Tirei os sapatos enquanto corri para o banheiro e rapidamente me livrei das minhas roupas. Peguei dois sabonetes na pia e coloquei uma toalha no chão para não escorregar mais tarde. Liguei o chuveiro e esperei que saísse morno. Entrei no chuveiro e esfreguei o sabonete por todo o corpo. O outro, esfreguei a minha cabeça. Isso demorou um pouco, porque eu tinha o cabelo muito comprido. Enxaguei tudo bem e rapidamente. Me sequei com uma grande toalha branca e caminhei até as caixas, tomando cuidado para não cair. Ainda estava molhada. Fui examinando uma por uma até encontrar aquele que continha as roupas. Tirei cuidadosamente um dos vestidos longos. Coloquei ele na cama para revisá-lo criticamente. Depois de muito pensar e observar bem, decidi que era aceitável. Não estava tão enrugado quanto eu temia. Peguei o meu secador de cabelo em uma das caixas e voltei para o banheiro. Quinze minutos depois, o cabelo estava quase seco. Pensei em alisar com chapinha, mas ainda tinha que me maquiar e não teria tempo. Eu bufei. O meu cabelo era liso, exceto nas pontas. As pontas eram onduladas. Eu preferia que tudo ficasse liso, mas o meu tempo estava acabando. Tirei das caixas a maquiagem necessária que serviria para aperfeiçoar os traços do meu rosto. Depois de passar o rímel, voltei para pegar o vestido rosa que havia escolhido. Nem a maquiagem nem o vestido que escolhi para a ocasião combinavam com o meu estilo, mas tinha que estar assim, porque estava indo num lugar chique e, para dar mais pressão, ia conhecer o namorado da minha mãe. Eu não queria me destacar dela usando uma cor chamativa.
Depois de calçar os saltos, verifiquei a hora. Dez minutos para as nove e meia. A minha mãe já devia estar lá e eu não gostava de deixá-la esperando, então, peguei a minha bolsinha para colocar o cartão do quarto, o dinheiro e o celular. Desci de elevador até o térreo, onde ficava a recepção e o restaurante. Caminhei com passo firme até o bar, experimentando na minha cabeça os discursos para contar para minha mãe que depois de tantos anos eu estava solteira.
Tal como eu esperava, uma mulher vestida de vermelho estava no bar. O seu rosto era gentil e a sua expressão serena. A sua pele era bronzeada e o seu cabelo era liso e loiro. Quando me aproximei dela, um sorriso se formou nos meus lábios. Ninguém diria que éramos mãe e filha. Não éramos nada parecidos.
Embora eu estivesse ao lado dela, ele não percebeu a minha presença. Era sempre a mesma coisa, ela não tinha noção.
— Olá, mãe. Eu a cumprimentei para ela me notar.
Ela, surpresa, virou o corpo para mim.
— Filha, eu não tinha te visto. Ela admitiu, como se isso nunca tivesse acontecido com ela.
Demos um pequeno abraço uma na outra e eu suspirei.
— Onde está o cara? Perguntei quando vi que ela não estava acompanhada até agora.
— Marquei com ele às dez. Queria ficar a sós com você por alguns minutos. E Roberto?
— Podemos sentar? Perguntei mais sério.
— Claro. Agora o seu rosto parecia preocupado.
Pedimos dois coquetéis de morango e sentamos numa mesa com quatro cadeiras para quando o sortudo chegasse.
— Aconteceu alguma coisa com Roberto? Ela pergunta.
Tomei um gole do meu coquetel e enfrentei o que tinha que enfrentar.
— Roberto e eu decidimos tirar um tempo.
— Oh, meu Deus. A minha mãe cobriu a boca com a mão, em estado de estupor.
— Na verdade, ele me pediu um tempo. Eu confessei. — E eu deixei o apartamento.
Para mim, um silêncio eterno caiu entre nós. Suspirei e olhei para as pessoas ao meu redor, esperando que a minha mãe assimilasse a informação.
— E como você está, querida? Ela se recompôs ao perceber que não estava me ajudando com aquela reação.
— Eu me sinto traída. Suspirei novamente. A conversa estava me ocupando mais do que eu pensava. Pela primeira vez, eu queria conhecer o parceiro da minha mãe para não precisar mais falar sobre o meu relacionamento fracassado.
— Quando foi isso?
— Ontem.
— Ele te contou o motivo?
Neguei antes de responder.
— Só desculpas.
A minha mãe deixou cair os ombros e recostou-se.
— Sinto muito, Karen... Com a expressão que ela tinha, não havia dúvidas na minha mente. Ela realmente sentia isso. — Mas não se preocupe. Você é muito jovem. Mais virão e melhores.
E pior... Mas eu não diria isso a ela. Eu deixaria ela me confortar do jeito que ela gostava.
— O que vai acontecer com o apartamento? Ela perguntou de repente, como se não tivesse escutado antes, que eu deixei o apartamento.
— Eu disse para ele ficar com ele. Eu não quero morar lá.
— E onde você vai ficar?
— Ainda não sei. Esta noite ficarei neste hotel.
— De jeito nenhum. Disse ela com determinação, endireitando-se novamente. — Você ficará comigo. Amanhã vamos pegar as suas coisas e...
— Não, eu já os recolhi antes de vir. Elas estão no meu quarto. Já paguei para ficar hoje aqui.
A minha mãe tocou o queixo, pensativa.
— Mas amanhã eu venho te buscar e te levo para casa.
Fiquei comovida pelo fato de ela ter dito casa e não a minha casa. Eu era filha dela, afinal. Ela nunca consideraria a sua casa como sua, mas como a nossa.
A minha garganta começou a doer por causa do caroço que se formou. Eu não estava particularmente sensível, mas hoje estava. Olhei para a mesa para conter as lágrimas e tomei um gole do coquetel para soltar o nó.
— Ok. Eu concordei calmamente. E... Engoli em seco, ainda me recuperando. — Como você conheceu esse homem? Eu precisava de uma mudança urgente de assunto.
— Eu não te contei? Ela perguntou confusa.
— Não sei. Você me conta tantas histórias...
— Bem. Ela me interrompeu gentilmente. Como já te contei há alguns meses, comecei a sentir um pouco de tontura. Claro que fui ao médico...
— Sim, eu me lembro. E descobriu-se que a tontura era devido à pressão, que estava um pouco acima do normal.
— Espere. Interrompi. — Você não pode estar falando de Phil.
Phil era nosso médico de família, e a minha mãe não poderia ter iniciado um relacionamento romântico com ele, poderia? Seria perturbador. O homem era casado e estava prestes a se aposentar.
— Karen! Claro que não! Ela exclamou entre sussurros e com os olhos bem abertos, escandalizada. — O homem se aposentou, você sabe que a saúde dele era delicada. Ela explicou, mais tranquila. — Quando fui ao consultório dele, outro médico me atendeu, que será o nosso médico a partir de agora.
— Mãe, Phil se aposentou e você não me contou nada até hoje? Eu a repreendi.
Eu conhecia aquele médico desde pequena, ele sempre foi o meu médico e eu gostava dele.
— Pensei ter te contado. Ela se desculpou.
Eu me impedi de revirar os olhos. As vezes que a minha mãe me ligava era só para falar de coisas triviais, mas ela nunca se lembrava das coisas mais importantes.
— O sortudo é o novo médico? Arrisquei, tirando as minhas próprias conclusões.
O sorriso bobo da minha mãe confirmou isso para mim.
— O nome dele é Calebe.
Apertei os lábios em concordância.
— Pelo menos ele tem um nome normal. Argumentei, lembrando-me da vez em que mamãe saiu com um homem chamado Tibúrcio. — Você não esqueceu do Tibúrcio, né? Eu nem sabia que esse nome existia até conhecer o cara. Comecei a rir baixinho quando vi o rosto hostil da minha mãe. — Você não sabe como estou feliz por aquilo não ter dado em nada. Acrescentei. — Não era segredo e a verdade que o Tibúrcio não era um bom partido.
— Eu não poderia estar mais de acordo. Concordou uma nova voz.
Olhei para o homem que havia se aproximado da mesa de costas para minha mãe, ela teve que virar a cabeça para olhar para ele e mesmo assim aquele sorriso digno de uma adolescente já estava no seu rosto novamente. Isso me deu a pista para me levantar, a minha mãe me imitou logo depois. Ele a cumprimentou com um beijo casto na bochecha, o que me pareceu educado. Outros não tiveram escrúpulos em comer a boca da mulher que me trouxe ao mundo na minha frente.