Mundo Pegando Fogo

873 Words
CAYO Acordei com ela grudada em mim, aquele calor de pele macia que já devia ter virado vício. Ainda sonolento, me enfiei nela, e mano... essa patricinha é um negócio que não tem explicação. É quente, é molhada, e tão apertada que eu não sei como não durmo dentro dela todo santo dia. Ela tava toda desarrumada, o rosto inchado do sono, sem aquela maquiagem toda que ela usa pra enfrentar o mundo dos ricos. Tão linda que dava um aperto no peito. E a gente foi fazendo amor, aquela parada lenta e gostosa que não é só sexo, é outra coisa. É como se cada movimento fosse uma palavra que a gente tava escrevendo no corpo um do outro. E quando ela confessou que me amava, com a voz meio rouca de sono, eu quase perdi o controle todo. Quase chorei ali mesmo, dentro dela, que nem um moleque. Mas aí a p***a do celular dela começou a vibrar de novo. Já tinha vibrado a noite inteira, essa merda. E não foi que meu p*u amoleceu – até hoje tá duro que nem concreto pensando nela – mas foi nossa conexão que quebrou. Foi aquele momento perfeito que foi pro ralo. E junto veio o meu medo, aquele monstro frio que sempre mora aqui dentro. O medo de perder ela. O mundo de fora tava chamando. A realidade dela. Os carros importados, as mansões, o playboy engomadinho. Ela ia voltar pra aquela vida. Ia noivar, casar, ter os filhos que a gente um dia, nos nossos sonhos mais doidos, tinha planejado ter juntos. Saí de dentro dela, e foi como se tivesse arrancado um pedaço de mim. Fui pro banheiro e tranquei a porta. Aí eu chorei, mano. Chorei que nem um condenado. Esmurrei a parede de azulejos brancos, aquela p***a barata que eu mesmo coloquei. Vi o sangue escorrer da minha mão e não senti p***a nenhuma, porque a dor no peito era maior. É óbvio que ela vai escolher uma vida confortável. Quem c*****o ia escolher um ex-presidiário, motoboy, com um filho e uma oficina meia boca? Eu mudei, fiz um upgrade, sim. Tô limpo, trabalhando, não me meto mais em merda. Mas minha vida ainda é uma merda perto do que ela merece. Na mesinha de cabeceira, tão perto da minha cama, tão longe do meu alcance, estavam os brincos dela. Aquelas pedrinhas brilhantes que ela tirou antes de dormir. Aquilo ali deve valer o salário da minha vida inteira ralando. Eu nunca vou poder dar um negócio daqueles pra ela. Nunca. Do lado de fora, ouvi os passos dela. Leves, hesitantes. E a voz sussurrada. Tava falando com a mãe, com certeza. Quase saí correndo do banheiro, mas as lágrimas e o sangue ainda tavam escorrendo sem controle. Meu peito doía tanto que eu achava que ia ter um troço, a garganta tava fechada, engasgando com o choro que eu tentava engolir. Fiquei lá até me acalmar, até conseguir respirar de novo. Lavei o rosto, lavei a mão sangrando. Quando me senti um homem de novo – ou pelo menos uma versão menos quebrada de um –, enrolei a toalha na cintura e sai. Ela tava sentada na beirada da cama, o celular na mão, o olhar perdido. Não precisei perguntar, ela soltou... A mãe dela, o Humberto, e pelo que deu pra entender, até a polícia e imprensa tavam atrás dela. O mundo dela tava pegando fogo, e o meu junto. Não tive coragem de perguntar o que ela ia fazer. Porque no fundo, eu já sabia a resposta. Em vez disso, decidi que ia aproveitar cada segundo que me restasse com ela. Se era o fim, que fosse um fim digno da nossa história. Puxei ela pro colo. — Você não precisa se preocupar. A gente não tá fazendo nada de errado. Somos dois adultos, num lugar privado. Eles não podem te forçar a nada. — Vamo comer — eu disse, a voz ainda meio rouca. — Tô com fome. Ela olhou pra mim, e eu vi o alívio nos olhos dela. Ela também não queria falar sobre aquilo. Comprei comida no boteco da Dona Maria, já era hora do almoço. – coxinha, pastel, aquelas porcarias que a gente adora. Comemos na cama, rindo de nada, como se não tivesse um mundo desabando lá fora. Brinquei com ela, puxei ela pro colo, reacendi a paixão com beijos e carícias que tentavam dizer tudo que eu não conseguia falar. Mas à noite, o telefone tocou de novo. Era a Gabi, com Zyon chorando no fundo, pedindo pra dormir aqui. Minha garganta fechou de novo. Como dizer não pro meu filho? Mas como sair daqui e deixar ela sozinha, sabendo que quando eu voltasse, ela podia ter sumido? — Tá bom Gabi, pode deixar. — disse e desliguei. — Preciso buscar o Zyon — falei, evitando o olhar dela. Ela só assentiu, quieta. Saí de moto, o coração na boca. O medo de voltar e encontrar a casa vazia era tão grande que eu quase virava a moto de volta em cada curva. Cada minuto longe dela era uma eternidade. O mundo tava pegando fogo, e eu tava deixando o meu tesouro sozinho no meio das chamas.
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