Almoço muito bem acompanhado

2349 Words
Daren agiu normalmente, mesmo que fosse visível em seu corpo que estava nervoso com a presença da nossa chefe, até porque ele sabia que se algo de errado dito, poderia ser o fim do seu e do meu trabalho. Fomos para o restaurante próximo da empresa e eu observava Verena olhar cada canto com curiosidade, como se fosse uma criança indo em um local completamente novo. Se olhar por outra perspectiva, realmente era novo pra ela. Aquele lugar, o meu mundo é muito longe do que ela está acostumada a viver desde o seu nascimento. A esposa do Daren, Aurora, e o filho, William, ainda não tinham chegado, o que fez com que Daren fizesse muitas perguntas para a Verena como se fossem amigos que estavam indo para o favoritismo. Minha cabeça estava apoiada pela a têmpora na palma da minha mão enquanto eu observava toda aquela cena e a maneira espontânea que Verena respondia Daren. Ela não sorria ou ria, quanto fazia dava pra ver que era forçado, como todas as outras vezes que ela reproduzia o gesto. Queria saber o motivo da sua hesitação em cada coisa que fazia, o porquê de sempre parar alguns segundos como se estivesse pensando e analisando milhares e milhares de possibilidades e consequências pra atitude que vai tomar. Ela é um enigma extremamente difícil de se decifrar, e eu gosto de enigmas extremamente difíceis de decifrar! — Você disse que as pessoas dizem que estraga os almoços... — Exclamei chamando a sua atenção colocando uma mexa do seu cabelo atrás da orelha com a mão livre. — Porque dizem isso? — Ahn... — Seu rosto corou brevemente enquanto abria e fechava a boca em busca de uma resposta. Devia ter visto que agir com i********e demais, porém eu me perdi vendo como ela ficava fofa com as bochechas rosadas e nem me importei com tal fator, pois eu definitivamente estava de quatro por essa mulher e cada pequeno gesto, ação e atitude que ela faz. O meu mundo girava em torno dela. — Eu acho que é porque não sou muito de falar, e quando falo sou ríspida ou forçada... — Passou a mão nos cabelos nervosa, arrumando-os para de trás dos ombros. — Pessoas não querem companhia de outras pessoas que não sabem conversar em um almoço, afinal acaba o clima agradável antes mesmo de começar. "Eu quero estar na sua companhia. Eu quero que ter você como companhia.", pensei engolindo o seco brevemente. — Bem... — Sorri de lado. — Eu discordo disso tudo! — Arregalou os olhos brevemente surpresa pela a minha resposta, como se nunca tivesse ouvido alguém discordar de tal afirmação dela. — Eu também! — Daren disse aumentando ainda mais a surpresa dela. No timer perfeito, Aurora entrou no restaurante com o Willian em seus braços. Ela seria facilmente reconhecida com a sua beleza estonteante e chamativa com os seus cabelos cacheados ruivos, pele preta, olhos castanhos claro e lábios carnudos. Ela nos encontrou facilmente e não hesitou em vir em nossa direção enquanto meu melhor amigo se levantava para beijar os lábios da sua esposa e pegar o filho nos braços dando um beijo em sua bochecha. Ficava feliz em ver outras pessoas sendo felizes, porém ao mesmo tempo sentia um pouco de inveja, pois no fundo, bem no fundo do meu peito, também queria ser feliz, encontrar a mulher perfeita pra mim, casar, comprar uma casa e ter filhos. Ouvir uma criança me chamando de papai ou dizendo que me ama, era um sonho que quanto mais eu desejava, mais longe percebia que ele ia como o lado oposto de um imã, a cada aproximação, ele se afasta. Talvez fosse por causa da minha dupla identidade, pois ninguém iria querer ficar com uma pessoa que tem algo assim. Ela, minha futura esposa ou marido, poderia terminar alegando que não sabe quem é quem quando está com ela, levando embora meu coração que entreguei a eles e o meu filho no processo. O medo era constante em meu peito. Medo de falhar, medo de decepcionar, medo de ficar sozinho. Medo de não conseguir ter alguém que me aceite com os mais profundos e obscuros segredos e defeitos. É por isso que não me relaciono mais do que uma transa de uma noite... É por isso que não busco me aproximar e falar o que sinto para a Verena, pois o medo estava presente e firme em cada parte dos meus ossos! — Gosta de crianças sr. Galanis? — Verena disse tirando-me daquele nada agradável devaneio. Desviei o olhar do Daren e sua família