Pov Nathalia
Depois que meu pai nos levou para seu consultório ele nos explicou que alguns exames simples foram feitos em Benjamim, tais como de sangue e uma radiografia do tórax, mas apesar dos mesmos apresentarem algumas alterações que evidenciavam anormalidades no coração, eles não eram capazes de diagnosticar o que de fato estava acontecendo com meu filho, ou seja, a única certeza que tínhamos era a necessidade de levarmos Benjamim até um cardiologista.
Eu segui com Michelle e Gustavo para o quarto onde meu filho estava sendo medicado. Papai disse que providenciaria a alta do meu filho para o levarmos embora assim que o soro fosse finalizado. Assim que entramos e nos deparamos com Benjamim naquela cama Michelle correu para o lado do filho mais novo e eu deixei que ela tivesse aquele momento só dela para processar as últimas informações. Independente da nossa relação pessoal eu não tinha como negar, Michelle sempre foi uma mãe presente para nossos filhos, ela era capaz de mover céu e terra pelo o bem estar dos garotos. Por mais que ela estivesse em silêncio eu poderia sentir de longe como ela estava preocupada com a saúde de Benjamim.
– Não fique assim, ele vai ficar bem. Precisamos pensar positivo!
Toquei no ombro de Michelle que permaneceu em silêncio sem tirar os olhos do garotinho que dormia tranquilamente.
– Ei, olhem... Ele está acordando!
Gustavo falou em um sopro só. Desde que entramos no quarto de Ben e ele viu o irmão ali deitado naquela cama de hospital completamente diferente do garotinho esperto que tínhamos em casa, ele não quis mais sair da cama. Os dois eram muito apegados e a preocupação do garoto mais velho foi imediata.
– Filho, se afasta um pouco, seu irmão precisa descansar. – Michelle falou para nosso filho que a obedeceu imediatamente.
Me aproximei de Benjamim que abria os olhinhos lentamente, mas a luz forte o incomodou e ele tornou a fechá-los.
– Oi meu príncipe, como está se sentindo? – Perguntei fazendo um carinho em seu rostinho que ainda estava pálido.
– Eu acho que estou bem. – Dessa vez Ben abriu os olhos por completo passeando-os pelo local. – Mamãe, você veio.
Michelle que já estava ao meu lado segurou na pequena mão de Benjamim que sorriu com o gesto da mãe.
– Eu estou aqui meu amor. Sempre vou estar aqui para você!
– Eu tô doente? Fiz algo que não podia e peguei gripe?
A pergunta de Ben fez com que meu coração apertasse ainda mais e precisei me controlar para não chorar ali mesmo na frente dele. Como pediatra eu estava acostumada a sempre lidar com crianças enfermas, só que ali não era qualquer criança, ali era meu menino, um dos motivos que me fazia viver e sorrir. Um coração de mãe nunca fica indiferente a um filho doente. Entendendo meu dilema Michelle tomou a frente da situação e respondeu.
– Escute o que a mamãe vai te falar. Às vezes a gente fica assim dodói, mas não é culpa de ninguém. Você passou m*l e por isso te trouxeram para cá, para saber o que você tem. Entendeu?
Ben pensou por um instante e concordou com a cabeça.
– Então quer dizer que a mãe Nat vai cuidar de mim como cuida das outras crianças?
Segurei a outra mãozinha de Ben e Michelle me olhou com ternura.
– Meu amor, à mamãe vai sempre cuidar de você. Você é meu bichinho preguiça, esqueceu?
– Eu odeio hospital, quero ir embora.
Benjamim falou inquieto no mesmo instante que meus pais entraram no quarto atraindo nossa atenção para eles.
– Pois deveria aprender a gostar, Benjamim. Isso tudo aqui vai ser seu um dia, você e o Gustavo precisam dar continuidade ao legado da família.
Minha mãe despejou tudo de uma só vez sem nos dar chance para interrompê-la. Senti Michelle se enrijecer ao meu lado e já me preparei para a batalha a seguir.
– Você é louca ou quê? Ele é apenas uma criança de cinco anos de idade, não tem que estar pensando nessas coisas. – Michelle falou entredentes enquanto dona Ana Tereza deu de ombros.
