FLÁVIA
Convencer o Dimitri a viajar não foi uma tarefa fácil, convencer o meu pai foi mais difícil ainda, mas aqui estamos, em Madrid.
O apartamento é muito bem localizado e a decoração é elegante e intimista. Adorei.
Assim que deixamos as malas no hall de entrada, Dimitri foi até a sacada, que se divide após a sala por portas de vidro que permitem uma iluminação natural intensa e revigorante no interior do apartamento.
Após passar pelas portas, ele escorou no parapeito. Estamos na cobertura e isso nos dá uma boa vista da cidade. Fui atrás dele e, parada atrás de seu corpo, apoiei meus braços em seu ombro esquerdo e olhei para a cidade, assim como ele. É uma cidade digna de se admirar.
— Fará bem para nós. Você vai ver.
Ele não disse nada.
— Entrei em contato com uma amiga. Para sair um pouco e redescobrir a cidade.
Já morei alguns meses em Madrid. Foi tempo suficiente para fazer algumas amizades.
— Não tô com clima para festa. — fala rouco e grave.
Ele anda assim. Sério. Tão sério que até o tom da sua voz mudou.
Sinto falta do Dimitri de antes, mas sei e respeito o que ele está passando. Nada disso é atoa.
— Não é festa. É só uma reunião com amigos. Não vamos ficar trancados nesse apartamento, por mais que ele seja extremamente confortável.
Ele balançou a cabeça, concordando comigo.
— Vou guardar as roupas. Quer vinho?
— Já deu tempo de encontrar uma garrafa de vinho?
— Claro! A pequena adega está de cara para quem passa pela porta do apartamento. — apontei e voltei para a sala.
Era uma pequena adega feita de madeira, que não fazia nada além de servir para manter as garrafas de vinho na inclinação correta para o envelhecimento.
Escolhi um deles e levei para a cozinha. Depois de nos servir, puxei a primeira mala a ser desfeita até o nosso quarto. E que quarto! Uma cama bem larga, cômodo espaçoso, com closet e um banheiro enorme.
Tia Stefania tinha razão. Esse lugar é muito bom!
A arrumação foi demorada. Eram quatro malas com coisas minhas e do Dimitri. Terminei quando já era noite e me arrumei para sair com a Daniela. Minha amiga de Madrid. Ela está animada em saber que estou aqui e como também está namorando e sabe que estou comprometida, podemos ter um bom passeio de casais.
Usei um vestido de lurex cinza. Ele brilha muito e chama a atenção por causa disso, mesmo sendo pouco decotado e nem muito curto. Arrumei as alças finas em meus ombros e modelei meus cabelos enquanto Dimitri tomava o seu banho.
— Já ligou para os seus amigos? — perguntei em frente ao espelho.
— Para ser sincero, saí daqui corrido por conta dos vários problemas que arranjei. Perdi o contato com os amigos que tinha. — ele apareceu com uma toalha enrolada no quadril.
Tão gostoso!
Sorri para ele. Tenho tentado arrancar sorrisos de seu rosto e trazê-lo para fora do abismo que a morte do tio Giuseppe o levou. Ele não anda de todo relutante. Ainda temos momentos bons e carinhosos. Só não é como antes. Acho que vai demorar para voltar a ser.
Ele veio até mim com um pequeno sorriso e me abraçou assim que afastei a modeladora. Beijou a minha cabeça.
— Você é maravilhosa. Tenho tanta sorte. — levantou o meu rosto e eu não escondi o sorriso por ouvir esses elogios. — Desculpa por estar atrapalhando o tempo que deveria ser feliz.
— Você não está atrapalhando nada. Essas coisas levam tempo e desde que estejamos juntos sem brigas e tentativas de homicídio, já é um tempo feliz.
Desta vez ele deu uma boa risada. Parece que tenho que lembrar do caos que foi o início do nosso relacionamento para fazê-lo rir.
— Essa fase já passou. Nada vai atrapalhar o nosso relacionamento, não é?
— Não. Se tentar eu mato.
— Eu também. — beijou uma última vez a minha cabeça e se voltou para a prateleira onde arrumei nossos produtos de beleza e cuidado.
