O Corpo na Chuva
Autora: Nair Fagundes
Capítulo 1 – O Corpo na Chuva
A chuva caía sem parar sobre Santa Aurora, uma pequena cidade onde todos pareciam conhecer os segredos uns dos outros. As ruas estavam desertas, iluminadas apenas pelos postes antigos que piscavam sob o vento forte. O silêncio da madrugada foi interrompido quando Joaquim, o vigia noturno de um velho casarão abandonado, avistou algo caído próximo ao portão enferrujado.
Com passos cautelosos, ele se aproximou. Seu coração acelerou ao perceber que era o corpo de uma mulher. Ela vestia um elegante vestido vermelho, completamente encharcado pela chuva. Seus olhos permaneciam abertos, como se tivessem congelado no instante de um enorme susto. Em uma das mãos, ela segurava uma pequena chave enferrujada. Ao seu lado havia uma rosa n***a, intacta, apesar da tempestade.
Joaquim pegou o rádio e chamou a polícia.
Poucos minutos depois, sirenes cortaram o silêncio da cidade. A detetive Helena Duarte chegou acompanhada da equipe de perícia. Conhecida por sua inteligência e calma diante dos casos mais difíceis, ela observou cada detalhe antes mesmo que alguém dissesse qualquer palavra.
— Ninguém toca em nada — ordenou.
Enquanto os peritos fotografavam a cena, Helena caminhava lentamente ao redor do corpo. Não havia marcas de luta nem sinais de que o crime tivesse acontecido ali.
— Ela foi trazida para este lugar — concluiu.
O perito confirmou a suspeita ao encontrar marcas de pneus recentes na lama. Em seguida, entregou à detetive um colar de prata encontrado sob o vestido da vítima. No pingente havia apenas a letra "A" gravada.
Horas depois, a identificação revelou um fato impossível: a mulher era Amanda Vasconcelos, herdeira de uma das famílias mais influentes da cidade.
Helena franziu a testa.
— Isso não pode estar certo...
Amanda havia sido declarada morta três anos antes, em um acidente jamais totalmente esclarecido.
Enquanto todos tentavam entender aquele mistério, Helena percebeu uma figura observando a movimentação do outro lado da rua. Quando correu para alcançá-la, encontrou apenas pegadas desaparecendo na chuva.
Naquela noite, ela compreendeu que aquele crime escondia muito mais do que um simples assassinato. Alguém estava brincando com a verdade, e cada pista parecia conduzir a um passado que muitos desejavam manter enterrado.
Sem imaginar o perigo que corria, Helena recolheu a pequena chave encontrada na mão da vítima e a guardou cuidadosamente. De alguma forma, ela sentia que aquele objeto abriria não apenas uma porta, mas também o maior segredo da história de Santa Aurora.