ARCANJOS 2
CAPÍTULO 2
ALICE PEROZZI
Acordo super empolgada para mais um dia de trabalho. Tem sido assim desde que comecei trabalhar para máfia Mariano.
Aceitar o convite da Marcela, amiga da minha mãe, foi a melhor escolha que eu fiz. Ainda bem que não tive dúvidas e nem quis pensar demais, aceitei de imediato. Porque meu noivo, quando soube, odiou a ideia e até tentou me fazer desistir. Tudo porque ele acha que, como herdeira, eu deveria continuar trabalhando no hospital da minha família ao lado dele.
Porém, ele não enxerga que tudo que eu não queria era continuar limitada ao hospital particular da minha família, vendo meus pacientes morrerem por não terem dinheiro suficiente para pagar todo tratamento.
Na máfia, seja no hospital deles ou nas ONGs, posso exercer a medicina sem limitações. Lá, tudo que prescrevo é feito de imediato, sem consultar custos, e assim posso salvar praticamente 100% dos pacientes que atendo.
E essa é a minha maior felicidade.
Levanto e sigo para o banho. Penso sobre minha vida.
Sou uma privilegiada. Nasci em uma das famílias mais ricas da Itália, tenho uma mãe amorosa. Meu pai já faleceu. Ele era maravilhoso e é o meu exemplo. Sou filha única de filhos únicos, então não tenho muitos parentes. Só o meu avô Humberto e minha mãe.
Meu nonno (avô), é o fundador das industrias cosméticas Perozzi e da rede de hospitais Perozzi. Minha mãe, sua única filha, administra principalmente as indústrias. Os hospitais têm um conselho, e meu avô é o presidente.
Sei que muitos acreditam que sou uma boba idealista e que sair do hospital foi um capricho, já que sou a herdeira e lá era uma médica pediatra reconhecida.
Mas a verdade é que lá eu era apenas uma funcionária. Não podia atender de graça e fazer o que fosse preciso pelos pacientes, ou o conselho me afastaria, já que eles, em sua maioria, visam apenas o lucro.
Algumas vezes usei todo meu salário e ainda meu próprio dinheiro para arcar com o tratamento de alguns pacientes críticos.
Enfim, estou ótima onde estou. Realizada como sempre sonhei, desde que decidi ser médica.
Termino de me arrumar e desço para tomar café da manhã com minha mãe.
— Bom dia, mãe! — Falo sorrindo.
— Bom dia, minha filha! Acordou feliz?!
— Sim, mãe! Eu estou realizada. Esses meses trabalhando na máfia têm sido tão gratificante e realizadores que estou muito feliz.
— E não te incomoda quase não veja o seu noivo? — Ela bebe seu café e me olha com uma sobrancelha erguida.
— Não vou mentir, mãe! Não! — Faço uma expressão de frustrada. — Sou uma pessoa horrível por isso? — Ela gargalha.
— Oh, meu amor! Acho que não. Só deve pensar bem. O Bruno é um excelente partido. Lindo, inteligente... — Olho para ela como se tentasse descobrir onde ela realmente quer chegar.
— Estão juntos há anos, e você me parecia tão apaixonada por ele. O que aconteceu?
— Nada, mãe! — Falo nervosa, e ela semicerra os olhos para mim. — Só não sinto falta dele como sei que uma noiva deveria sentir do seu noivo. Entende?
— Apenas pouco mais de seis meses e já existe todo esse distanciamento entre vocês? Não me responda, Alice. Essa é uma pergunta que deve responder para você mesma. E saiba que sempre vou te apoiar na vida, em cada decisão que tomar. — Sorrio e levanto para abraçar minha mãe.
— Te amo, mãe!
— Sua felicidade é o que importa para mim e para meu pai. Seu avô faz tudo por você, até suportar o Bruno no conselho e como um dos diretores no hospital. — Gargalhamos. — Mesmo que esteja só esperando a oportunidade para demiti-lo.
...........
Saio de casa dirigindo o meu carro. Não aceitei ter um soldado dirigindo para mim. Eles podem me acompanhar de dentro do carro deles.