por um momento e fixei na bela mulher ao meu lado, que me encarava com curiosidade. — Sim... — Exclamei olhando em seus olhos ocultando meus medos e temores. — Gosto de pessoas que posso proteger como se minha vida dependesse disso! Brinquei ao perceber que ela iria tocar ainda mais naquele assunto e acabaria despertando uma curiosidade inominável no Daren, porém não menti quando disse que gostava de pessoas que eu pudesse proteger. — Aurora, essa é a Venera Kim, nossa chefe e atual CEO da Kimoy Cosméticos. — Daren disse e eu tive que esconder a boca na mão pra esconder o sorriso ao ver o olhar de deboche que sua esposa a tinha lançado. — Prazer em te conhecer, me chamo Aurora Abasi Smith, e esse daqui é o pequeno William! — Venera rapidamente se levantou para cumprimenta-los. — Prazer é todo meu. — Ambas apertaram a mão e se sentaram novamente, no mesmo instante que o garçom veio nos atender. Seu olhar demorou horrores em ambas mulheres, e somente isso fez com que eu travasse o maxilar e o meu amigo grunhisse em aviso. — Ainda estamos decidindo. — Daren e eu falamos ao mesmo tempo, fazendo com que ele piscasse surpreso e concordasse se afastando. Empurrei um dos cardápios para a Venera que possuía um sorriso de canto nos lábios, da mesma maneira que Aurora, até porque não havíamos feito questão de disfarçar o nosso incomodo na maneira que ele olhava para elas. — Quando eu estava vindo pra cá encontrei o Daniel que trabalha com vocês! — Aurora disse e foi inevitável não revirar os olhos somente com a menção do nome dele. — E eu acho que é ele vindo pra cá... — Olhamos no mesmo instante para a janela. Ele realmente estava vindo na direção de nosso restaurante. — Mas que m3rda de homem. — Automaticamente fiquei com raiva, nem parecia que a segundos atrás estava feliz. — Eu vou matar ele qualquer dia desses, eu juro pela a minha vida. — Não xinga próximo de uma criança! — Venera me repreendeu fazendo com que eu olhasse para o Willian no colo do Daren me olhando atentamente. — Ele nem deve ter entendido. — Olhei para a mulher ao meu lado. — E ele ainda não fala, e se falasse e entendesse logo, logo iria esquecer. — Ela semicerrou os olhos. — Tudo bem, desculpa, não vou mais xingar próximo de uma criança. — Melhorou. — Murmurou com a sombra de um sorriso surgindo em seus lábios. Daniel entrou no restaurante e eu pude ver que o corpo da Venera tinha ficado tenso. E a tensão nela só aumentou quando ele se aproximou de nós, com uma surpresa visível nos olhos ao vê-la conosco. — Que surpresa por lhe ver fora do escritório! — Ele disse e ela esboçou um sorriso forçado. — Posso me sentar não? — Não! — Fui curto e grosso, mas mesmo assim ele se sentou na cadeira que ficava na ponta da mesa, ficando próximo da Venera e da Aurora. Levantei-me da cadeira bruscamente e todos na mesa me seguiram com o olhar. — Troca de lugar comigo. — Murmurei para a Venera que me olhou surpreso, da mesma maneira que o Daniel, pois Daren fazia a mesma coisa com a sua esposa. — Não precisa... — Venera disse olhando em meus olhos. — Por favor! — Apoiei minha mão em seu ombro e ela ainda que resoluta, se trocou de lugar comigo. Sentei na cadeira e sorri sarcástico olhando para o Daniel enquanto o mesmo garçom de antes voltava para nos atender. — O que vão pedir? — Indagou, e dessa vez não olhou direito para as meninas. Daren, Aurora e até mesmo Daniel fizeram o seu pedido, restando somente eu e a Venera que estava indecisa olhando para o cardápio. Por alguns segundos, admirei o quanto ela ficava deslumbrante concentrada em algo. Nos olhos semicerrados, os lábios levemente inclinados para frente em uma espécie de bico, que em certos momentos, se movimentavam de um lado para o outro. — Vou querer uma Coleslaw. — Exclamei com a minha atenção ainda nela. Meu pedido era nada mais nada menos do que uma salada com repolho ralado, cenoura, maionese, creme de leite com vinagre e outros temperos. — Eu não sei o que pedir... — Murmurou Venera ao meu lado fazendo-me inclinar em sua direção pra ver a página do cardápio que ela estava olhando. — Acho que vou na salada também! — Aqui eles produzem comidas asiáticas também, só não está no cardápio! — Sussurrei e ela me olhou surpreso. — Bipimbap?! — Olhou apreensiva para o garçom que anotou o pedido dela e saiu. — Como que sabia disso? — Um