Alice Perozzi - Sorriso contagiante.

1971 Words
ARCANJOS 2 CAPÍTULO 3 ALICE PEROZZI Saio do banho e visto um moletom bem confortável, deixando claro para o Bruno que tudo o que quero hoje à noite é dormir. Seco meus cabelos e prendo em um coque. Coloco um pouco de perfume e desço para sala de jantar levando apenas meu celular. Ouço Bruno conversando com minha mãe alegremente. Entro, e ele se levanta, anda até mim, me abraça, segurando minha cintura, e cheira meu pescoço. Fico envergonhada porque não estamos sozinhos e o afasto. Sentamos, e Bruno continua contando sobre o congresso em Portugal. — Sabe que a Alice adora salames de chocolate. E os portugueses são os melhores. Não aproveitou para trazer alguns para ela? Olho para minha mãe sem acreditar que ela falou aquilo. Bruno segura minha mão e diz, sem graça: — Desculpe, Alice. Eu estava tão concentrado nas palestras e na troca de conhecimentos que me esqueci completamente. Comprei um presente para você, mas não trouxe porque nem tive tempo de desfazer a mala. Só queria te ver. Ele acaricia meu rosto. — Bruno, está tudo bem. Sabe que não precisa. Mãe! Por que falou isso? Não quero que o Bruno se sinta na obrigação de me presentear. — Filha, não faça essa cara de desapontamento para mim. Só falei porque você realmente adora essa iguaria. E porque me lembrei que seu pai sempre me trazia presentes quando viajava, principalmente aquilo que sabia que eu gostava do lugar em que esteve. — Desculpe, sogra! Realmente foi uma falha minha. Me perdoe, Alice. Mas realmente não tive tempo. — Sorrio para ele, constrangida com o clima que se instaurou. Meu celular vibra com as mensagens que recebo, e agradeço pela distração. Olho as mensagens e sorrio. — Você fica mesmo disponível 24 horas para eles? Olho para o Bruno e depois para minha mãe, tentando entender o que ele quer dizer. — Esses mafiosos, Alice. Sabe? Seu trabalho. — Estou disponível para as crianças e os bebês. Que são meus pacientes. Assim como era no hospital do meu avô. — Seu hospital, Alice. Bruno me corrige, e balanço a cabeça em negação. — Meu avô ainda é o dono de tudo, Bruno. E ele está ótimo. Espero que possa ficar à frente de tudo por longos anos. E depois será a mamãe que herdará o hospital. Eu só quero continuar a ser médica e cuidar das crianças que atendo. — Claro, amor! Pretende continuar trabalhando para máfia depois que casarmos? — Olho para ele, querendo entender de onde ele tirou essa dúvida estúpida. — Sim! Óbvio! A não ser que o hospital Pirozzi se torne uma organização sem fins lucrativos e possa atender livremente e de graça, não abandonarei meu emprego. — Sabe que isso é loucura, Alice?! Pode se machucar. Estando no meio desses... Eles são criminosos cruéis. E eu nem poderei me aproximar de você lá. Nem sei onde fica esse hospital. Não sei onde você está quando está trabalhando. Sempre fui contra você trabalhar para máfia por isso. Era tão mais fácil te ver e te proteger quando você trabalhava no hospital Perozzi. Ele segura minha mão e acaricia. E penso que seguir com esse noivado é um erro. — Mas essa escolha nunca foi sua. Não precisa me proteger. Nós nos encaramos, e minha mãe se levanta. — Mãe? Vamos jantar! — Alice, meu amor. Acho que vocês precisam conversar, e vou aproveitar para conversar um pouco com a Marta. Olho para o Bruno com raiva. Minha mãe sorri e se afasta. Marta é nossa governanta, por assim dizer. Ela cuida de tudo praticamente nesta. — Bruno! Precisamos conversar. — Falo séria, e ele sorri. — Tem que ser agora? Antes que responda, ele tenta se aproximar para me beijar. Recuo, e ele me encara. — Alice? O que está acontecendo com você? Ele tenta se aproximar novamente, e