Pov Michelle
Acordei sentindo dores pelo corpo inteiro e aquilo fazia me sentir como uma idosa de noventa anos. Senti o peso de um corpo minúsculo sobre mim e só então me lembrei da brilhante ideia que Nathalia havia tido noite passada.
Depois que nosso filho mais novo nos surpreendeu quase chorando pedindo para que não os deixasse novamente eu travei. Meu interior se desesperou diante daquela situação, afinal, não era fácil para mim como mãe sentir que de alguma forma eu estava passando para meus filhos a imagem de abandono. Meu coração quase despedaçou-se e tenho certeza que Nathalia compreendeu isso quando me fitou nos olhos. Diante de todo aquele caos minha mulher... Digo, ex mulher, achou que seria uma ideia maravilhosa nos espremer naquela cama que durante tantos anos dividimos juntas. Resultado: agora estava eu aqui toda entrevada com Ben dormindo tranquilamente sobre meu peito, enquanto ao nosso lado estava Gustavo abraçado ao corpo de Nathalia.
Olhei para o lado e passei a contemplar aquela imagem que eu descreveria mentalmente como perfeita. Nathalia dormia tranquilamente, mas as linhas do seu rosto deixavam nítida a expressão de uma mulher cansada. Enquanto eu admirava aquela imagem uma sensação de paz invadiu meu peito e eu tentava recordar qual tinha sido a última vez que pude compartilhar de uma cena no mínimo parecida com aquela. A verdade é que percebi que o tempo havia passado e eu tinha perdido pequenas coisas do dia a dia com minha família, sequer me recordava da sensação. Triste realidade.
Nathalia se remexeu e eu a observei com atenção procurando não perder nenhuma parte daquela cena. Eu não compreendia muito bem o que estava se passando em meu coração, mas aquelas poucas horas ao lado de Nathalia e meus filhos me trouxeram uma sensação de viagem no tempo, onde por vezes me pegava tentando lembrar nossos momentos em família e em cada lembrança uma paz invadia meu peito. Era impossível descrever como me sentia com cada flash de um passado onde eu era intensamente feliz e completa. Era como reviver aos poucos pequenos momentos que por alguma razão se perderam em um túnel do tempo escuro e sem saída.
No entanto, no mesmo instante que me sentia bem em reviver esses momentos, também me sentia estranhamente confusa. Era como se estivesse perdida em uma vida que não me pertencia, pelo menos não mais. A realidade era outra, eu era uma mulher separada, que vivia amargurada e que as dores do divórcio me faziam questão de deixar claro como eu era fracassada.
Desesperei-me com a angústia que começou a invadir meu coração, então decidi que era hora de partir. Lentamente retirei Benjamim de cima de mim e levantei da cama sem fazer barulho para que os três não acordassem. Passei a andar pelos cômodos da casa que um dia sonhei em construir. Observei que tudo parecia tão igual, porém estava tão estranhamente diferente, era como se o pedaço de alguma coisa faltasse naquele ambiente. Vi fotos espalhadas pela casa, na maioria eram fotos dos meus filhos da época de quando eu ainda estava ali. Não me surpreendi quando percebi que Nathalia havia deixado nossas fotos com as crianças nos mesmos porta-retratos de antes, afinal, eu sempre soube que mesmo estando separadas durante os últimos sete meses, minha ex esposa fazia questão de permanecer com minha imagem de mãe sempre presente na vida dos nossos filhos, mas minha surpresa foi com as fotos de nós duas deixadas exatamente nos mesmos lugares de antes.
Conforme eu analisava aquelas imagens de duas jovens recém casadas sempre sorrindo, estampando felicidade e o amor que compartilhavam, um aperto tomava conta do meu coração. Eu olhava cada foto que retratava momentos felizes de um eu que eu não mais conhecia, de uma Nathalia que eu não sei onde perdi ou em que momento nos perdemos uma da outra. Uma vontade de chorar me invadiu e a garganta secou bem no momento que parei diante do grande quadro que enfeitava uma das paredes da sala, nele eu e Nathalia estávamos vestidas de noivas, nossas testas grudadas, olhares conectados e juntas compartilhávamos um sorriso que somente nós sabíamos o sentido... Amor!
Aquela imagem me sufocou completamente e eu me desesperei de uma vez por todas quando não consegui encontrar dentro de mim o real motivo que me levava àquela sensação. Não, definitivamente eu não podia continuar ali ou iria explodir em um choro absurdo. Procurei a chave do meu carro e fui em direção à porta da sala, mas assim que toquei na fechadura uma voz congelante me paralisou.
