04 - Baile de Favela

1712 Words
THIAGO NARRANDO Dia chato no UPA. Preciso arrumar algo pra fazer, ou vou enlouquecer nesse lugar. Quando estava no hospital argentino, nunca havia tédio. Minhas três enfermeiras favoritas estavam sempre dispostas a me deixar um pouco mais alegre. Eu estava na minha sala, com a cabeça deitada na mesa. Não havia ninguém para ser atendido, acho que é culpa do horário. Duas da tarde em um sábado. Ouvi batidas na porta do meu consultório, até achei que seria um paciente, mas era Branca. — Oi, Gringo! — Ela disse, animada. — Meu plantão acaba em algumas horas. — Eu suspirei. — O meu também. Não aguento mais, esse dia está uma chatice. — Ela entrou na sala e fechou a porta. — Gringo, tem baile funk hoje. Se você quiser, eu posso te levar. Minha namorada vai, eu também. — Ela mordeu o lábio inferior. — Seria ótimo se você fosse. — Qual o motivo de ser ótimo, posso saber? — Eu sorri de forma maliciosa. Conheço esse olhar com que ela está me olhando. — Tem muita gente querendo você, Gringo. Eu e minha namorada queremos ser as primeiras. — Ela piscou um dos olhos para mim. — Se você quiser, vá ao baile hoje. Se quiser, eu levo você também... Você quem sabe. Uau. Isso realmente me tiraria do tédio. — Tem dúvidas que eu vou, Branca? — Meu sorriso lateral entregava minhas intenções. Branca parecia satisfeita. — Usa bala? — Perguntou. — Por favor, não me denuncia. — Riu. — Se for de graça, até injeção na testa. — Brinquei. — Vou levar uma pra você. — Bom, eu te encontro lá. Preciso resolver uma coisa em casa. — Ela concordou. — Te espero no camarote. Vou deixar seu nome na lista. Minha melhor amiga sempre dá camarote pra gente. — Isso é ótimo. — Bom, te espero. Eu tô ansioso pra c*****o. Cheguei aqui e não fiz nada interessante, apenas investiguei o morro, fiz amizades... Estou apenas me enturmando para não ser descoberto. Fui pra casa, tomei banho, arrumei meu cabelo, coloquei uma corrente de cruz, uma camiseta com gola V e uma calça levemente rasgada. Coloquei um bom perfume e me senti pronto. Eu já sabia aonde os bailes aconteciam, mandei mensagem para Branca, que me encontraria lá. Cheguei, o pancadão tocava na parede de som, tudo era exatamente como meu pai descrevia. Mulheres lindas, roupas curtas. Homens bem arrumados, música alta, bebida, droga, muito beijo na boca... — Gringo! — Ouvi alguém me chamando bem de perto. Olhei e era Branca, com uma moça de cabelo loiro e longo, as duas estavam de vestido curto e colado, um de cada cor. Salto alto, perfumes caros, um mar de sensações que não sei descrever. — E aí! — Falei. A loira segurava a mão de Branca e agora, segurava minha mão. Eu e Branca nos entreolhamos e literalmente fomos arrastados até a parte "VIP" do baile. Quando chegamos ali, Branca me agarrou e me beijou. Eu levei as duas mãos até a cintura dela e retribui, enquanto a garota loira beijava o pescoço dela, posicionada atrás dela. Eu abri meus olhos e vi a garota loira puxando minhas mãos do corpo de Branca para o corpo dela, especificamente para a parte dos s***s. Branca parou de me beijar. A loira passou para frente, e me beijou também. Com a loira, puxei o cabelo. Vi que ela não era nenhum pouco delicada, então aproveitei. Um corpo lindo, um beijo muito bom. Quando terminamos o beijo, ela olhou em meus olhos e tirou um pequeno saquinho do meio do decote. Haviam algumas balinhas, uma delas, ela pegou e colocou na própria boca. Deu uma para Branca, e a última, colocou na minha boca. Eu acho que depois dessa, eu tô enturmado de verdade. Comecei a dançar ao som da música, fechei meus olhos, deixei a música me levar. A batida do funk é realmente uma coisa louca, te faz ir bem longe com a mente. Não sei quanto tempo passou, mas sei que foi bastante. Quando abri os olhos, vi uma garota morena de costas, um vestido rosa curto, as costas completamente expostas, ela estava descendo até o chão. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Estava com uma garrafa de Red Label na mão, e rebolava, intercalando a dança com goles na bebida. Seu cabelo estava preso em um coque, que aparentemente ela fez por estar com calor. Ela tinha uma tatuagem de leão nas costas. Uma tatuagem grande, não é qualquer mulher que aguenta uma dessa. Começou a tocar uma música chamada "maldita perigosa", e aí, o DJ pegou o microfone. — Música especial pra Marcela, homenagem sincera, morô? — Disse, apontou para a garota de tatuagem de leão e largou o microfone. Ela levantou os braços, com a garrafa para o alto, e soltou o cabelo com a mão livre. Longo, preto e liso. Voltou a rebolar, e eu apenas a observava. — Gringo, você