dia vim bêbado aqui e pedi comida coreana e eles me trouxeram, fiquei na dúvida se tinha acontecido mesmo e no dia seguinte, voltei, pedi a mesma coisa e eles me serviram. — Respondi-a baixo. — O dono até me disse que era um segredo e que eu não podia contar pra ninguém. Sinta-se lisonjeada de saber desse segredo! — Ela sorriu e não foi um sorriso forçado, mas muito, muito mesmo espontâneo e de tirar o fôlego. — O que é isso que você pediu? — Indagou Daren assim que percebeu que tínhamos terminado nossa conversa. — Basicamente uma mistura de arroz, pasta de pimenta, legumes, carne e ovo frito servidos em uma pequena panela. — Venera o respondeu mais animada do que eu esperava. — É tipicamente coreana! — Parece muito gostoso. — Umedeceu os lábios colocando o Willian no chão. Ele deve ter pensando que o mesmo continuaria próximo dele, mas não, Willian saiu andando. Passou por Daniel que semicerrou os olhos para a criança, pensei que ia vir em mim, já que está acostumado comigo, porém ele surpreendeu todos indo até a Verena, esticando seus bracinhos para ela. — Oh, parece que ele gostou de você. — Daniel disse com diversão em sua voz, atraindo brevemente o olhar do meu amigo. — O que eu faço? — Indagou para si mesmo baixinho, porém eu acabei ouvindo. — Willy, vem cá! — Chamei-o e ele veio até mim ainda que estivesse olhando para a Verena. Peguei-o em meu colo, beijando a sua bochecha antes de encarar a Verena. — Posso? — Indiquei para o seu colo com o queixo. Sua cabeça concordou mesmo instante e ela me permitiu colocá-lo em seu colo. Suas mãos estavam tremendo quando levou os dedos para passar nos cachos dele, explicando o motivo de não ter sabido o que tinha que fazer, afinal ela foi pega de surpresa, como todos presentes na mesa. Meu coração se acelerou observando o Willian olhar pra ela com tanta atenção, e ela olhando pra ele da mesma maneira. As mãozinhas dele se ergueu para tocar os olhos dela um tanto curioso e eu nem o culpava, pois o violeta que habitava nos olhos dela eram divinos. — Não esperava que você tivesse filhos, Daren. — Daniel disse chamando a minha atenção para ele. — Muito menos esposa... — Olhou para a Aurora. Todos na empresa que tinha um contato constante conosco sabiam que Daren tinha uma esposa. O filho ainda era um segredo pra não atrair curiosidade demais pra criança tão pequena, mas que ele era casado, todos sabiam. — Você está cheirando a macarrão, o que dá a entender que já almoçou, até por que saiu antes do horário determinado pra todos. — Pontuei já cansado de estar na sua presença. Na empresa eu sei que sou obrigado, então não sou obrigado a conviver com ele fora da empresa. Pensei soltando um longo suspiro antes de continuar a minha fala. — Por que está aqui almoçando novamente? — Que isso Ares, somos amigos desde que entrou na empresa. — Ele disse com uma risada anasalada, balançando a mão em um gesto casual. — Não, não somos amigos. E eu adoraria não passar meu tempo fora da empresa com você. — Daren me olhou em repreensão, porém eu olhava fixamente para o Daniel. — Sei que não gosta de mim por que estou na vaga que você queria a anos, então não precisa ficar fingindo amizade. — Ele olhou pro meu lado, em direção a Verena que apenas observava tudo em silêncio. — Parece que ele gostou muito de você... — Felizmente a Aurora mudou de assunto quando percebeu que o clima estava esquentando e se enchendo de tensão. — Gostou dos meus olhos, acho que é o formato dele. — Verena disse olhando para a Aurora rapidamente, antes de voltar a encarar o pequeno em seus braços. — Modéstia hein, é claro que ele gostou da cor dos seus olhos. — Sorriu atraindo a atenção dela novamente para si. — Coisas bonitas são feitas para se admirar, não é mesmo Ares? — Concordo! — Assenti sem pensar muito bem antes, e quando percebi que fiz m3rda, meu rosto corou e eu pigarrei pegando o copo de água dando um longo gole nele. — Tá calor aqui, não tá? — Abanei a mão em minha direção olhando para qualquer canto que não estivesse o olhar presunçoso do Daren e o de desgosto do Daniel. Olhei rapidamente para a Aurora que sorriu maliciosa enquanto dava de ombros, voltando a conversa com a Venera como se nada daquilo tivesse acontecido, porém a vergonha e o calor em meu rosto diziam ao contrário.
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