ANALU
Enquanto o Cayo tomava banho, eu encarava o celular agora na minha mão.
Não consegui resistir por muito tempo. A ansiedade era uma cobra se enrolando no meu estômago.
Peguei o aparelho.
A tela estava um pesadelo.
Cento e tantas mensagens.
A maioria da minha mãe.
Algumas do meu pai, secas e formais.
📲 Pai: Analu, entre em contato imediatamente.
Outras de números desconhecidos que eu sabia serem da imprensa pelas perguntas diretas.
📲 Imprensa: Olá, Ana Luísa Bernardes. Pode nos dar uma exclusiva? Só queremos saber o motivo da senhora ter sumido, tem outro no seu caminho?
E Humberto.
Trinta e sete mensagens de Humberto.
A última:
📲 Humberto: O que você está fazendo conosco? Comigo? Volta, por favor. Ignoro tudo.
A palavra "ignoro" me pegou.
Ele estava disposto a ignorar que eu tinha fugido no dia do nosso ensaio de noivado? Ignorar onde eu estava, com quem estava? Era um perdão que parecia mais uma condenação, uma anistia que apagaria minha identidade.
Um suor frio cobriu minha nuca.
O desespero, aquele velho conhecido, começou a subir, um maremoto de culpa e pânico.
Antes que pudesse pensar, disquei o número da minha mãe.
Atendeu no primeiro toque.
— Ana Luísa Bernardes, onde você se meteu? — A voz dela era um chicote, cortante e furiosa. Do outro lado, eu podia ouvir o ruído de fundo de uma casa em polvorosa. — Tem o ensaio do seu noivado, o almoço com os avós do Humberto e tantas outras coisas, e você simplesmente some? Você perdeu completamente a noção?
Eu abri a boca para falar, para gritar, mas só saiu um fio de voz.
— Mãe, eu...
Ela não me deixou continuar.
Respirou fundo, e eu ouvi o som do seu copo de cristal sendo colocado sobre uma superfície de mármore. Quando falou de novo, o tom tinha mudado. Era gelado, calculista, a voz que ela usava em negociações difíceis.
— Olha, filha. O Humberto foi claro. Ele disse que você não tinha parado de se encontrar com... com o motoboy. Eu entendo, sabe? É esse negócio de adrenalina, de se sentir superior, de se rebelar. É uma fase. Mas já chega, Ana Luísa. Já deu. Seu noivo é um homem incrível e te perdoa. Volte. Imediatamente.
As palavras dela me atingiram como pequenos socos.
"Fase"
"Adrenalina"
"Se sentir superior"
Elas reduziam o que eu sentia por Cayo, o que tínhamos, a um capricho, um desvio de conduta de uma adolescente mimada. A culpa, que tinha ficado adormecida nos braços dele, voltou com a força de um furacão, tentando me arrastar de volta para aquele mundo de aparências.
Mas junto com a culpa, veio uma raiva.
Uma raiva surda e quente.
— Mãe. — eu disse, e minha voz soou estranhamente firme. — Eu estou bem. Estou segura. Já sou adulta e escolhi o meu próprio destino. Não vou noivar com o Humberto. Muito menos me casar.
Do outro lado da linha, o silêncio foi absoluto por alguns segundos. Quando ela falou, a voz era um veneno puro.
— Você perdeu o juízo. A polícia já foi acionada. Estão atrás de você, Ana Luísa. E quando te encontrarem, você vai voltar. Você vai noivar e se casar com o Humberto. E agora não é um pedido, é uma ordem.
Um calafrio percorreu minha espinha.
"Polícia"
A palavra ecoou na minha mente, carregada de um perigo real e aterrorizante. Desliguei o telefone com os dedos trêmulos, o coração batendo descompassado. Joguei o aparelho na cama como se ele estivesse em chamas.
Quando Cayo saiu do banho, ainda com a toalha enrolada na cintura, o rosto ainda tenso, eu desabei. Contei tudo, as palavras saindo entrecortadas, os olhos cheios de lágrimas que eu não conseguia mais conter. Ele me ouviu em silêncio, seus olhos escuros fixos no meu rosto. Quando terminei, ele simplesmente me puxou para o seu colo.
— Você não precisa se preocupar. — ele sussurrou, sua voz um bálsamo na minha pele. — A gente não tá fazendo nada de errado. Dois adultos, num lugar privado. Eles não podem te forçar a nada.
