ANALU
A luz da manhã entrou suave pelo único janelão do quarto, pintando listras douradas na poeira que dançava no ar. Acordei devagar, meu corpo, um misto de peso e leveza — peso dos músculos cansados, leveza de uma alma que, pela primeira vez em meses, não carregava o fardo da expectativa alheia.
O cheiro dele ainda estava em mim, na minha pele, misturado com o suor seco e o aroma do sabonete barato que usamos no banho na noite anterior.
O banho.
Lembrei com um sorriso.
Como ele me lavou com uma reverência que contrastava com a fúria com que me possuía horas antes. Suas mãos, tão ásperas e capazes de tanta aspereza, deslizando pelo meu corpo com uma doçura que me fez chorar, escondendo o rosto no seu peito molhado. A água escorrendo, levando embora o perfume caro que eu usava, o creme do cabelo, a maquiagem.
Deixando apenas eu.
Analu.
Nua e verdadeira diante dele.
Depois, pedimos pizza.
Comemos na cama, ainda de toalhas enroladas no corpo, rindo como adolescentes. Eu disse, com a boca cheia de queijo derretido, que fazia tempo que não comia uma besteira daquelas.
— Com o Humberto, tudo é muito saudável, muito calculado — confessei, e a palavra “Humberto” não doeu como eu imaginava que doeria.
Soou distante, como o nome de um personagem de um livro que eu tinha fechado.
— Lembro que quando estava com você, engordei dois quilos no primeiro mês. A gente vivia de porção de bar, pizza e cachorro-quente.
Ele riu, aquela risada gostosa e rouca que ecoava no quarto pequeno.
— É porque comida de rico não enche o buraco da alma, princesa. Só a gordura e o sal mesmo.
E naquela hora, com o queijo escorrendo pelo meu queixo e ele me olhando como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo, eu soube que não havia lugar no planeta onde eu estivesse mais completa.
Agora, de manhã, ele já estava acordado. Senti seu olhar sobre mim antes mesmo de abrir os olhos completamente. Quando os abri, ele estava de lado, a cabeça apoiada na mão, os olhos escuros percorrendo cada centímetro do meu rosto com uma intensidade que me fez corar.
— Bom dia — sua voz era um rosnado baixo, cheio de sono e desejo.
— Bom dia — sussurrei, e ele se moveu.
Não foi uma investida.
Foi uma aproximação lenta, deliberada.
Seu corpo, quente e sólido, se colou ao meu sob os lençóis. A pele dele, áspera em alguns lugares, macia em outros, deslizou contra a minha, que sempre foi tratada com cremes caros e agora estava sendo redescoberta por um toque que não pedia licença, apenas tomava posse.
Era um calor diferente.
Não o calor abafado do ar-condicionado do meu quarto na mansão. Era um calor vivo, gerado pelo atrito de dois corpos que se reconheciam, que se lembravam. O suor começou a brotar, fininho, na minha nuca, entre os meus s***s. Era um suor de paixão, de esforço, de vida.
Ele entrou em mim com a mesma lentidão com que havia se aproximado. Um preenchimento tão profundo, tão completo, que me fez suspirar e fechar os olhos.
Não era apenas sexo.
Eu sabia.
Conhecia a diferença.
O sexo com Humberto era técnico, polido, uma performance.
Isso... isso era fazer amor.
Cada movimento dele era uma palavra em uma língua que só nós dois entendíamos. Uma língua de carícias demoradas, de gemidos abafados na curva do pescoço, de mãos que se entrelaçam com força, como se tentassem se fundir.
Ele se movia com uma cadência carinhosa e deliciosa, seus quadris colados aos meus, seu hálito quente no meu ouvido. Eu arqueava, me entregava, minhas mãos percorrendo as costas largas dele, os ombros fortes, até encontrar seu rosto. Toquei sua barba por fazer, os ossos salientes de suas maçãs do rosto, os cílios surpreendentemente longos.
Ele abriu os olhos e me encarou. E naquele olhar, eu vi tudo. A saudade, a dor, a raiva, o amor. Um amor tão grande, tão complicado, tão real que doía.
— Eu te amo, Cayo — a confissão saiu fácil, leve, como uma pena carregada por um vento que eu esperava há uma eternidade. — Tentei seguir em frente. Juro que tentei. Mas nenhuma lembrança, nenhum toque, nenhum gosto... nenhum apagou o seu. É você. Sempre foi.
Minha voz quebrou no final, mas não de tristeza. De alívio. Era a verdade mais pura que eu já tinha dito. E pela primeira vez desde que eu tinha colocado o pé naquele avião para o Canadá, desde que eu estava prestes a aceitar o anel de noivado, desde que eu tinha fingido ser alguém que não era... eu não senti um pingo de culpa.
Senti liberdade.
Uma liberdade aterrorizante e gloriosa. Como pular de um penhasco sabendo que ia voar, não cair.
Ele não disse nada.
Seus olhos disseram por ele.
Eles se encheram de uma água que ele não deixou cair, e ele se inclinou, capturando meus lábios em um beijo que era uma promessa, um selo, um pacto.
Estávamos tão perto do clímax. Eu podia sentir a tensão crescendo dentro de mim, uma espiral deliciosa de prazer que se aproximava do ponto de ruptura. Meus dedos se enterraram em seus cabelos, o puxando para mais perto, meu corpo se contorcia sob o dele, implorando por mais, por tudo.
Foi então que o zumbido começou.
Baixo, insistente, vindo de dentro da minha bolsa, jogada no canto no chão.
Ignorei.
Fechei os olhos com mais força, tentando me afundar na sensação, no cheiro dele, no amor.
Mas o zumbido continuou. E não parou. Uma, duas, três vezes. E então começou de novo.
Cayo parou. Seu corpo, que estava tão fluido e conectado ao meu, ficou rígido. Ele suspirou, um som de profunda frustração, e descansou a testa no meu ombro.
— Essa p***a tá vibrando a noite toda — ele murmurou, sua voz abafada contra minha pele. — Deve ser seus pais... o seu... não pararam de te ligar.
O mundo, que eu tinha mantido do lado de fora daquela porta azul, invadiu o quarto como um furacão. A imagem do meu pai, da minha mãe, do noivado que seria anunciado... tudo voltou com o peso de um túmulo.
Ele se moveu, saindo de cima de mim com um movimento brusco. A perda do seu calor, do seu peso, foi física.
Uma dor aguda.
Ele não terminou.
Nem eu.
Ficamos ali, os dois à beira do abismo, interrompidos.
Ele se levantou da cama, seu corpo nu e magnífico iluminado pela luz da manhã, e caminhou em direção ao banheiro sem olhar para trás. A porta se fechou com um clique suave, e logo ouvi o som da água do chuveiro caindo.
Fiquei deitada, nua e repentinamente gelada, olhando para o teto. O zumbido do celular continuava, um alerta vermelho piscando nao centro da minha felicidade.
E eu soube.
Ele não ia dizer.
Ele não ia pedir.
Mas a mensagem era clara como água. Aquele silêncio, aquele afastamento... ele estava me dando um ultimato.
Um ultimato silencioso.
A fuga tinha acabado.
A realidade estava do lado de fora daquela porta, e dentro dela, na forma de um telefone que não calava. Cayo não ia compartilhar a culpa, não ia me ajudar a enfrentar meus pais.
Ele me trouxe para o seu mundo, me mostrou o que poderia ser.
Agora, cabia a mim decidir.
E eu sabia, com um frio na espinha que nada tinha a ver com a temperatura do quarto, que a hora da decisão tinha chegado. A princesa não podia viver para sempre no esconderijo do ogro. Mais cedo ou mais tarde, ela teria que enfrentar o reino.