Aquele i****a só fode com o psicológico dela. — Eles começaram a conversar. Ela estava em uma situação deplorável naquele sofá.
— Ei, vamos levá-la para um quarto. Preciso acomodar melhor... E eu preciso de algum lugar pra pendurar o soro. — Dois largaram as armas e começaram a fazer o que pedi.
Fomos ao segundo andar da casa. Abriram o quarto da moça, bem organizado, apenas a penteadeira bagunçada porque provavelmente tinha passado um bom tempo se arrumando para o baile. O rapaz que carregou a garota no colo a colocou na cama, com cuidado. E agora, eu tinha aonde pendurar o soro.
— Precisa de mais alguma coisa, Gringo?
— Um balde. Já já ela vai acordar e querer vomitar de novo.
— Certo.
Eles me trouxeram um balde. Mesmo estando no castelo do inimigo como um cavalo de Tróia, eu não consigo pensar na minha vingança. Não enquanto essa garota não estiver estável.
Depois que trouxeram o balde, posicionei ao lado da cama dela, o mais perto. Eu andava de um lado para o outro, incomodado. Pensava que talvez fosse a oportunidade de entender um pouco melhor a casa, como invadir... Pensei em matar o Montanha em algumas horas, quando chegasse. Mas aí, eu fui tirado de meus pensamentos por uma tosse.
A garota acordou, mas não o suficiente para se movimentar sozinha. Tossia, e começou a sentir ânsia de vômito.
Corri até ela do lado vazio da cama, segurei seu cabelo e virei vagarosamente seu corpo, a ajudando a colocar a cabeça na direção do balde. Ela vomitou, e não foi pouco.
Ofereci um pouco de água. Naquela correria toda, pensei ter visto uma mancha enorme em suas costas, mas não entendi o que era.
Duas horas se passaram. Ela acordou, dessa vez de verdade.
— Cadê o filho da p**a do DJ? — Disse, sonolenta.
— Não está aqui. Sou apenas o médico.
— Eu vou matar aquele traidor filho da puta... — Respirou fundo. Ela sentou na cama que antes estava deitada e prendeu o cabelo. Esse vestido...
Caminhei pelo quarto discretamente enquanto ela prendia o grande cabelo escuro. Fez um coque, e assim que eu estava vendo suas costas, reconheci.
Marcela.
Filha do dono do morro.
A garota que eu senti desejo ao ver dançando, com uma tatuagem de leão nas costas, que mexeu com alguma coisa dentro de mim. E ela é filha do homem que eu quero matar.
— Quer conversar?
— Você é quem? Meu médico?
— Depois que entraram na minha casa e me arrastaram na base da porrada e do fuzil, acho que sim. — Ela riu.
— Exagerados. Estou exausta... — Ela se jogou de novo na cama. — Meu namorado é um merda. Por que sempre temos que escolher os piores? — Dei os ombros.
— Talvez você não esteja olha do direito por aí.
— Ele me traiu hoje com duas pessoas.
— Isso não é muito legal.
E foi aí que eu tive uma ideia que inicialmente pareceu ótima, mas depois, entendi que era uma merda. Não dá pra brincar com fogo sem ser queimado.
Marcela começou a desabafar e falar feito uma tagarela. Estava sob o efeito de muita droga misturada com remédio. Ela falava e apagava, falava e apagava, até que ficou um pouco mais estável e dormiu, agora do jeito certo.
Um dos homens de fuzil entrou e eu estava sentado em uma poltrona.
— Acabou? — Resmungou.
— Ela está estável.
— Então vamo vazar. — Neguei com a cabeça.
— Não é assim. Ela tem um soro que precisa continuar entrando nela.
— Ah...
— Quando estiver tudo certo, eu chamo vocês.
Minha paciente, filha do Montanha, a garota gostosa do baile que tem um relacionamento abusivo. A vítima perfeita para usar para me aproximar de todos. Marcela está doente da cabeça, ninguém usa drogas desse jeito. E pelo que eu vi dentro daquela caixa... Os remédios usados, todo o aparato médico... Parece que isso aconteceu não uma, mas algumas vezes.
Até onde vou ir para completar minha vingança?
— O que tá acontecendo? — Marcela acordou. Estava finalmente lúcida o suficiente.
— Oi, Marcela. — Eu sorri de forma simpática. — Meu nome é Thiago, mas todo mundo aqui tem me chamado de Gringo. Eu cuidei de você essa noite, porque aconteceu uma coisa com você...
— Overdose, eu sei.
— Quase isso. — Ela respirou fundo.
— Que droga... — Levantou da cama e passou a mão no próprio cabelo. — Eu preciso largar o DJ antes que eu morra.
— Quer conversar? — Falei como se não soubesse nada. Ela contou a história deles umas duas vezes essa noite.
— Não... Obrigada.
Comecei a ouvir uma confusão do lado de fora, aquilo começou a ficar assustador quando os gritos pararam de ser apenas gritos e tornaram-se em palavras.
— Eu vou entrar e acabou, p***a! Vai tomar no cu!
— Calma aí, DJ, a menina tá se recuperando! — Alguém gritou de volta.
— Sai da frente ou eu vou encher sua cara de bala!
Marcela correu até a porta e a abriu. Ele entrou direto, olhou para ela e para mim, e apontou a arma para mim.
— Quem é o filho da p**a? Trouxe um vagabundo pra casa, Marcela?
— O cara não é vagabundo, seu i****a. É um médico. Eu quase tive overdose graças as suas palhaçadas. — Reclamou.
— Guria chata.
— Você me traiu com a minha melhor amiga! Você acha que isso não é palhaçada?
Foi aí que ele agarrou a garota pelo pescoço, empurrou ela na parede e sacou a arma da cintura.
— Tá me chamando de palhaço, bonitinha? — Ele disse. Ela estava menos assustada que eu.
— Se a carapuça serviu, bonitinho, não tenho culpa.
Ele engatilhou a arma.
Eu fiquei puto.
Desde sempre, meu pai me obrigou a fazer todo tipo de luta que você pode imaginar. E foi aí que usei um dos golpes para desarmar o tal do DJ, e apontar a arma pra ele.
— Chega. Cai fora. — Falei, apontando a arma dele que eu havia tirado, bem pra fuça dele.
— Tu assinou tua sentença de morte. — Disse, olhando pra mim.
— Assinou o c*****o. O Gringo é meu protegido a partir de hoje. Porque ele me salvou de uma overdose e de um babaca como você, que queria atirar na minha cara.
— Você é uma p**a, Marcela. Tá dando sua b****a pra esse filhinho de papai, não tá? Como você tá se sentindo sentando na rola de um granfino?
Marcela ficou p**a. Deu um tapa forte na cara dele.
— Seguranças! — Eles abriram a porta. — Levem esse amaldiçoado para fora da minha casa.
— Eu não saio sem minha arma.
Tirei todas as balas da arma e entreguei para ele.
— Toda sua. Mas as balas são minhas de recordação desse momento lindo.— Sorri.
Quando ele saiu do quarto e ela fechou a porta, correu para a cama, chorando.
Eu sabia que o motivo era ele. Mas também sabia que... Se ele pedisse, ela voltaria.