Não lembro de ter sentido meu coração bater tão forte quanto naquela noite. Talvez fosse pelo peso das palavras que Aidan havia me confiado, ou pelo toque de sua boca ainda queimando em meus lábios. Mas, no fundo, eu sabia: o verdadeiro perigo não estava no porão. Estava nos olhos de minha mãe.
E foi por isso que o mundo quase desabou quando ela quase nos pegou juntos.
Naquela tarde, minha mãe me mandou buscar lençóis no armário do corredor. Mas eu sabia que Aidan estava lá embaixo. Consegui ouvir o som metálico de ferramentas, os passos pesados contra o cimento. Meu corpo reagiu antes da mente.
Ao invés de seguir para o armário, desci alguns degraus, o coração descompassado. A porta estava apenas encostada. — Aidan? — chamei em sussurro.
Ele ergueu os olhos da sombra, os traços do rosto iluminados pela luz fraca que escapava da lâmpada pendurada. Por um segundo, apenas me observou, sem se mover. Mas então, como se não pudesse resistir, caminhou até a escada.
— Você não devia estar aqui. — disse, mas a mão dele já segurava a minha, me puxando para dentro.
Meu corpo se acendeu ao toque. O calor subiu pela pele, e em um instante, estávamos perto demais. A boca dele pairava a um fio da minha, e só o ar entre nós parecia capaz de me sufocar.
Foi quando a voz dela ecoou pelo corredor.
— Ivy?
Congelamos.
O sangue gelou em minhas veias. Minha mãe estava próxima. Tão próxima que bastaria mais um passo para nos encontrar.
Aidan soltou minha mão, recuando de imediato, os olhos cinzentos tomados por urgência. — Vai. — murmurou, quase sem som.
Corri escada acima, tentando controlar a respiração. Encontrei minha mãe parada diante do armário, braços cruzados, olhar desconfiado.
— O que estava fazendo? — perguntou, em tom duro.
Engoli em seco. — Procurando os lençóis… mas não achei.
Ela me encarou por alguns segundos longos demais. Depois, com um meio sorriso venenoso, respondeu: — Você anda demorando demais para tudo. Está se distraindo.
Assenti rápido, tentando não tremer. Mas por dentro, meu corpo ainda vibrava com a lembrança da mão dele.
Naquela noite, m*l consegui dormir. Cada vez que fechava os olhos, revivia a cena: o quase beijo, a interrupção, o risco. Se minha mãe tivesse descido mais um degrau…
Mas o perigo não me afastava. Me atraía ainda mais.
Dois dias depois, aconteceu de novo.
Minha mãe saíra para visitar uma amiga, e eu aproveitei a ausência como uma prisioneira que descobre a chave da cela. Desci até o porão, o coração acelerado.
Aidan estava sentado contra a parede, os olhos fechados, como se tivesse tentando afastar algum pesadelo mesmo acordado. Quando me aproximei, abriu os olhos devagar.
— Você gosta de brincar com fogo. — murmurou, a voz grave.
Sorri, ainda sem coragem de tocá-lo. — Talvez eu só esteja cansada do frio.
Ele fechou os olhos de novo, mas não afastou quando me sentei ao lado dele. O silêncio entre nós era diferente agora. Não sufocava. Era um fio esticado, pronto para se romper.
E foi nesse silêncio que escutamos o barulho da porta da frente se abrindo.
Minha mãe.
Aidan arregalou os olhos, puxando-me pela mão. — Vai. Agora.
Subimos as escadas às pressas. Eu m*l tive tempo de arrumar a saia antes de encontrá-la no corredor.
— O que fazia lá embaixo? — perguntou, com a frieza de sempre.
— Nada. — respondi rápido demais. — Só… procurei uma caixa velha.
Ela estreitou os olhos, estudando cada detalhe do meu rosto. Por um instante, achei que tivesse descoberto tudo. Mas, finalmente, apenas balançou a cabeça e seguiu em direção à cozinha.
Quando fiquei sozinha, percebi que minhas mãos ainda tremiam.
A cada aproximação, o risco aumentava. E, ao invés de nos afastar, parecia nos empurrar um para o outro.
Naquela noite, antes de dormir, deixei um bilhete diante da porta do porão. “Se não quer que eu entre, então venha você.”
Meu corpo ardia só de escrever aquelas palavras. Era provocação. Era desafio. E eu não sabia se teria coragem de encarar a resposta.
Na manhã seguinte, o bilhete havia sumido. Mas, no lugar, não havia nenhuma palavra. Somente o silêncio.
E o silêncio, vindo de Aidan, era sempre promessa.
Passei o resto do dia inquieta, tentando disfarçar da minha mãe, mas cada vez que cruzava o corredor, sentia como se o porão estivesse me chamando.
Na madrugada, acordei com o som da porta do meu quarto se abrindo. Meu corpo inteiro congelou.
Mas não era minha mãe. Era ele.
Aidan entrou em silêncio, a sombra dele preenchendo o quarto. Seus olhos cinzentos me encontraram no escuro, e em um instante, todo o ar pareceu sumir.
— Você pediu. — murmurou.
E naquele momento, percebi: nada mais poderia nos deter.