Por ser quem sou, cresci com seguranças particulares, então não me incomoda a segurança que os Mariano determinaram para mim. E sei que é preciso. Afinal, eu cuido dos herdeiros da máfia e tenho contato direto com os pais, que incluem apenas o Dom, a Dama, os Consiglieres e suas esposas, isso para não mencionar os avós.
...........
Chego à sede da máfia e trabalho tranquilamente. As horas aqui passam rápido, porque o trabalho é o que amo fazer e da forma que gosto de fazer. Pensando no melhor para as crianças.
Encontro a Marcela no corredor e conversamos um pouco.
— Ama mesmo o que faz, não é Alice?
— Muito! — Gargalhamos.
— Até os bebês percebem isso. Param de chorar logo que você os toca.
— Meu pai sempre me disse que nasci para ser médica pediatra.
— E ele tinha razão. Seu pai sempre foi muito bom em ler as pessoas. Inclusive, se eu tivesse ouvido alguns conselhos dele quando tinha a sua idade, teria sido mais feliz.
— Jura? Tem que me contar mais sobre isso algum dia. Mas agora me fale sobre os gêmeos da Isabelli.
— Estão ótimos. Acredito que levarão mais algumas semanas para nascer. Parece que será um caso atípico de gestação gemelar até as 40 semanas.
— Ótimo! Tenho que ir.
Ela assente e me abraça.
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Já à noite, Bruno me manda mensagem avisando que está voltando do congresso em Portugal hoje e me convida para dormir em seu apartamento.
Não me sinto à vontade em aceitar o convite. Estou tentando conversar com ele sobre nós há semanas, e ele sempre foge. Mas, para dormir juntos e transarmos, ele está disposto.
Ele foi meu primeiro namorado sério. Durante o curso de medicina tive alguns casinhos. Não queria grandes distrações.
Nos conhecemos no meu último ano de faculdade. Ele estava fazendo uma pós-graduação no mesmo campus que estudava e, depois que começamos a namorar, ele começou a trabalhar no hospital da minha família. Eu pedi ao meu avô. Bruno disse que era seu sonho profissional.
Quando nos conhecemos, ele trabalhava em uma clínica particular. E trabalhar em um grande hospital como o Perozzi seria um divisor de águas em sua carreira. Então quis fazer isso por ele. Ajudar. Até porque o talento dele como médico é que o garantiria no hospital.
Com dois anos de trabalho, ele já havia se tornado médico supervisor. Não o ajudei diretamente nesse processo. Mas é claro que ser meu namorado abriu portas para ele. Muitos funcionários acreditam que ter a amizade dele lhes garante algo no hospital.
Acredito que isso também me motivou a deixar o hospital. Por mais que tentasse ser só mais uma das médicas trabalhando ali, todos colocavam um alvo enorme sobre mim que dizia “A herdeira”.
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Termino os atendimentos e já anoiteceu.
Arrumo minhas coisas e olho pela janela da minha sala.
— Lua cheia! Que linda noite.
Saio da minha sala e me despeço das enfermeiras e recepcionistas.
— Já sabem. Me liguem a qualquer hora.
— Sim, doutora. — Elas respondem juntas e depois sorriem.
Chego até meu carro no estacionamento e só então eu olho minhas mensagens no celular.
Várias mensagens do Bruno. As últimas revelando a insatisfação dele com meu silêncio.
Decido responder.
Mensagem em áudio para Bruno:
“Estou saindo agora depois de um plantão intenso. Estou muito cansada. Podemos nos ver amanhã?”
Segundos depois ele responde:
“Alice! Está chateada comigo? Quero te ver. Não está com saudade do seu noivo? Passei dias longe e é essa a recepção que me dá?”
“Bruno! Sabe que não é isso.”
“Amor! Tudo bem! Mas vou te fazer uma surpresa!”
Me sinto confusa ao ouvi-lo me chamar de amor. E preciso admitir que também me perguntei por que não estou sentindo saudades dele.
Sempre fui muito apegada ao Bruno. No início do nosso namoro quase não desgrudávamos. Mesmo nos nossos plantões médicos, encontrávamos um tempinho para ficar juntos, trocar carinhos e beijos, ou simplesmente fazer uma refeição juntos.