tá bem? — Senti um empurrão. Eu saí do transe de olhar a tal da Marcela. — Eu tô. Quem é aquela? — Apontei para a garota. — Ih... Marcela é perigo. Ela namora com o DJ, os dois tão sempre indo e vindo. Ela é louca. — Branca disse. — Tão falando da Má? — Ela concordou. — O que tem de linda, tem de maluca. Cuidado com ela. E ah, o bonitão ali também é perigoso. — Disse, apontando para o DJ. — Tá vendo a arma na cintura? Cargo importante no tráfico. Só gente muito f**a pode trazer arma pro baile, sacou? — Ah. Entendi. — Desencana. E aí, vai querer ir pra nossa casa? — A loira perguntou. — Por que não? — Sorri de forma maliciosa e nós três saímos do baile. Subimos umas três ruas, rindo de qualquer coisa que passava, e nós sabíamos o motivo disso: As balas. Quando entramos na casa de Branca, ela começou a se sentir m*l. — Eu não tô legal. — Confirmou. Estava mais branca do que o normal, e isso me deixou um pouco assustado. Estou um pouco alterado, mas sei reconhecer quando algo não vai bem. — Ô loira, me ajuda aqui. — Falei, segurando Branca que estava quase caindo. — Arruma o sofá, ela vai desmaiar. Não deu outra. Ela desmaiou. — Meu Deus, p***a! O que c*****o aconteceu? — Eu, com adrenalina no sangue, peguei Branca no colo e a deitei no sofá. — Sabe se ela comeu algo? — Perguntei. — Não que eu saiba. A Branca tem um problema com comida. — Eu respirei fundo. — Segura a cabeça dela. Se ela vomitar, vira o rosto dela pro chão. Ela tá passando m*l por causa da bala. — A loira parecia chateada. — De novo, Branca? — Disse, olhando para a namorada. — Ela já passou m*l com essa bagaça e você deu de novo, loira? — Perguntei. Ela fez um biquinho. — Qual é, eu achei que ela tivesse passado m*l por ter sido a primeira vez... Como eu ia saber? — Disse, chorosa. — Ela tem algum tipo de primeiros socorros? — Tem. Lá no banheiro. Branca é enfermeira, e por sorte tem algumas agulhas e soro para injetar. Eu a deixei no soro, para que ela voltasse mais rápido. Ela vomitou um monte, em um balde que peguei para ela. — Ainda bem que você está aqui. — A loira disse. — Eu não vim aqui pra isso. — Resmunguei. Maldito juramento de Hipócrates. Terminando o atendimento precário a Branca, fui embora para a minha casa. Eu pensei que ganharia um ménage, e ganhei a Branca quase morrendo por causa de uma bala. Quando cheguei em casa, deitei, ainda um pouco afetado pela droga, mas completamente lúcido. Olhei para o teto, e ele parecia se mexer um pouco. Parecia se mexer como o corpo da tal da Marcela. p***a, que mulher é aquela? Eu queria ter visto o rosto dela direito, mas não consegui. Aquela tatuagem me deixou intrigado. De repente, ouvi batidas enormes na porta da minha casa. Eu me levantei e desci as escadas do sobrado, quando cheguei no andar de baixo, uns três caras com fuzil estavam ali. Senti medo. Mas eu não fiz nada, então apesar da adrenalina, tentei me manter calmo. — Que isso? — Perguntei. — Gringo, não é? — Um deles disse. — Sim. — Ouvimos falar que você é o melhor da UBS. — Eu sorri de leve. — Poxa, obrigado. Que legal, invadiram minha casa com um monte de armas para elogiar meu trabalho... Que bosta. — Você vem com a gente. — Um deles agarrou a minha camiseta, e saiu me arrastando. — Posso saber onde caralhos eu estou indo? — Questionei. — Está indo atender a princesinha do morro no castelo, irmão. Ela tá com overdose. Segunda overdose da noite. Mas que p***a! — Tem como traduzir? Eu não acostumei com as palavras daqui ainda, estou me esforçando. — Me jogaram dentro do carro, um entrou de cada lado, fiquei entre dois caras de fuzil, enquanto o outro entrou no banco do passageiro. Já havia um motorista ali, então estávamos em cinco. — A filha do dono do morro bebeu demais e usou umas drogas... A gente não pode tratar ela com qualquer médico, irmão. Ela é importante demais. — E por que me escolheram? — Eles riram. — Porque você é um merda que não sabe nada do morro. Não te interessa matar a princesa, mané. — Agora eu que estava rindo, mas por dentro. — Faz sentido. — Menti na cara dura. — A Índia é mó gostosa. — O motorista disse. O cara ao lado dele, com um fuzil na mão, deu um tapa na cabeça dele. — Se liga, respeita a princesa, c*****o. — Mas ela é, p***a. — Riu. — Ela que eu vou tratar? — Perguntei. — Sim. Vulgo Índia. Nem pense em olhar pra ela com outros olhos, ou vão arrancar suas bolas. Eu não acredito em três coisas: A primeira, eu vou entrar no "castelo". A segunda, eu vou tratar a p***a da filha do Montanha. E a terceira... Eles não fazem ideia mesmo de quem eu sou. Não fazem ideia.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD