A ordem da série está no início do primeiro capítulo.
DIMITRI
Uma tragédia aconteceu na nossa família e é tudo culpa minha. É culpa minha que o meu pai morreu, porque ele estava na minha boate, cuidando das minhas coisas, dos meus negócios enquanto eu me divertia com a minha namorada, foi a p***a da minha boate que explodiu.
Fiquei desolado. Sinto meu coração se desmanchando em culpa e só queria uma coisa: poder voltar no tempo.
Flávia arrumou as nossas malas chorando, eu nem tive forças para fazer mais nada além de comprar as passagens para voltar à vila do sol.
— Encontrei um voo que sai daqui a 3 horas, mas é de classe econômica.
— Nem ligo, Dimi. O importante é chegar logo em casa. — sua voz está anasalada.
Meu pai sempre me ensinou a ser forte e não derramar uma lágrima sequer. Imagino que agora ele estaria desapontado comigo, pois já derramei muitas lágrimas, chorando a sua perda.
Troquei de roupa, Flávia também, pegamos as nossas coisas, passamos pela recepção do hotel para devolver a chave e pegamos um táxi para o aeroporto. A nossa viagem durou menos de uma semana e eu achei que finalmente a nossa família estava vivendo a paz. Sem brigas com os Callalto, sem os Petrov. Os outros inimigos recuaram. Ninguém ousa um combate com os Lucchesi, mas de tudo o que já vivemos, por fim, o meu pai morreu num acidente na minha boate.
Um acidente doméstico. Thomas disse que a tubulação de gás estava comprometida e alguma faísca de fogo poderia ter causado a explosão. Levando em consideração que o meu pai adora um charuto e vez ou outra acende o isqueiro…
Isso tudo é um absurdo. A minha boate foi construída há quatro anos atrás. Pouco tempo para essas coisas estragarem.
Maldita arquitetura industrial. As tubulações ficaram à mostra. Mesmo assim, isso não deveria ter acontecido. Será que o meu pai não sentiu o cheiro de gás?
Um funcionário morreu na explosão. Me sinto tão culpado.
A minha mãe…
Pegamos o avião e o casal que viajou transando na primeira classe, voltou de luto na classe econômica.
Ao desembarcar, encontrei Thomas nos esperando. Ele está de terno e óculos escuros, cabeça baixa.
Talvez eu seja o mais fraco entre os irmãos. Abracei forte meu irmão mais velho e chorei.
Ele também me abraçou e respirou fundo.
— A culpa é minha.
— Não. Não é. Para de loucura.
— É sim, Thomas. Fui eu quem deixou ele no comando. Se ele não estivesse lá. — me afastei dele.
— O problema não foi o nosso pai estar lá, foi o acidente. Você não tem culpa de nada.
Ele e Flávia se cumprimentam.
— Vamos. A nossa mãe está esperando.
Coloco os óculos escuros e quando penso na minha mãe, choro mais ainda. Ela deve estar arrasada. Já passamos por tanto. Agora perdemos o nosso Dom, o patriarca.
Saímos do aeroporto.
— Tem certeza de que não foi armação?
— A polícia está investigando. Tem peritos… não existe nada que prove que foi uma armação. Eles mesmo falaram que foi um acidente doméstico.
— A boate passa por inspeção todo ano, Thomas.
Entramos na limousine e o chofer ficou de guardar as nossas malas. Sentei ao lado de Flávia e o meu irmão na outra ponta, de frente para nós.
— Não temos a quem culpar, Dimitri. Eles falaram que essas coisas acontecem.
— Por que você está tão conformado? — pergunto inconformado.
Ele tira os óculos e seus olhos estão marejados. — O nosso pai morreu, Dimitri. Você sabe o que significa isso? Nosso pai não era só o nosso pai, ele era o Dom. O acidente da sua boate será o menor dos nossos problemas de agora para frente. Não podemos mostrar fraqueza. É nessas horas que os inimigos tentam atacar. — explica friamente.
— Eu não vou deixar de sofrer pela perda do meu pai por causa da p***a da máfia, Thomas. Ele é o nosso pai.
Flávia segura o meu braço e me contenho.
Ele não deveria estar morto. É tudo culpa minha.
A viagem para a casa dos meus pais me deixa muito apreensivo.
A que ponto chegou essa explosão? Como o meu pai ficou? Eu não sei se terei coragem de olhar uma última vez para ele. Quero me recordar do seu rosto como o vi da última vez. Ainda me lembro da sua última frase.
"Cuide bem da Flávia. Você sabe tudo o que essa menina passou. E não se preocupe com a boate. Ela nunca esteve em mãos melhores".
Chegamos na mansão e vários carros estão parados do lado de fora dos muros, mas passamos por eles de limousine. O chofer para em frente a porta e o meu coração dispara com medo de encarar o resto da família em um momento tão triste.
Saímos do automóvel e Thomas seguiu em frente. Flávia segura a minha mão. Ela derramou lágrimas o caminho inteiro.
Entramos na mansão e de cara eu vejo a minha mãe, que aflita vem ao meu encontro e me dá um abraço apertado. — Meu filho, que bom que chegou. Eu fiquei tão preocupada.
— O meu pai, mãe. — aperto os olhos, com a cabeça deitada em seu peito.
— Sim. — ela afirma com a voz anasalada. — Nós vamos aprender a lidar com isso.
— Foi na minha boate, mãe. Eu falei para ele ficar lá.
— Não é sua culpa, Dimitri. — ela segura o meu rosto e me encara de olhos bem abertos. Tão forte. A quem puxei então? — Olha para mim. Não foi sua culpa. Não ouse dizer isso. Foi um acidente. Uma ironia do destino. Depois de tantas batalhas, uma merda de uma explosão. O seu pai deve estar zombando disso em algum lugar agora.
Rimos em meio ao choro e Damon se aproxima de nós. A minha mãe me solta e eu abraço o meu irmão.
Engulo o choro e passo a mão em meu rosto. — p***a. Primeiro a Andreia, agora o nosso pai.
— Ele tinha orgulho de você, Dimitri. De quem você se tornou. Disse que apesar de o seu puteiro ser sujo, funciona muito bem.
Quem estava na sala riu.
— Dimi. — Olívia puxou o meu braço e me abraçou. — Sei que o momento é difícil, mas tá tudo bem lá embaixo?
Ela faz isso para me fazer rir. Pior que eu entendi e ri.
— A amizade de vocês precisa ter limites.
— Tio Dimi. — Sophia vem até mim e entra no lugar da Olívia. — Onde você estava?
— Viajando.
— Com a baranga da sua namorada?
— Sophia! — a repreendo.
— Depois perde os lábios e se faz de vítima. — Thomas comentou.
— O papai sempre chama ela assim.
— O seu pai é um p@u no c.u. — Flávia piora as coisas e saí pela casa.
— Eu amo quando essa família se reúne. — Hernando comentou. — É tanto carinho e amor sendo distribuído. Tio Giuseppe deve estar comemorando por não fazer mais parte disso.
— Insensível. — minha mãe revira os olhos para ele. — Vamos resolver o que fazer. Temos um velório. E eu quero que o meu marido tenha a p***a do velório mais memorável dessa desse país. — ela acende um cigarro que suponho ser um baseado de macolha.
A família Lucchesi está em decadência. É isso que acontece quando não se tem mais o Dom.
— Thomas. — ela olha para ele e meu irmão mais velho toma a frente, junto com os meus tios.
Pelo que suspeito, os meus tios devem querer brigar pela sucessão do meu pai, mesmo sabendo das vontades do Dom Giuseppe. Nos últimos quatro anos, Thomas, que já era um pouco insensível, se tornou pior que Damon. Parece que trocaram de papel. Também, um perdeu a mulher que amava e o outro aprendeu a amar.
O fato é que se as coisas foderem dentro da família, também vão ficar fodidas por fora.
— Onde está o corpo do nosso pai? — pergunto a Damon.
— Eles estão o preparando para o velório. Pelo que Thomas disse, tudo será breve. A explosão não foi pequena.
— Não podemos vê-lo?