Mas isso foi a mais de quatro anos. E até então eu não tinha notado que isso parece que foi em outra vida.
— Alice! Alice! O que está acontecendo com você?
Vejo vários carros saindo da sede da máfia, não sei se é o Dom ou seus irmãos, mas com certeza é um deles, ou mesmo os três. Devido ao número de carros que deixam o local.
Não sei porque me lembro dos Arcanjos. Mas especificamente do Elias. Ele trata a esposa, Isabelli, com tanto amor, carinho e dedicação. Que as enfermeiras chegam a suspirar, desejando viver um relacionamento assim. Eu também já pensei assim. Muitas vezes. Quando conheci o Valentim e a Alessia, logo após o nascimento da pequena Annaluisa, fiquei impactada com tamanha cumplicidade do casal e até mesmo devoção. E foi assim também com o Dom Lorenzo e a Dama Beatrice, com o Consigliere Hugo Raffael e esposa Bianca, sem falar no Hugo Mariano e Marcela.
Uma vez ele veio buscá-la no hospital para sairem para jantar, e todos que viram a forma romântica como ele se portou chegaram a suspirar. Teve buquê de rosas vermelhas e até um beijo apaixonado.
A enfermeira-chefe da pediatria até me disse:
“Que mulher não sonha em viver um amor assim?!
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Chego em casa e me despeço com um aceno dos soldados. Não sei o que eles fazem depois que entro, mas desconfio que eles fiquem por perto.
Moro na área mais nobre de Roma, mas não me importo muito com luxo. Gosto do conforto e da segurança, mas a riqueza não me define.
Sou uma mulher calma, dedicada, carinhosa, superotimista, que ama viver e ajudar a todos que puder.
Entro em casa e chamo pela minha mãe. Assim que coloco as chaves no lugar de sempre, me viro e vejo tudo muito iluminado.
— Mãe! — Falo meu apreensiva.
— Aqui na sala Alice! — Ela sorri, e me aproximo rápido.
— Bruuuno?!
— Oi, Amor! Surpresa! Entendi que estava cansada para ir me ver e decidir vir te ver. E jantar com vocês, é claro.
Ele e minha mãe sorriem, e eu fico parada, meio sem reação. Principalmente por não está sentindo nada do que sei que, como noiva deveria estar sentindo.
Ele se aproxima e me abraça.
— Não gostou de me ver, Alice? — Ele me olha avaliando minhas reações.
Sorrio para ele sem saber o que dizer. Ele toca meu rosto e me beija.
Bruno tenta aprofundar o beijo, mas me afasto e digo:
— Acabei de sair do hospital. Preciso de um banho. Já volto para jantar. E que bom que está aqui. Quero que me conte como foi a viagem.
— Claro, amor! Contarei tudo. — Ele segura minha mão e acaricia. — Não demora.
Sei que ele percebeu que estou sem a aliança. Nas primeiras vezes que isso aconteceu, ele me questionou porque não estava usando. Expliquei que era por questão de segurança e também o óbvio: como médicos, não é indicado o uso de acessórios nas mãos.
Sigo para meu quarto e sinto o olhar de Bruno sobre mim.
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Durante a ducha morna, penso no motivo que está me deixando assim, fria em relação ao Bruno.
Já me indaguei se era a rotina do longo relacionamento, se era a falta de tempo de ambos para estarmos juntos, se o sentimento acabou, se nos tornamos apenas amigos e não percebemos, ou mesmo se eu...
— Não! Nada disso, Alice. Você está cansada. É só isso.
Namoro o Bruno a quase cinco anos. Estou noiva dele. Aceitei me casar com ele. Temos planos.
Na verdade, o Bruno me pediu em casamento e decidimos casar daqui a dez meses. Mas não conversamos mais sobre o nosso casamento. Na época, pouco mais de um ano pareceu um tempo hábil para organizar tudo. E até seria, se ambos estivéssemos empenhados nesse objetivo. Mas apenas o Bruno está envolvido com a organização. Eu apenas aprovo o que ele me mostra e conta.
O que é muito estranho. Uma noiva que fica afastada da própria organização do seu casamento. Nem o vestido de noiva eu escolhi ainda.