[•••]
— Que coincidência! — me espantei ao descobrir que o namorado de Daniela era simplesmente um dos amigos do Dimitri. Leon. Tem a cara de babaca Dimitri carregava antes de estarmos juntos. Devem ter aprontado horrores nesta cidade.
— Pois é! Agora podemos sair todos juntos. — Daniela me deu mais um abraço e o cheiro forte de flores de seus cabelos castanhos consumiram minhas narinas e me embebedaram. Seria bom se não fosse não forte. Suspeito até que ela derramou o frasco de perfume nos cabelos.
— Tem mais gente vindo. Eu tomei a iniciativa de chamar outro amigo meu. — Leon avisou.
— Eu também chamei uma amiga. — Dani contou. — Na verdade, ela perguntou o que iríamos fazer hoje e eu fiquei sem querer mentir. Mas ela é legal. Vocês vão adorar.
— Tá bom. — olhei para Dimitri e dei um pequeno sorriso. Ele reproduziu a minha expressão. — Vamos tomar alguma coisa?
— Vamos.
O lugar era um barzinho de iluminação baixa com decoração vintage, localizado há alguns quarteirões da minha casa.
Pedimos uma bebida criada pela própria casa. A base de conhaque com frutas levemente azedas e no fundo adocicadas. Era uma bebida para saborear. Eu particularmente gostei. Dimitri começou a conversar com Leon e eu bati um papo com a Dani.
— Faz anos que não nos vemos!
— Sim. Mais de cinco anos, suspeito. O que aconteceu com as outras? — fiquei curiosa. Nós andávamos em bando.
— Algumas se casaram, tiveram filhos, outras foram morar em outros países.
— E você ficou.
— Você sabe. Eu nunca deixaria essa cidade. Adoro o clima, tudo.
— Leon é daqui? Há quanto tempo estão juntos? — um sorrisinho escapou de meus lábios e ela também sorriu. Parece bem apaixonada.
— Faz dois anos entre términos e voltas. Estamos pensando em morar juntos, mas ainda é um passo muito grande no relacionamento. Não acha?
— Sim. Eu e Dimitri estamos morando juntos faz algumas semanas. O meu pai só quer matá-lo por ter me tirado de casa, mas eu já me acostumei. — contei animada.
A única coisa que não nos deixa mais feliz é o luto, mas se não fosse isso, acho que estaríamos nos divertindo muito entre quatro paredes.
— Telma chegou. — ela avisou olhando para a porta e vindo em nossa direção estava uma morena peituda, com lábios extremamente avantajados por procedimento estético.
Os rapazes, assim como 90% das pessoas que estavam no bar olharam para ela.
E ela cumprimentou o meu namorado primeiro.
— Dimitri! Quanto tempo!
Se conhecem!
Eles deram um rápido abraço. — Tudo bem?
— Estou ótima. E você? Como vai?
— Estou ficando.
Leon, que carregava nos lábios um sorriso babaca, também a cumprimentou. Foi aí que Daniela a trouxe até nós e nos apresentou.
— Telma, essa é a minha amiga Flávia. Flávia, essa é a Telma. Tem sido o meu ombro nas noites de tormenta.
Ou seja, melhores amigas.
— Tudo bem? — estendi a mão e trocamos beijos no rosto.
— É um prazer. — ela abriu um grande sorriso de tecla de piano. Ela é mais baixa do que eu.
— Quer uma bebida? — Dani perguntou.
— Quero sim. — ela se animou e foram as duas até o balcão. Fiquei ali perto dos garotos e Dimitri me puxou e me abraçou, beijando a minha cabeça.
Ele não parece tão triste depois que reencontrou o amigo.
Elas demoraram um pouco e eu as vi conversando do balcão.
— Então você é a sortuda que domou o Dimizão, foi? — Leon era mesmo um bobalhão.
— Foi.
— Nem precisou de muito. A mulher me colocou na coleira facinho.
— Aham. — Encarei meu namorado e sua cara de p*u. — Quer um lustra móveis não para passar na sua cara de p*u?
— Por que? Eu era completamente apaixonado por você. Você que não me queria.
— Você era um babaca.
Ele apertou o meu pescoço com o braço e beijou a minha cabeça.
— Ramon! — Leon exclamou, fazendo um turbilhão de memórias relacionadas a esse nome reacenderam na minha mente. Memórias nada românticas. Apenas memórias que eu preferia não me recordar, mas tendo um namorado como o Dimitri, me preocupam.