Ele balança a cabeça em negação. — Ficamos com a memória viva. Talvez seja melhor.
FLÁVIA
A morte do tio Giuseppe trouxe muita dor. Toda a família ficou abalada. Cada um da sua forma, é claro. Enquanto eu e Dimitri derramamos lágrimas, tia Stefania se enfiou em baseados, Olívia e Cecília estavam tentando se distrair com a renca de crianças, Damon estava tomando dose de whisky atrás de dose de whisky junto com nossos tios
e Hernando tentava deixar as coisas mais leves com humor.
Por um momento achei que Dimitri tinha entendido que não foi nada sua culpa. Foi um acidente. A droga de um acidente.
Mas ele está muito quieto. Pior é que quando estou perto dele, fico mais triste ainda. Sofro mais.
Olívia senta para conversar com ele e eu vou até a cozinha tomar alguma coisa. O resto do dia ficamos assim, todos tristes, esperando a hora da despedida. Os amigos de Dom Giuseppe apareceram para se despedir. São muitos. Muitos mesmo.
A minha mãe e o meu pai Pablo também chegaram.
Vieram falar comigo.
Minha mãe me deu um abraço. — Como você está, minha filha?
— Tô triste. Tio Giuseppe me ajudou tanto. Ele era uma das poucas pessoas nessa família de merda que me dava importância. — uma lágrima desceu dos meus olhos. — Se não fosse ele eu não saberia do meu pai biológico.
— É. Infelizmente isso aconteceu. Depois de tanta coisas que vivemos. Tantos combates, o Giuseppe morreu num acidente doméstico. — ela acendeu um cigarro.
Meu pai estava calado. Afinal, era o irmão dele quem estava morto. Mas ele me cumprimentou com um abraço.
— Sinto muito, pai.
— A vida é fodida mesmo. Vou tomar alguma coisa com meus irmãos. — se afastou da gente.
A minha mãe foi atrás da irmã dela e quem veio para perto de mim foi o Hugo.
— Então você é cria dos Callalto agora…
— Por que tá falando desse jeito? Acha que vai me meter medo, moleque?
— Acho que o meu tio anda um pouco desorientado. Se envolvendo com o inimigo.
Olhei para o moleque e ri. — Quando você ainda estava nos culhões do seu pai, eu já metia medo em muita gente.
— O meu pai será o novo Dom e acredito que ele não vai aceitar agente duplo na nossa família.
— Quando foi que eu tive medo do seu pai? Manda ele vir para cima de mim. — me afasto do moleque.
É cada uma…
Depois de um almoço silencioso, nos arrumamos para o velório. A família Lucchesi não vestia preto faz quatro anos e parece um déjà vu. O caixão do tio Giuseppe era preto, com detalhes em ouro. Do jeito que ele dizia que queria.
Não foi aberto.
Nessa hora o Dimitri fez igual a mãe dele. Usou drogas e calmantes. O silêncio em frente ao caixão do Dom perdurou até seguirmos para o cemitério. Toda a cidade apareceu, mas somente os mais próximos puderam se aproximar e ficar perto da sepultura.
Um padre veio para dizer as últimas palavras.
— Giuseppe Lucchesi sempre foi um homem muito respeitado na cidade e seu nome sempre será lembrado assim. A vida é passageira. Estamos aqui vivendo um tempo nesta terra. Um breve tempo em que podemos amar e viver muitos outros sentimentos. Mas existe muito mais além deste tempo. Não devemos nos apegar ao mundo. Giuseppe sempre soube disso. Que ele descanse em paz.
Passei a mão livre em meu rosto e continuei agarrada ao braço de Dimitri.
— Pai, honramos o seu nome e o sobrenome da nossa família. — Damon prometeu.
Jogamos as flores e vimos o caixão ser coberto. Por fim, ainda com muita dor, deixamos as coroas de flores ao lado da lápide.
"Giuseppe Lucchesi. Dom, marido, pai, avô".
[•••]
Duas semanas depois…
Dimitri mudou depois do que aconteceu. Ele não é o mesmo depois da morte do tio Giuseppe.
Ele não sai de casa, não quer falar com ninguém. Até comigo ele anda um pouco distante.