não permito. — Me desculpe pelo que falei. Eu só não quero te perder. — Ergo uma sobrancelha. — Quero você pra sempre. — Bruno, sobre isso... — Ele coloca o dedo nos meus lábios. — Nós realmente precisamos conversar. — Conversamos depois sobre nós. O que acha de pularmos o jantar e irmos para o seu quarto? Estou cheio de saudades de você! — Não! Você precisa me ouvir, Bruno. Tenho algo importante para conversar com você! E amanhã trabalho cedo. E você também. — Sério? Ele parece irritado. — Quer que eu vá embora, Alice? — Ele segura meu rosto com cuidado e me encara. — Fala, amor! Não quer ficar comigo? Meu celular toca, e engulo a saliva antes de pegá-lo e ver que é do hospital da máfia. Porque a resposta para pergunta dele é um SIM. Claro e objetivo. — Preciso atender. — Ele assente e começa a se servir do jantar. Levanto e vou para sala de estar. Converso com a médica da equipe da noite e ajudo com algumas questões sobre alguns pacientes que estão internados. Não percebo o tempo passar até o Bruno chegar à sala e tentar beijar minha boca novamente. Desvio o rosto, e ele diz. — Tenho que ir! Já que não quer que durma aqui e nem minha companhia, pelo que percebi. — Ele sorri e pisca para mim e, antes que diga algo, se afasta. — Só um minuto e lhe retorno à ligação. Ando apressada até a porta, e Bruno já está saindo da mansão. Quando vou falar com ele, percebo que ele já está falando ao celular e sorrindo. — Sei bem onde é! — Ele diz e só então me olha. Desliga o celular e anda até mim. — Te amo, Alice! Não esqueça disso e de tudo que vivemos todos esses anos que estamos juntos. Ele beija minha testa, e me sinto estranha por estar sendo tão fria e distante com ele. Afinal de contas ficamos juntos por bastante tempo. Mas meu corpo não reage mais da mesma forma ao toque dele. Ao sentimento que senti por ele por anos. E isso não aconteceu assim que comecei a trabalhar na máfia. Já vinha acontecendo aos poucos no último ano, e eu não percebi. — Descanse, e marcamos algo depois de amanhã. Já que estaremos de plantão amanhã, e o meu se estenderá pela noite. — Vamos marcar! Precisamos conversar. Ele assente, sorrindo, e vai embora. Volto para sala e me jogo no sofá. — O que está acontecendo comigo? Fecho os olhos, e vem a minha mente a imagem do Arcanjo Fausto. Sento assustada e fico olhando para o teto. — Filha? Alice! Onde está o Bruno? Já foi embora? — Apenas assinto. Ela senta ao meu lado e indaga: — O que está acontecendo, meu amor? Quer conversar? — Eu, eu... não sei, mãe. Parece que tudo mudou. Não é mais como antes. Não faz mais sentido. — Tudo? Ou apenas o seu sentimento pelo Bruno? — Arregalo os olhos. — Parece que a Marcela tinha razão. — Razão? Como assim? Sobre o que? Mãe! — Ela sorri. — Ela sempre disse que, quando uma mulher convive com os amores que existe na máfia Mariano, automaticamente passa a reconhecer o que não é amor de verdade. Olho para ela assustada, surpresa e incrédula. — Não deixe de jantar e nada de trabalhar pelo celular até tarde. Sabe que seu trabalho principal é os herdeiros Mariano. Precisa estar descansada caso haja qualquer emergência. Assinto nervosa, ainda ouvindo as palavras da minha mãe se repetindo na minha cabeça. “... Amor de verdade!” ...................................... Depois de retornar à ligação para médica de plantão, jantei e só consegui comer um pouco. O peso das palavras da minha mãe parecia fechar minha garganta. Avisei a Marta que já podia retirar a mesa e fui para meu quarto. Pensei por longos minutos e decidi ligar para o Bruno. Preciso resolver nossa situação. Ele não atendeu nenhuma das minhas quatro ligações, nem visualizou minhas mensagens. Achei estranho