e VI da nossa era.
Ainda que não seja possível ser mais pre-
ciso, esses dois limites cronológicos já nos
revelam que Vatsyayana viveu numa época que
corresponde muito provavelmente à Idade
Clássica da Índia, e à ascensão dos Gupta. Este
é um dado interessante, pois, como se sabe,
esse período da história da Índia foi muito refi-
nado e próspero. Apesar disso, foram também
esses os séculos em que as castas alcançaram
a sua máxima rigidez, assim que foram postas
em prática as Leis de Manu.
Em sânscrito, a palavra Kama abrange o
mesmo campo semântico que a grega eros, ou
seja, significam o prazer dos sentidos. Não im-
plica somente o desejo amoroso, mas também
o desejo num sentido mais amplo: a satisfação
dos sentidos, a audição, o tato, a visão, o pala-
dar e o olfato. Na tradição hindu, o Kama, um
código de saberes que aborda todos os aspec-
tos mais refinados e as técnicas da voluptu-
osidade s****l, é, na verdade, o menos impor-
tante em dignidade dos grandes agentes da
ação humana, colocando-se após o Artha
(riqueza, poder e a busca pela perfeição nas vá-
rias artes) e o Dharma (respeito pela ordem
sociocósmica através do cumprimento das leis
religiosas).
A satisfação dos sentidos deve ser contro-
lada pela mente, que, por sua vez, deve-se
guiar pela consciência do Eu.
Moska, que significa “a busca pela liber-
tação”, surge após o Kama. Representa um es-
tado que apenas se atinge depois da libertação
do peso dos atos. Este “quarto agente” da ação
humana não é a soma dos outros três obje-
tivos do homem, mas transcende-os.
Ao mesmo tempo, Kama opõe-se a Moska,
pois, para atingir a libertação total, o desejo
deve ser eliminado, ainda que ambos estejam
estreitamente ligados, já que o impulso que
leva a alcançar a libertação procede do próprio
desejo.
Vatsyayana, antes de fazer as suas pri-
meiras considerações sobre o amor, elogia os
três pontos da vida, a saber: a virtude
(Dharma), a prosperidade (Artha) e o amor
(Kama).