O convenci a visitar a casa dos pais dele. Sei que pode piorar, mas também pode ajudar, afinal, ele tem muitas lembranças da família neste lugar. Principalmente do pai.
Depois de muito resistir, ele aceitou a ideia. Dirigi até a casa da tia Stefania e ela nos recebeu até que bem, para o jeito que ela sempre tem.
De imediato ela percebeu que ele ainda não está bem.
Dimitri saiu pela casa, olhando os móveis e fotos e eu fiquei para trás com ele.
— Ele ainda não superou?
— Não. E ele ainda se culpa. Se culpa pela morte do pai e do funcionário. Eu já tentei falar com ele, mas ele sempre volta ao mesmo ponto. Sempre se culpando.
Ela andou pela sala e pegou uma garrafa de uísque. — Você quer? — perguntou colocando em um copo.
— Pode ser. — andei até ela e ela me entregou um copo com whisky.
— Esse era o whisky preferido do Giuseppe. Ele adorava tomar enquanto fumava os malditos charutos que ele e Damon comercializavam.
— Eu me lembro. — tomo um pouco e faço careta. Com um gelo ou água de coco ficaria melhor.
— Sabe… — ela foi para o sofá e eu fiz o mesmo, mas sentei em outro. — Depois daquele atentado que fizeram aqui em casa, eu encarei tudo como uma segunda chance. Quase perdi meu marido naquele dia. Se não tivesse sido tão rápida e matado os malditos, não teríamos ficado vivos. Então, nesses últimos quatro anos eu olhei para o meu marido me sentindo com sorte de tê-lo comigo. Não vou dizer que sempre foram mil maravilhas. Se meus filhos têm personalidades tão complicadas, não puxaram somente para mim. Não sei, mas de certa forma isso me ajudou a encarar a perda dele com mais força e conformismo. Acho que meus filhos não encaram da mesma forma.
— Há quatro anos atrás ou agora, no futuro, não estaríamos prontos para perdê-lo. Tio Giuseppe me ajudou muito. Ele segurou a minha mão quando eu estava perdida e me carregou por um caminho totalmente escuro e novo para mim. Se não fosse por ele, hoje eu não saberia quem é o meu pai biológico e mesmo que todos da família ignorem, para mim essa foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. Eu nunca fui tão amada como sou na casa do meu pai, pela minha família. Se não fosse ele, eu nunca saberia como é sentir isso. — meus olhos ficaram turvos e sequei minhas lágrimas.
Ela sorriu. — Ele também gostava muito de você. Já brigou comigo muitas vezes por sua causa. Quer dizer, pelo modo como eu te tratava. O mundo em que vivemos é complicado. Você sabe o que aconteceu nos últimos anos por causa de uma simples encrenca que um Callalto arranjou. Enfim… quando você for mãe vai entender.
Tomei um gole do whisky.
Que conversa estranha.
— Eu amo o Dimitri. Por mais que às vezes, principalmente quando está com o Hernando, ele seja um crianção, existe algo nele que a nossa família não costuma demonstrar. Sensibilidade.
Ela assentiu concordando comigo. — Dimitri sempre foi assim. É horrível vê-lo tão frio e triste.
— Eu não sei mais o que fazer. Achei que vir aqui ajudaria.
— Talvez ele precise se afastar de tudo. Quando ele tinha dezoito anos, o deixamos morar um tempo em Madrid. Foi um grande arrependimento, aliás.
— Eu lembro. — ri.
— Dimitri fez um inferno nas nossas cabeças. Era problema atrás de problema, mas ele tem muitos amigos por lá. Talvez seja bom para ele relembrar esse tempo. Desapegar um pouco dessa cidade e das coisas que aconteceram. Temos um apartamento. É simples. 100 metros, três suítes, na cobertura, mas pode ser bom para ele. Para vocês. Depois do pai, a pessoa mais próxima dele é você, então… — ela tomou o whisky.
Morar por um tempo em Madrid? Eu tenho alguns amigos por lá. Talvez possa funcionar. Acho que será bom estar no meio de pessoas que não são da máfia.