— Meu Deus, mãe. Pensei ao notá-lo melhor. Eu não sabia que a minha mãe tinha tanto bom gosto, ela nunca tinha namorado um homem tão bonito. Apesar de ser sensato, quem não se apaixonaria por tal adônis? Mas eu não sou daquelas que aceita o namorado da minha mãe só pela aparência física.
— Karen, este é Caleb. Caleb, essa é minha filha. Ela nos apresentou com facilidade, como a especialista que já era nessas situações.
Querendo manter distância, estendi a minha mão para ele. Sim, fiquei impressionada com a aparência do homem, ele era o típico atraente de quarenta anos que chamava a atenção. Dei-lhe um sorriso amigável, tentando ser educada, e mesmo que eu tivesse aprovado, insisto: ele não me conquistaria com o seu físico. Na verdade, isso me deixou desconfiada. Esses caras não eram confiáveis, eram do tipo que ia de flor em flor.
Caleb apertou a minha mão com firmeza e delicadeza. A sua mão parecia forte e maior que a minha. Parecia quente ao toque. Percebi que o meu olhar estava fixo nas nossas mãos e ousei olhar para seu rosto para descobrir que ele estava com os olhos em mim sorrindo educadamente para mim. Soltei a mão dela lentamente para não parecer rude. Que dia*bos! Desde quando eu me importava com o que os pretendentes da minha mãe pensavam de mim? Sempre permaneci neutra. Beirando o ranzinza, até conhecer melhor a pessoa e decidir se ela merecia a minha simpatia ou não.
Nós três nos sentamos e Caleb notou os coquetéis quase vazios na mesa.
— Como regra geral, as bebidas são pedidas depois do jantar. Não serei eu quem me opor à quebra desse regulamento invisível. Esclareceu ele com um sorriso que fez a cor subir às bochechas da minha mãe. Um homem como ele não precisava de muito para fazer você corar.
Os seus olhos azuis brilharam de diversão quando ele chamou a atenção de um garçon para pedir um copo de uísque com gelo. Imediatamente imaginei um Caleb mais jovem, sorrindo maliciosamente com aquele mesmo olhar. Um bad boy, ele certamente foi aquele típico rebelde que parte o seu coração justamente quando você pensa que não pode viver sem ele. Pelo menos foi assim que imaginei ele vinte anos mais novo.
Nós três tivemos uma conversa trivial, sem perguntas, pela qual fiquei silenciosamente grata. Alguns namorados da minha mãe me bombardearam na primeira vez que nos conhecemos, numa tentativa desesperada de parecerem interessados em mim e ganharem a minha aprovação. Patético.
Durante a conversa alegre, tentei identificar a cor dos olhos de Caleb. Às vezes eles me pareciam cinza como um céu tempestuoso, outras vezes eu pensava que os via azuis como um par de águas-marinhas brilhantes.
Quase uma hora depois da reunião, Caleb pediu o cardápio para que pudéssemos ver a variedade de pratos que havia para o jantar. Apesar de estar extremamente aliviada por estar entretida com a minha mãe e o seu novo amor em vez de trancada naquele quarto de hotel, a memória de Roberto ainda estava presente e o apetite ainda não estava pronto para voltar. Não era muito reconfortante ver um relacionamento começar diante dos meus olhos enquanto o meu terminava, por mais feliz que eu estivesse por minha mãe.
Muito maduro, isso Karen.
......
Com os olhos semicerrados tentei me acostumar com a luz que saía da tela do meu celular. O quarto estava na completa escuridão, as grossas cortinas de veludo bloqueavam a luz.
Levei longos segundos para entender a que Roberto estava se referindo. A imagem que a minha mente projetou do urso esmagado e da televisão quebrada me fez fechar os olhos. Não fiquei arrependida, ele mereceu, mas a vergonha caiu sobre mim com todo o seu peso. Eu odiava pensar que agora ele devia estar se deleitando com o efeito que causou em mim. Eu, que raramente perdia o controle, me comportei como uma louca abandonada no dia anterior.
Achei que deveria estragar a festa de Roberto, caso ele estivesse realmente gostando da situação. Os meus dedos digitaram uma resposta e eu a enviei antes de me acovardar.
Ah, mas como eu gostei. Foi muito melhor do que qualquer orgasmo que tive com você.
Ferir o orgulho masculino era a pior coisa que você poderia fazer a um homem.
Mordi o meu dedo indicador esperando por uma resposta que nunca veio. Tomando o silêncio como uma vitória, saí da cama com um sorriso triunfante e abri as cortinas, permitindo que a luz do sol da manhã banhasse o meu rosto.
Trinta minutos depois de aproveitar para tomar banho e me vestir, estava sentado em frente a uma mesinha redonda com o café da manhã que havia sido trazido para meu quarto. Dois croissants e um café preto eram o que eu precisava para me sentir mais positiva. Eu estava dando mordidas no croissant macio e crocante que esquentava a minha mão quando ouvi uma batida na porta. Levantei-me para verificar se era minha mãe. Eu estava prestes a perguntar o que ela estava fazendo aqui quando me lembrei que eu mesmo lhe dei o número do quarto onde ficaria depois do jantar.
— Você acordou, graças a Deus. Foi a primeira coisa que ela comentou e isso me fez levantar as sobrancelhas.
Embora fosse verdade que eu acordava por volta do meio-dia quando morava com ela, também valia a pena ressaltar que eu era anos mais jovem e tinha uma vida mais tranquila. Além disso, eu só poderia fazer isso nos finais de semana.
— Bom dia para você também, mãe.
— Falei isso porque temos bagagem para levar para casa, não tive a intenção de ofender. Ela esclareceu. Ela entrou no quarto, deixando a porta fechada atrás dela. A expressão dela tornou-se maternal, eu sabia que ela iria me dizer algo para aliviar a minha dor pós-término. — Como está o céu? Você teve uma noite ru*im? Você deveria ter vindo comigo...
— Estou melhor do que bem. Impedi ela de tirar conclusões por si mesma. — Olha o que me trouxeram, eu teria perdido o melhor croissant do mundo. Levantei o pãozinho sob o olhar desconfiado da minha mãe. Não era mentira, os croissant desse hotel eram uma delícia. E eu não ia desperdiçar dinheiro, já tinha pago tudo isso.
É verdade que ninguém poderia se dar ao luxo de passar uma noite nesse hotel, nem eu. Usei as poucas economias que havia reservado para as férias de verão no exterior com Roberto. Eu não ia precisar mais delas e, porque me enganar, passar uma noite nesse quarto me animou um pouco.
A verdade é que morar com alguém me ajudou muito. Tive formação: formei-me fisioterapeuta, mas não foi fácil encontrar trabalho. Atualmente, servia café e doces numa cafeteria. Esse salário, ao contrário do que diziam os livros juvenis de hoje, não era suficiente para viver sozinha. Seria impossível para mim sobreviver o mês inteiro com aquele salário ru*im para pagar aluguel, contas, alimentação, etc. Percebi isso logo depois de me formar, quando fui morar com Roberto e comecei no café. Durante toda a faculdade morei no dormitório feminino, não porque estivesse em outra cidade, mas porque desejava ser independente. Queria me sentir adulta saindo da casa onde morei com a minha mãe durante anos.
Agora que tive essa liberdade, não me importei de voltar. A companhia da minha mãe era plácida.
Nós duas nos sentamos enquanto o café da manhã terminava. Ela rejeitou o último croissant que sobrou e eu comi. Observe, enquanto pensava que o pãozinho poderia ficar melhor se fosse recheado com chocolate. Percebi que a minha mãe me lançava um olhar curioso de vez em quando, como se quisesse me contar ou perguntar alguma coisa. No final, ela não fez uma coisa ou outra, mas eu sabia que ela faria quando achasse adequado.
Um mensageiro nos ajudou com a bagagem, ganhando uma gorjeta da minha mãe.
Agora é dirigir até o apartamento onde eu morava desde tempos imemoriais, quando todas as caixas e malas estavam no porta-malas do meu Alfa Romeo Giulietta, tão vermelho quanto o batom que cobria os meus lábios.