Quantos Ramon existem em Madrid?
Estiquei o pescoço e era ele. Em carne e osso. O Ramon com quem tive um rolo que acabou muito m*l por causa das bobagens que esse i****a adora falar. Independente da idade que tem, pelo sorriso irritante, vejo que ele não mudou nada.
Os rapazes o cumprimentaram e ele falou comigo como um conhecido.
— Tudo bem?
— Estou bem. E você?
— Melhor agora.
Pelo visto ele não interpretou a aproximação calorosa entre mim e Dimitri como um suposto relacionamento amoroso.
— Parece que todos se conhecem. — Leon se divertia com isso.
Daniela não sabe escolher namorado e o Dimitri sabe escolher amizades tanto quanto eu selecionava os caras que ficava há seis anos atrás.
As meninas voltaram. Elas cumprimentaram o Ramon e eu fiquei perto delas, rezando para não ouvir nenhuma babaquice desse venta-de
-panela-de-pressão.
Passamos do primeiro drink para o segundo e o terceiro, até que Telma foi ao banheiro e Daniela me puxou de lado.
— Amiga, eu descobri uma coisa. Não sei se você vai ficar confortável.
— O que? Tô menstruada? A minha roupa está manchada? — tentei ver a minha b***a, mas não deu.
Ela riu. — Não. A Telma me contou que já ficou com o Dimitri.
Ergui minhas sobrancelhas surpresa. — Sério?
Meu coração bateu forte em alerta.
— Sim. — ela mordeu o canto do lábio.
— E isso faz quanto tempo?
— Foi no tempo em que ele morava aqui.
— Ah. — o assunto se tornou sem importância imediatamente. — Então não faz diferença. Eu achei que tinha sido pouco tempo antes de estarmos juntos ou que ele tinha me traído com ela.
— Você não se importa? Porque eu chamei sem saber.
— Não.
— Não tem ciúmes? Amiga, eu teria. Não confio em homem nenhum.
— Eu confio no meu homem. Depois de mim, acho difícil o Dimitri querer outra mulher. — tomei um gole da minha bebida e ela ficou rindo.
— Eu não confiaria desse jeito no Leon.
Claramente Dimitri e Leon são diferentes.
[•••]
DIMITRI
— Dimizão. — Leon me chamou na frente do bar. Eu saí para tomar um ar, mas o seu cigarro atrapalhou a pureza da ventilação natural.
— O que foi?
— Cê já conhecia o Ramon?
— Não. É a primeira vez.
— E a sua garota já te falou sobre ele?
— Não. Ele não parece ter muito significado para ela.
Da mesma forma que Telma não tem para mim.
Ele riu com o cigarro na boca e depois exalou a fumaça pelo nariz. — Cara… ele me contou umas coisas que me deixou um pouco preocupado. Sei que você é esquentado, por isso eu te aviso. Ele às vezes é um pouco babaca. Não liga para as indiretas dele não.
Eu não tinha me importado antes, mas pelo andar da conversa, parece que tem algo que eu preciso saber.
— O que ele andou falando? — cruzei os braços. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro. — Começou, agora termine.
— Ele gosta de se gabar. Quando estávamos fumando um baseado agora a pouco, ele me contou que já ficou com a sua mina. Que fodeu todos os buracos dela e botou pra mamar até gozar na garganta dela.
Cerrei os olhos e descruzei os braços também cerrando os punhos.
— Você tinha razão. Eu sou esquentado demais para ouvir essas coisas. — voltei para dentro do bar e fui direto na minha namorada. — Flávia, vamos embora, agora. — segurei seu punho.
— O quê? Por que?
— Vamos antes que eu perca o controle e faça alguma merda.
E certamente faria se esse i****a que gabou tais sacanagens aparecesse em minha frente neste meio tempo.
Abri a carteira e deixei uma nota suficiente para pagar o que consumimos e mais um pouco. Deixei na mesa das meninas. Elas pareciam confusas com a minha ideia, mas Flávia não relutou. Se despediu rapidamente e eu fiz o mesmo, mas de longe, então saímos da boate.
Já vi que esse tempo em Madrid não nos trará tanta paz como minha namorada imaginou.