– Meus netos precisam saber desde pequenos as responsabilidades que vão ter no futuro.
– Vocês duas não vão discutir sobre isso agora e aqui. Vão?
Meu pai interrompeu as duas que se fitavam como se o olhar pudesse causar ferimentos graves uma na outra.
– Mi, por favor. – Falei com paciência chamando-a pelo apelido que usava desde que namorávamos. – Nosso filho é prioridade.
Visivelmente contra a vontade Michelle calou-se e afastou-se da cama para que meus pais pudessem aproximar-se de Ben que conversava animadamente com os dois. Gustavo deitou-se no colo de Michelle que mexia em seus cabelos o que me fez observar que o cabelo daquele garoto estava precisando de um corte com urgência.
– Vovô, eu quero ir embora. – Ben falou com manha.
– Tudo bem meu campeão, o vovô já providenciou sua liberação.
Me aproximei de Michelle e sussurrei.
– Me desculpe por isso – Ela me olhou confusa. – Você não é mais obrigada a aguentar as loucuras da minha mãe, Michelle. Me envergonho pelo comportamento grotesco de dona Ana Tereza.
– Não se importe com isso, convivi tempo suficiente para aprender a combater e não absorver o veneno. – Ela piscou brincalhona e acabei sorrindo, mas meu sorriso logo se desfez dando lugar a uma expressão surpresa com o que ouvi a seguir. – Além do mais ainda somos casadas e ela querendo ou não eu sempre vou interferir no que diz respeito a você e meus filhos.
Minha surpresa não era exatamente algo r**m, mas de alguma forma aquele momento com Michelle me levava a lembranças do passado quando ela enfrentava minha mãe para me proteger das suas loucuras. Era sempre assim, Michelle era a força que eu não tinha. Levando em consideração nossos últimos meses e status, eu jamais pensei que veria minha ex esposa agir como a mesma de antes.
– Desculpe, eu não deveria ter dito isso. Não assim!
– Não... quer dizer, não se preocupe com isso, você está certa no que falou. Obrigada por se importar.
Por instinto segurei sua mão e vi seus olhos acompanhar calmamente aquele gesto. Um silêncio constrangedor se formou. Nem eu e nem Michelle parecíamos saber o que dizer, ou será que não queríamos dizer nada?
– Bom, vai ajudar o Ben a tirar essa roupa de hospital, eu vou levar vocês em casa. – Michelle quebrou o silêncio e também o contato das nossas mãos. – Vou levando o Guto para o carro e volto para buscar vocês.
Michelle levantou-se com Gustavo em seus braços, o garoto estava crescendo e isso dificultava um pouco as coisas, mas ela não reclama do seu peso ou tamanho. Observei aquela cena e por um instante me questionei internamente qual a sensação que meus filhos sentiam quando era necessário separarem de mim ou Michelle. Meu peito doeu quando imaginei que eles sentiam-se desprotegidos ou como se algo os faltasse. Poderia ser loucura, mas fiquei imaginando se estávamos fazendo o certo, se era isso mesmo que queríamos, se valia a pena ou se era tarde demais.
O caminho até minha casa foi feito em silêncio. No banco de trás do carro as crianças dormiam tranquilamente enquanto na frente um desconforto pairava no ar. A verdade é que aquela era a primeira vez que estávamos compartilhando um momento familiar. Michelle parecia inquieta e eu estava tão tensa que sentia meus músculos ficarem rígidos com o mínimo de movimento que a outra fizesse. Eu olhava pela janela o movimento das ruas que passávamos e em meus pensamentos me perguntava como era possível ter vivido anos como companheira daquela mulher e hoje termos nos tornado tão estranhas.
Me perdi em meus pensamento e só fui trazida de volta à realidade quando Michelle estacionou o carro na vaga que antes era ocupada por ela em nosso condomínio. Observei com atenção todos os seus movimentos, sua expressão estava calma, porém séria. Ela saiu do carro e antes que eu pudesse fazer o mesmo ela me surpreendeu abrindo a porta do carro para que eu pudesse sair.
– Vem. – Ofereceu a mão para que eu pudesse segurar.
Me surpreendi com aquele gesto, não que Michelle fosse insensível, m*l educada ou qualquer coisa do tipo, mas desde que nos separamos as coisas ficaram estranhas entre nós, nos tornamos verdadeiras estranhas. Segurei em sua mão e ela fechou a porta do carro. Peguei Benjamim nos braços vendo Michelle fazer o mesmo com Gustavo.
Abri a porta de casa e dei passagem para Michelle.
– Para onde o levo, seu quarto ou o deles? – Ela perguntou quase sem ar e por um momento eu quis rir do sufoco que a outra estava passando.
– Pode deixá-los no nosso quarto. Quero ficar de olho em Benjamim para se caso ele precisar de algo.
Michelle ergueu uma das suas sobrancelhas, mas não disse nada. Eu sabia que ela tinha estranhado o fato de me referir ao quarto como nosso, porém saiu sem querer e eu não ia pagar de doida voltando atrás no que falei. Michelle passou por mim em silêncio e eu a segui. Colocamos as crianças na cama e fui para o banheiro tirar aquela roupa desconfortável, quando retornei ao quarto parei na porta e passei a observar a cena à minha frente. Michelle fazia um carinho no rosto do nosso filho afastando aqueles cabelos caídos na testa do menino. O rosto tranquilo do garoto e a expressão babona de Michelle me deixaram com o coração aquecido. Olhei para o lado e vi Benjamim que também dormia tranquilamente ao lado do irmão. O menino também passou a receber um carinho da mãe que parecia encantada admirando os dois, aquela definitivamente era a cena mais linda que eu assistia em meses.
– Você não perde essa mania de admirá-los enquanto dormem? – Perguntei baixinho ainda parada na porta do quarto.
– Eles estão crescendo rápido demais e logo vai chegar a fase chata onde vão me expulsar do quarto alegando ser um mico serem colocados para dormir pela mãe babona. – Sorri com aquela constatação.
– Não seja boba, eles te adoram e vão sempre te querer por perto.
– Ah qual é? Qual adolescente quer a mãe por perto? – Ela me olhou com uma expressão debochada e eu não contive o riso.
– Eu tentei te iludir, mas se insiste...você vai ser expulsa! – Pisquei e ela sorriu levantando-se e vindo em minha direção.
– Como se sente? Tem certeza que vai ficar bem com eles?
– Não se preocupe. Qualquer coisa eu chamo dona Neide. – Tentei tranquiliza-la.
Novamente aquele silêncio constrangedor tomou conta do ambiente. Nos fitávamos intensamente. Por muitos anos eu sabia ler os olhos de Michelle, mas ali naquele instante isso não parecia ser possível, tudo ficou ilegível e eu me questionava interiormente se havia deixado de conhecer a mulher que amei por toda uma vida.
– Bom, então eu vou indo. – Ela quebrou o silêncio enquanto encostei na porta. – Qualquer coisa que precisar pode me ligar.
– Tudo bem... Cuidado no caminho de volta.
Antes que Michelle pudesse deixar o ambiente uma voz chamou nossa atenção...
– Mamãe, não nos deixe de novo!
Benjamim estava agora sentado na cama com os olhinhos lagrimejados, nosso filho tinha em sua expressão uma mistura de dor, decepção e esperança. Michelle buscou meu olhar com rapidez e nos seus encontrei desespero, um grito em silêncio por socorro. Naquele instante eu pensei que essa é a realidade dolorosa e mais difícil de todo aquele processo de separação pela qual estávamos passando. Amávamos nossos filhos, mas o que fazer para cessar a dor de um filho quando somos nós que a causamos? Por mais que tivesse muitas perguntas e nenhuma resposta, de uma coisa eu tinha certeza, nós éramos as adultas ali e somente nós deveríamos ser responsáveis por encontrar solução para toda a bagunça que estávamos causando aquelas crianças. Normalmente era Michelle quem era responsável por fazer algo, mas naquele momento ela parecia cansada e vulnerável, foi então que eu compreendi, seria eu que precisava tomar uma atitude.
Respirei fundo, segurei a mão de Michelle e a puxei em direção à cama onde nossos filhos estavam e só agradeci aos céus por aquela cama ser grande o suficiente para comportar nós quatro.