– Despois de hoje, nunca iremos nos separar... – Olhei para trás e a encarei. – Não existe eu sem você.
– Do que você... – Ela me interrompeu.
– Foi isso que você disse no momento que essa foto estava sendo tirada pelo fotógrafo sem que percebêssemos. E foi esse o motivo do meu sorriso tão verdadeiro.
Nathalia andou até próximo da foto e ficou olhando a imagem como eu fazia há pouco antes dela aparecer.
– Você costumava pelo menos se despedir dos seus filhos antes de partir. Tenho certeza que eles não vão ficar satisfeitos quando acordarem e descobrirem que a mãe deles foi embora sem dizer tchau.
Observei Nathalia que não me olhou em nenhum momento, parecia concentrada na imagem à sua frente. Era normal encontrar nos olhos da minha ex esposa uma dor estampada, mas naquele momento algo havia mudado, Nathalia parecia decepcionada.
– Eles estão dormindo e eu preciso finalizar uma campanha para apresentar amanhã aos contratantes. O Guto já está aqui e não faz sentido eu leva-los hoje se amanhã eles já têm aula. – Nathalia bufou e passou a mão pelo cabelo denunciando sua irritação repentina.
– Sabe, o que aconteceu ontem... – Ela começou e eu a interrompi.
– Foi um erro! – Droga, seu olhar de indignação me fez compreender o tamanho da estupidez que cometi. Me expressei m*l, mas droga, Nathalia estava me deixando nervosa. – Digo, isso confunde a cabeça das crianças e nós sabemos que nada mudou em nossa situação, então eles podem sofrer ainda mais.
Nathalia começou a caminhar de um lado para o outro e eu a conhecia perfeitamente para saber que aquele não era um bom sinal. Ela estava nervosa e tudo que eu falava só contribuía para isso se agravar.
– Por um momento, apenas por um mísero momento, eu pensei que poderíamos tentar consertar as coisas. – Seu tom de voz já não estava nada amigável. Ótima maneira de começar uma manhã de domingo. – Ontem vi a Michelle que conheci há anos, vi a mãe dedicada de sempre, mas também vi a amiga, companheira, esposa. – Droga, aquele assunto não era nada bom. Pensei comigo mesma enquanto ficava tonta vendo-a caminhar por todo o cômodo. – E sabe o que mais? A i****a aqui ainda cogitou a possibilidade de tentarmos conversar e analisar se é isso mesmo que queremos para nossa vida, para a vida dos nossos filhos. Por um momento achei que existisse salvação para os tripulantes desse barco naufragado e sim, eu pensei em arriscar tentar salvar, afinal, quando foi mesmo que foi me dado chance para isso? Ah é... Nunca! Mas aí amanheceu o dia só para me mostrar que não existe nenhuma salvação porque quando duas não querem duas não ajudam. E quer saber? Foi ótimo porque essa Michelle covarde que foge na manhã seguinte sem ao menos se importar com o que diabos eu vou dizer para nossos filhos, não foi a mulher pela qual eu me apaixonei, e...
– Chega! – Gritei e Nathalia assustou-se. – Cala a boca Nathalia! Você não tem o direito de me julgar dessa forma. Você não sabe o que sinto ou as dores que carrego comigo. Você nunca ousou se colocar em meu lugar. Em meses você sequer demonstrou querer lutar por nosso casamento quando na verdade todas as soluções sempre estiveram somente em suas mãos. Não foi a minha mãe que fez da nossa vida um inferno até chegar ao ponto da nossa convivência ficar insustentável e nosso casamento acabar. Se você acha que sou covarde por passar hoje por essa porta sem me explicar para meus filhos o porquê preciso deixar essa casa, se analise e se pergunte como consegue conviver sendo covarde e se omitindo durante toda uma vida por não ter coragem de enfrentar a mamãezinha. Aproveite e faça melhor, explique para nossos filhos como é ter uma mãe que move céus e terra para ver a destruição da família da própria filha.
– PARAAAAAAAA!
A essa altura Nathalia já soluçava sem parar, nós nos assustamos com a voz de Gustavo que invadiu o ambiente. Olhamos para o topo da escada e lá estavam Gustavo e Benjamim sentados. Meu filho mais novo se agarrava ao irmão que por sinal tentava cobrir os ouvidos do caçula que chorava copiosamente. Olhar aquela cena me destruiu por completo, me senti uma das piores pessoas do universo, eu não merecia a dádiva de ser mãe. Saí por aquela porta sem olhar para trás sendo sufocada pelas lágrimas que escorriam descontroladamente pelo meu rosto.
Uma semana depois
Desde a discussão que tive com Nathalia nós não tivemos mais contato algum, nem mesmo para falar sobre nossos filhos. Eu havia feito uma viagem à trabalho e o pouco contato que tive com as crianças foi por celular. Aparentemente as coisas estavam bem com Benjamim e fiquei sabendo por ele que estava com exames marcados para fazer em poucos dias. Minha preocupação era Gustavo, meu filho estava cada dia mais distante e não fazia questão de esconder o quanto estava magoado, mas também não o critico, a cena que eu e Nathalia protagonizamos em sua frente foi digna de vergonha.
Estava chegando de viagem quando meu celular tocou, no visor era o nome da minha ex mulher que aparecia.
– Alô!
– Michelle, já retornou de viagem? – Sua voz era seca.
– Estou chegando agora na cidade, algum problema com as crianças?
– A diretora da escola quer falar conosco. Ela tentou contato com você, mas sem sucesso. Me ligou hoje cedo e eu estou a caminho da escola.
– Tudo bem, te encontro lá.
Desliguei o celular e mudei a rota que seguia. Essa é uma das coisas que muda depois que viramos mães, nunca podemos fazer planejamento ou pensar em descansar, já nossos filhos sempre vão arrumar um jeito de mostrar que eles são prioridades. Segui o caminho me questionando se o tal de período trabalhoso dos filhos bateu em minha porta com antecedência.
Quando cheguei à escola fui encaminhada para a diretoria, bati na porta e quando fui autorizada a entrar Nathalia já estava ali.
– Desculpem pelo atraso, esse tempo chuvoso não contribuiu no trânsito. – Justifiquei cumprimentando a diretora logo sem seguida.
– Tudo bem, o importante é que está aqui. Sente-se, por favor. – Mandou a mulher que na minha época de colegial eu descreveria como dona de uma expressão ranzinza.
– Então, por que nos chamou aqui? – Nathalia parecia ansiosa para ouvi-la.
– Bom, primeiro eu gostaria de agradecer por vocês terem se disponibilizado a vir. Vocês sempre foram mães presentes e deixaram muito claro para nós o quanto se preocupam com a educação dos filhos e isso me estimulou a ter uma conversa com vocês. O motivo pelo qual as chamei até aqui não é agradável. Estive conversando com alguns professores e estamos muito preocupados com o rendimento escolar de um dos filhos de vocês: o Gustavo. Ele sempre foi um dos nossos melhores alunos, mas temos percebido nesse último semestre que não somente as notas ficaram vermelhas, como também ele não tem sido mais participativo. Além disso, tem apresentado mudanças comportamentais muito constantes. Em alguns momentos está agressivo com os coleguinhas e responde os professores. Em outros momentos já foi encontrado chorando pelos corredores.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo, aquele garoto que aquela mulher descrevia definitivamente não era o meu filho, ou melhor, não era o filho que eu estava acostumada a conviver em nosso ambiente familiar.
– Gostaríamos de compreender se existe alguma explicação para essa mudança no comportamento do filho de vocês. Algo que a escola possa ter deixado passar ou que deixamos de fazer. Queremos compreender se esse comportamento é somente aqui ou se em casa ele também tem agido assim. Enfim, precisamos saber o que está acontecendo para estudarmos estratégias para ajuda-lo ou caso contrário ele perderá o ano escola.
Troquei olhares com Nathalia que parecia pensar a mesma coisa que eu. Como falaríamos para aquela mulher que nós éramos as responsáveis por toda essa zona que estava se tornando a vida do nosso filho? Claro que casais podem se separar quando a relação não vai bem, mas algo está muito errado quando essa separação é feita de forma desordenada e reflete diretamente no comportamento das crianças e isso era tudo que eu não queria para meus filhos. Respirei e fitei a mulher que esperava por uma resposta.
– Estamos enfrentando momentos difíceis em nossa família. Estamos nos separando e nossos filhos não estão reagindo bem a esse momento e isso provavelmente está afetando diretamente no rendimento escolar do Guto.
Percebi que quando toquei no assunto minha ex esposa remexeu-se na cadeira deixando claro como sentia-se desconfortável. Até aquele momento poucas pessoas tinham conhecimento da nossa separação. Percebi que a diretora ficou momentaneamente sem reação, mas não a julgaria por isso, afinal, desde que nossos filhos começaram a estudar, escolhemos aquela escola e criamos laços naquele ambiente. Nunca demonstramos instabilidade familiar e certamente aquela noticia estava pegando a senhora de surpresa. Quando finalmente a mulher recuperou-se da noticia adotou uma expressão séria e se pronunciou.
– Essa é uma noticia que sinceramente não estava na minha lista de hipóteses. Posso dizer sinceramente que como mulher lamento pelo ocorrido, mas estou aqui como educadora, então a vida particular de vocês não é da minha conta e nem tenho o direito de intervir, mas o bem estar e educação dos seus filhos é o que me interessa. É a separação de vocês que de fato explica tudo o que vem acontecendo com o Gustavo.
– A senhora pode ter certeza que não queremos que nossas decisões afetem em nada no desenvolvimento dos nossos filhos. – Nathalia se pronunciou.
– Não tenho dúvidas disso, senhora Banin. No entanto, precisamos ser sensatos e encarar o problema que já existe. Eu sinto muito em admitir isso, mas agora tomando conhecimento desse fato para mim já está mais do que explicado o que está acontecendo com a criança. – O tom sério que a senhora adotava deixava claro que o problema não era tão simples. – Vejam bem, eu não sei o que se passa na vida de vocês, mas uma separação é sempre desgastante e dependendo da forma como as coisas são encaminhadas, irá sim interferir no processo de crescimento de qualquer criança.
– E o que a senhora nos sugere? – Perguntei para ela que pareceu analisar o quê responder.
– Bom, nesse momento eu não sou a pessoa indicada para responder essa pergunta, porém existe alguém que vai poder ajudar.
Eu e Nathalia voltamos a nos entreolhar e depois voltamos nossa atenção para a senhora que a essa altura já estava no telefone chamando por alguém desconhecido por nós. Não demorou muito para uma mulher adentrar a sala e só então fomos compreender de quem se tratava: a psicóloga da escola.
– Odeio o fato da minha vida estar sendo exposta dessa maneira para quem não conhecemos. – Sussurrei no ouvido de Nathalia enquanto a diretora da escola pessoalmente falava sobre a minha vida para a estranha à minha frente.
– Fica quieta Michelle! – Ela sussurrou de volta e ergui a sobrancelha indignada com aquela ousadia. – Se é para o bem dos nossos filhos vamos ter que enfrentar isso... – Ela me olhou de forma ilegível. – Juntas!
Que ótimo! Era só o que me faltava mesmo! A essa altura do campeonato eu precisar ser exposta para alguém que nem me conhece. Eu respeitava a profissão, mas fala sério, como alguém que não me conhece pode ajudar nos problemas da minha família? Ou pior ainda, como poderia ajudar nos meus problemas emocionais e sentimentais se nem eu compreendo minha cabeça? Aquela situação era o que eu classificava como uma verdadeira perda de tempo e exposição desnecessária.
Fiquei emburrada de braços cruzados apenas observando-as.
– Bom, tomando conhecimento do que está acontecendo, como profissional o que posso aconselhar é uma terapia familiar – A psicóloga falou me deixando inquieta. Nathalia sabia que aquilo nem de longe seria algo bem aceito por mim e talvez por isso sem perceber segurou minha mão tentando transmitir segurança. – Eu vou pessoalmente cuidar do Gustavo dentro do ambiente escolar, mas vocês como mães devem ter esse mesmo cuidado em casa. Se vocês estiverem de acordo podemos fazer algumas seções aqui mesmo junto com as crianças, mas aconselho que tenham os mesmos momentos apenas as duas, pois existem coisas que não podemos conversar na frente deles.
Fiquei completamente atordoada com aquela conversa. Uma parte de mim sabia que aquele seria o caminho certo para ajudar meu filho, mas outra parte não sentia-se confortável com o rumo que as coisas estavam tomando.
Nathalia finalizou aquela conversa acertando quando iniciaríamos com as tais seções e eu só pensava que essa seria só mais uma parte da separação que me traria desconforto.
Saímos juntas daquela sala e seguimos para o estacionamento em silêncio.
– Não fica com essa cara emburrada. – Nathalia falou suavemente e a encarei. – Pensa que vais ser algo bom para as crianças. Nesse momento não trata-se mais apenas de nós duas, nossos problemas e sentimentos, mas sim deles dois.
Coloquei as mãos nas têmporas que teimavam em latejar, seria demais pedir um dia de paz?
– Eu preciso ir Nathalia.
Falei tentando não ser grossa, ela de fato estava certa e eu não poderia descontar nela uma raiva que pertencia somente a mim. Abri a porta do carro e ela tomou a frente fechando-a para mim.
– Pense no que te falei e qualquer coisa que precisar você conhece o caminho de casa.
Observei-a afastando-se do carro e senti um nó na garganta, e mais uma vez apenas fui deixando-a para trás. Será que esse era o meu destino? Sempre deixar para trás quem prometi cuidar para sempre?