A simplicidade da lógica dele era reconfortante, mesmo que eu soubesse que o mundo em que meus pais viviam operava com regras diferentes, onde a vontade própria era um luxo que mulheres como eu não podiam ter.
A tarde seguiu num contraste surreal. Depois de "almoçarmos" salgadinhos de boteco, ficamos deitados no sofá, vendo um filme bobo na TV. Era uma normalidade roubada, precária, mas tão doce. Ele era carinhoso, suas mãos sempre me tocando, como se precisasse se certificar de que eu ainda estava ali. E eu estava. Cada segundo.
A noite foi o celular dele que tocou, pelo tom ríspido dele, era a Gabi sem dúvidas. A mulher que tem um filho com ele, uma pontada de ciúmes me invadiu. Saber que outra mulher já deu o presente mais valioso a ele me deixa mexida e com uma vontade s*******o de ter também um pedacinho do Cayo comigo.
Quando ele saiu para buscar o Zyon, eu vi o medo nos olhos dele. Aquele mesmo medo que eu tinha visto no aeroporto. O medo de que, quando a porta se abrisse novamente, eu tivesse desaparecido. Aquilo partiu meu coração. A ideia de ir embora nem sequer passava pela minha cabeça. Eu estava exatamente onde queria estar, mesmo que fosse o lugar mais complicado do mundo.
O silêncio que o Cayo deixou para trás ao sair para buscar o Zyon era diferente de todos os outros que eu já tinha experimentado. Era um silêncio pesado, carregado, como o ar antes de uma tempestade. E no centro desse silêncio, o meu celular era um ser vivo e maligno, pulsando com notificações na mesinha de cabeceira. Cada vibração era um choque pequeno e insistente através do colchão, através do meu corpo já tão sensível.
A felicidade no rosto dele quando voltou com Zyon dormindo no ombro era indescritível. Seus olhos brilhavam, e aquele peso que ele sempre carregava nos ombros parecia ter desaparecido. Era o olhar de um homem que tinha recuperado seu mundo.
Colocamos Zyon na cama improvisada no chão, e ele abriu os olhos, sonolento.
—Oi, — eu disse baixinho.
—Oi, — ele respondeu, com um pequeno sorriso, e fechou os olhos de novo, seguro.
Mais tarde, tentei fazer algo grandioso: um macarrão à bolonhesa. Queria provar para mim mesma, e para eles, que eu poderia me encaixar naquela vida simples. O resultado foi um desastre culinário. A massa estava empapada, o molho, salgado demais.
— Eu fiz macarrão à bolonhesa, — anunciei, apontando para a travessa na mesa com um misto de orgulho e vergonha. — Mas ficou... bem, vocês vão ver.
Zyon, já mais acordado, chegou perto, olhou para a massa pálida e encaracolada e soltou uma risadinha.
—Papai, — ele disse, sábio além dos seus seis anos, — talvez seja bom a gente pedir pizza.
A tensão quebrou.
Cayo riu, uma risada verdadeira e profunda que ecoou pela pequena casinha, e eu me juntei a ele, o riso misturado com lágrimas de alívio. Comemos pizza, jogamos o meu macarrão catastrófico fora e limpamos a cozinha juntos, uma equipe.
Depois que Zyon foi colocado para dormir novamente, o cansaço e a emoção do dia me alcançaram. Sentei no sofá ao lado de Cayo e desabei. Escondi o rosto no peito dele, e as lágrimas vieram silenciosas, mas incessantes.
— Eu não quero te perder de novo, Cayo, — sussurrei, minha voz abafada pelo tecido da camiseta dele. — Sei que o mundo vai me julgar. Meus pais... acho que nunca mais vão olhar na minha cara da mesma forma. Mas só com você... só com você eu me sinto eu mesma. A verdadeira Ana Luísa, não a versão que todo mundo quer que eu seja.
Ele não disse nada.
Apenas me apertou mais forte, seu queixo repousado no topo da minha cabeça. Seu silêncio era mais eloquente do que qualquer palavra. Era um porto seguro no meio do caos que eu tinha criado. E naquele momento, com o som da respiração tranquila do Zyon vindo do quarto e o calor de Cayo ao meu redor, eu sabia.
Tinha trocado um palácio por uma casinha, um futuro certo por um presente incerto, e uma vida de perfeição por uma de verdade. E, pela primeira vez, não havia uma única fibra do meu ser que se arrependesse. Os fantasmas do meu passado podiam chamar, mas a minha alma tinha encontrado o seu lar.