no princípio e depois imaginei que ele já tinha adormecido. Decido falar com ele pessoalmente depois de amanhã. Me preparo para dormir, e logo o cansaço me vence. .......................... Assim que acordei, olhei o celular e Bruno nem tinha visualizado as minhas mensagens. Tentei entender que ele provavelmente adormeceu cansado da viagem. Minha mãe saiu mais cedo para sede das indústrias Pirozzi. Tomo meu café e sigo para ONG da Valentina Mariano. Lá há sempre mais trabalho, porque atende ao público em geral carente. Já no hospital da máfia, o atendimento é apenas para filhos de membros e soldados. No meio da manhã, meu celular toca. É meu avô. Ainda bem que acabei um atendimento no exato momento e pude atender. Ligação do avô Humberto. — Alice, minha neta. Espero não estar atrapalhando sua manhã de folga. — Oi, vô! Saudades de você. Mas que história é essa de manhã de folga? Estou na ONG, trabalhando. — Sorrimos. — Acho que ouvi errado então ou me atrapalhei. — Com o que, vô? Pergunto, sem entender exatamente o que ele quer dizer. — Ouvi a assistente do Bruno dizendo que as consultas do período da manhã dele seriam remarcadas porque ele não viria. Estavam resolvendo questões pessoais. Logo achei que vocês estariam juntos. — Ah! Entendi, senhor Humberto. Mas não é o que pensou. Vi o Bruno ontem à noite lá em casa, mas depois que ele foi embora não nos falamos ainda. — Alice, me perdoe ligar quando você está trabalhando. Sabe que te amo e só quero o melhor para você. — Eu sei vô. Vou descobrir o que aconteceu. Beijos! Preciso atender os pacientes. — Excelente trabalho, minha neta. — Meu avô sorri no final, como se estivesse realizado. Volto a atender, mas, depois de dois pacientes, faço uma pausa e ligo para o Bruno. Ele viu minhas mensagens e respondeu carinhosamente que dormiu ontem devido ao cansaço. Chama, e ele não atende. Até que ligo novamente, e ele finalmente atende. Ligação: — Oi, Bruno! Já está no hospital? — Oi, amor! Já sim. Já passa das dez horas. Como você está? Ligou por algum motivo especial? Saudades do seu noivo?! — Bruno, meu avô estava querendo te ver. — Falo indo direto ao assunto. — Mas achou que você ainda não estivesse no hospital. Ainda bem que ele se confundiu. Vai falar com ele. — Alice, precisam de mim na emergência. Assim que eu for liberado, procuro seu avô. Tudo bem assim? — Sim! Bom trabalho. Bruno, porque se atrasou hoje? Nunca foi de se atrasar. — Acredito que foi cansaço acumulado. — Entendo. Tchau! Encerro a ligação e acho toda essa história estranha. ................ Na hora do meu almoço, saio para almoçar e aproveito para comprar algumas coisas em um centro comercial próximo à ONG Ducad. Lembro que minha mãe falou do salame de chocolate e decido procurar em uma loja de importados que tem no lugar. Estou próxima à vitrine quando ouço a vendedora e uma cliente falando sobre homens que estão no corredor. Olho para fora e logo reconheço os homens. São simplesmente os ARCANJOS. Olho para ninguém menos que o Fausto e Mário. Sim, eu sei quem são quase todos eles. Depois de meses trabalhando na máfia, já os reconheço. Vejo o Mário comentar algo com o Fausto e ele gargalha. Fico presa observando o seu sorriso e acabo sorrindo também. Não entendo o porquê da minha reação e logo desvio o olhar. Pago pelos produtos que escolhi e, quando saio da loja, olho em volta. Vejo os soldados que me acompanham conversando com o Fausto e fico intrigada. Ele vai embora sem nem olhar na minha direção. Às vezes acho que ele passou a me evitar nos últimos meses. A questão é: porque eu notei isso. Retorno para a ONG e trabalho por toda tarde.
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