THIAGO NARRANDO
Brasil, favela Santa Cruz.
Cheguei ao Brasil com a cara e coragem. Eu não conheço ninguém aqui, mas vim, no intuito de honrar o nome do meu pai e ferrar com esse tal de Montanha.
Aluguei um carro e coloquei as poucas coisas que trouxe: Meu material médico e uma muda de roupa, que estava no hospital.
Cheguei ao lado da favela. Eu sei como as coisas funcionam por aqui, você não pode entrar sem autorização, tem homens de fuzil vigiando tudo... Mas a comunidade no pé do morro tem acesso livre, e meu novo lar será ali. Procurei em um site de aluguel um apartamento de frente para o morro, bem simples.
Meu problema maior não era o apartamento, isso eu consegui resolver fácil... Nem ao menos as roupas, pois consegui comprar algumas em uma loja de departamento. Meu problema era arrumar um jeito de subir no morro, e a oportunidade perfeita veio duas semanas depois, quando surgiu uma vaga na UBS de lá. De acordo com meu pai, a UBS de dentro do morro é quase um hospital que atende tudo quanto é caso. Vem gente baleada, parto, agressão física e tudo quanto é coisa. A gente tem que estar preparado para tudo.
Hoje é meu primeiro dia na UBS. Eu vou subir no morro Santa Cruz, que ganhou esse nome por causa da cidade que nasci. Meu pai quis me fazer uma homenagem.
— Que merda um mauricinho como você vai fazer no morro, mano? — O rapaz, segurando um fuzil e me olhando feio disse.
— Eu sou médico. Vou começar a atender hoje. — Ele me ouviu mas me olhou de forma esquisita. Talvez seja o meu sotaque espanhol.
— Tu é gringo, é? — Questionou.
— Vim da Argentina. — Ele balançou a cabeça. Olhava para mim, ainda desconfiado.
— Me mostra os papel aí que fala que tu é médico da UBS. — Eu suspirei e peguei no porta-luvas. Estiquei a mão e ele pegou, olhando de forma atenta para aquilo. Me devolveu e pegou o rádio.
— Vai subir um gringo aí. É funcionário novo da UBS. Arranja um adesivo pro carro desse gringo que eu não vou ficar barrando ele todo dia não, pô. — Disse. Não ouvi a resposta. — Pode subir.
Eu subi no morro, com o GPS. Quando cheguei na rua da UBS, um homem também com fuzil na mão se aproximou, apontando para mim. Abaixei o vidro de novo. É, aqui em cima está mais complicado do que meu pai falava.
— Quem é você, posso saber? — O homem disse.
— Sou o médico novo da UBS. — Ele balançou a cabeça.
— Tu que é o gringo então?
— Parece que sim. O outro rapaz me chamou disso também. — O rapaz tirou um adesivo do bolso, e colou no cantinho do meu parabrisa.
— Agora tu pode entrar e sair do morro de boa. Funcionário da UBS a gente respeita pra c*****o, morô? Não seja cuzão e tu tá feito aqui dentro. E outra coisa, tu que não deixe os parceiro morrer de propósito, que morre também.
— Eu fiz o juramento de Hipócrates. — Ele me olhou como se eu tivesse o insultado.
— O que é essa parada aí, filhão?
— Significa que eu vou dar o meu melhor pra salvar qualquer um que entre por aquela porta. — Apontei para a porta da UBS.
— Ótimo. Tenha um bom dia, Gringo.
Gringo. Parece que esse vai ser meu vulgo aqui dentro. Eu falo português por causa do meu pai, mas não tem como tirar o sotaque.
Entrei na UBS e fui bem recebido, me mostraram toda a estrutura, pelo que fiquei sabendo, os traficantes investiram na UBS porque não querem sair do morro para serem atendidos.
— Então... Você é o Gringo? — Uma enfermeira se aproximou de mim, com um sorrisinho nos lábios.
— Tá todo mundo me chamando assim, não está? — Ela riu.
— Está. Meu nome é Vanessa. — Ela esticou a mão e nos cumprimentamos.
Vanessa tem o cabelo preto, liso e curto, e a pele branca. Me lembrou a branca de neve.
— Thiago. Mas... Pode me chamar de Gringo. Pelo jeito, vai ser meu nome aqui.
— Vai. Aqui a gente se trata por vulgo. Difícil alguém não ter.
— Eu aposto que o seu é Branca de Neve. — Brinquei.
— Só Branca. Mas por causa da Branca de Neve mesmo. — Ela riu novamente.
— Bom, eu preciso ir para o consultório.
Passei o dia atendendo pacientes. Alguns com situações fáceis de resolver, outros nem tanto. É complicado não poder ajudar, mas às vezes não tem jeito. A gente dá o nosso melhor, de qualquer forma.
No final do meu expediente, muito cansativo por sinal, eu voltei a falar com Branca.
— Pode me ajudar com uma coisa?
— Claro, como posso ajudar?
— Queria alugar uma casa aqui por perto da UBS. — Ela ergueu as sobrancelhas.
— Nossa. É difícil quem não é daqui querer morar aqui.
— Eu não ligo. Já morei em lugares parecidos com esse. — Menti. Jamais estive em uma favela, apesar de ter ouvido milhares de histórias durante minha infância e adolescência.
— Ah, entendi. Bom, tem um sobrado aqui perto, de uma amiga minha. Não é muito caro, vou te passar o endereço. Me passa seu número?
Eu passei meu número para Branca, e ela me mandou o endereço.
Tudo foi muito rápido. Em três semanas, eu estava instalado no morro, já conhecia bastante gente e era uma pessoa querida ali.
Mas eu ainda não conhecia o Montanha. E eu queria conhecer esse cara o mais rápido possível, só não sabia como nem quando. Eu sabia que era uma questão de tempo... Mas quanto tempo mais demoraria?