Episódio 6

1792 Words
O porteiro do prédio ficou encarregado de carregar os itens mais pesados, ele teve que subir e descer diversas vezes até que todas as caixas estivessem no apartamento. Só tivemos que carregar as malas, para isso usamos o elevador. Como as malas tinham rodas, não era uma tarefa árdua. O apartamento era pequeno, mas luxuoso. Assim que você entra se depara com a sala, que era composta por um sofá branco e uma poltrona da mesma cor, ambos decorados com almofadas cinza e turquesa. A mesa de centro, também branca, era adornada com um par de figuras prateadas. Em cada canto você encontra uma planta, a minha mãe era obcecada por elas. Desde que fossem sintéticas, porque ela era um desastre em jardinagem. Alguns metros atrás do sofá ficava a ilha da cozinha com três bancos altos estofados em tecido cinza macio. À noite era iluminada por pequenos holofotes circulares que nos espreitavam desde o teto. Como não poderia deixar de ser, os móveis da cozinha eram de designer. As cores cinza e branco deixaram o ambiente mais acolhedor. Na área da sala havia escadas de chapa metálica com grades metálicas. Eles levaram para os quartos. Enquanto a minha mãe agradecia ao porteiro com uma gorjeta generosa, arrastei parte da bagagem para meu antigo quarto. Como esperado, tudo estava como deixei. Foi até deprimente, parecia vazio, sem personalidade, sem nenhum dos meus pertences ali. O armário, as prateleiras, a escrivaninha... Tudo estava deserto. A cama estava vazia. Levei todos os lençóis, cobertores e colchas comigo no dia em que me mudei. O meu quarto era o menor. A minha mãe tinha o maior. Em sua defesa, ela morava com o meu pai quando compraram esse apartamento e a cama dela era enorme, como todas as de casal, e o quarto médio era para os hóspedes, porque mamãe sempre quis dar uma boa impressão. Durante a puberdade e adolescência eu reclamei, depois comecei a não me importar. Passei a gostar, era o meu cantinho. As paredes eram de cor creme. Quando eu tinha quinze anos, insisti em pintá-las de roxo, apesar das tentativas da minha mãe para me fazer ver a razão: um espaço pequeno deveria ter cores claras, as escuras apenas o tornavam menor. Aprendi essa lição logo depois. Aos dezessete deixei a minha mãe escolher a tinta, e desde então elas estão cobertas de creme. A base da estante ainda estava enfeitada com cestos de vime branco que não continham nada, e essa era toda a decoração do meu quarto. A cama ficava ao lado da janela. Lembrei-me que gostava de olhar as luzes da cidade e o céu por elas iluminado à noite. Elas me transmitiam calma e era uma visão linda. Suspirando, sentei-me no canto do colchão. Tinha muito trabalho pela frente e já não sentia o calor do café da manhã no estômago. Olhei para a porta quando ouvi os passos de mamãe se aproximando. — Eu vou te ajudar. Ela me garantiu, suspeitando do motivo da desolação que o meu rosto expressava. Ele sentou ao meu lado e colocou o braço em volta dos meus ombros. Minutos depois, começamos a trabalhar. Aos poucos, o quarto voltou a ser a mesma de antes. A minha mãe ficou encarregada de arrumar a cama. porque eu odiava essa tarefa. E eu me ocupava abrindo as malas para guardar as roupas no armário. Quando a cama foi coberta com um edredom branco e almofadas rosa, ela abriu as caixas e colocou as coisas onde elas pertenciam. Ela sempre me perguntava e eu dizia onde. Quando olhamos para o relógio já era hora do almoço. Terminei de arrumar as coisas que sobraram nesse meio tempo e a minha mãe desceu até a cozinha para fazer algo rápido no forno. Quando desci descobri que o nosso almoço consistiria de baguete com queijo e tomate. Eu adorava isso, às vezes o prazer estava nas coisas mais simples. Coloquei os copos e talheres para nós duas na ilha e subi no banquinho enquanto mamãe tirava o pão do forno. — Gosto de ter você aqui. Ela falou quando não sobrou nada no seu prato além de migalhas e eu devorei o último pedaço de pão. — Ainda não consigo acreditar, é como voltar no tempo. — Eu sei. Bebi água do copo sem saber mais o que dizer. No fundo, eu desejava que nada disso estivesse acontecendo, que Roberto não tivesse me deixado. Estar aqui era, como ela disse com razão, voltar no tempo. E eu não gosto dessas palavras. — O que você achou do Caleb? Novamente vi aquele olhar que reconheci nela pela manhã no hotel. Ela queria falar sobre algo, mas não ousou. Se ao menos eu soubesse que a conhecia tão bem quanto ela me conhecia, ou mais... — Amigável, educado. É muito cedo para dizer. Dei de ombros, sem querer apontar o quanto fiquei surpresa com o novo namorado dela. Normalmente ela não tinha tanto bom gosto. — Há algo que você quer me dizer? Vi na sua expressão que ela estava dividido entre fingir inocência ou confessar. Finalmente, ela optou pelo segundo. Ela bebeu água antes de abrir a boca para falar. — Você e Roberto terminaram... É definitivo? Eu automaticamente franzi a testa, fiquei tão surpresa com a pergunta dela. Embora eu esperasse que fosse relacionado a ela, não esperava essa pergunta específica. — O fato de estarmos colocando as minhas coisas no meu antigo quarto não significa nada para você? — O que quero dizer é que você é jovem. Os jovens de hoje pedem tempo e essas coisas modernas de hoje. Muitos deles acabam voltando a ficar juntos. Revirando os olhos, desci do banco e comecei a recolher os pratos. A minha mãe falava como se viesse de uma época distante, quando as pessoas não pediam tempo. Talvez em outros tempos isso não existisse ou não fosse possível, mas ela era jovem. Ela tinha quarenta e quatro anos. Só porque nunca lhe pediram tempo, não significava que as pessoas da sua geração não o fizessem. — Você quer sobremesa? Coloquei a louça na máquina de lavar louça esperando que ela entendesse a dica para resolver a questão. — Querida... Virei-me para ela tão rapidamente quanto me sentei depois de fechar a porta do lava-louça. — Não vamos voltar, mãe. Não dei a ele nenhum motivo para querer se separar de mim. Acabou, eu terminei com ele. Ainda me senti um pouco ridí*cula dizendo que fui eu quem rompeu o relacionamento. Quem eu estava tentando enganar? Foi ele quem me deixou, só não teve coragem de dizer isso em palavras mais diretas. — Eu também não entendo. Por causa de coisas assim eu sempre te disse que não gostava da ideia de você morar com ele sem se casar. E houve aquela conversa novamente. Eu não ouvia isso há anos. Quando contei a ele sobre a minha ideia de morar com Roberto após a formatura, ele me desaconselhou. Ela me disse que era melhor eu voltar para casa e esperar mais alguns anos até atingir uma idade razoável para me casar. Casar com ele teria sido o pior erro da minha vida. Abri a geladeira de porta dupla para bisbilhotar. Eu não estava com fome, mas comeria algo doce. Peguei uma barra de chocolate de amêndoa e quebrei várias pontas. Coloquei um na boca quando fechei a geladeira e deixei cair os ombros em resposta. Mas ela não iria me deixar fugir. Eu queria pensar que ela queria espremer esse assunto para nunca mais tocá-lo e transformá-lo num tabu. — Você acha que poderia haver outro motivo pelo qual ele queria mais espaço? Talvez você precise esclarecer ... alguma coisa. Ela falou devagar para que cada palavra fosse absorvida, e assim foi. Eu entendi perfeitamente o que ela queria dizer porque era nisso que eu me recusava a pensar desde o rompimento. Suspirando, descansei os meus braços no balcão da ilha na frente dela. — E se houver outra? Pode ser. — Essa é a única coisa que consigo pensar, querida, se você disse que estava bem. — Sim. Vejamos, havíamos caído um pouco na monotonia... Mas isso é normal. Procurei o olhar da minha mãe, querendo encontrar afirmação para isso. — Não é? — Bem claro. O problema surge quando alguns decidem sair sozinhos da monotonia... Ela franziu os lábios com uma cara cheia de decepção. Roberto sempre gostou de mim. E você tem ideia de quem é? Ele não está gostando de ninguém na academia? — Não notei nada de estranho nele. No trabalho, na academia... Ofereci um pedaço de chocolate para ela e ela aceitou. — Poderia ter acontecido em qualquer lugar. Passamos o resto da tarde no sofá com um cobertor macio sobre nós e assistindo filmes de terror na televisão de plasma. A minha mãe ficava nervosa com esse gênero, mas ela fez isso por mim. Ela entendeu que eu não tinha vontade de assistir nada relacionado a romance. Decepção após decepção. Porque os filmes de terror de hoje não eram assustadores, a noite chegou. Jantamos rapidamente e decidi subir para o meu quarto quando o telefone fixo começou a tocar e mamãe esclareceu que era Caleb. Depois do dia de trabalho, ele ligava para minha mãe. Foi o que ela me disse antes de responder ao namorado. Depois de um banho quente, coloquei o meu pijama e me enrolei nas cobertas da cama. Me senti estranha ao encontrar a paisagem do céu noturno e as luzes da cidade. Exalei com força pelo nariz, embaçando o vidro à minha frente e fechei os olhos, de onde logo as lágrimas escorreram. *** Não tive vontade de tomar café da manhã na bancada da cozinha, já estava vestida e maquiada como se não fosse sete da manhã. Mas os clientes não iam colocar suas gorjetas na mesa se eu estivesse com cara de morta. E não, eu não gostava muito de usar maquiagem, preferia deixar para ocasiões especiais para impressionar. Mas queria ficar bem. Era assim que era trabalhar diante do público. Bebi o resto do café de um só gole e saí do apartamento com as chaves nas mãos. Como já havia feito tantas vezes no passado, fiz o trajeto até chegar ao metrô. Fiquei animadA ao ver que muita gente saía para trabalhar naquela época, isso sempre acontecia comigo. O ru*im de morar com a mãe era que o trabalho agora estava mais longe, então eu tinha que acordar mais cedo. Morando com Roberto eu conseguia andar perfeitamente sem precisar de metrô. Roberto... Pensar nele me lembrou do estado dos meus olhos. Quando me olhei no espelho, encontrei eles inchados, como esperava vê-los. A maquiagem foi uma boa aliada para esconder isso.
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