Sem lembranças

1080 Words
Deco Narrando Acordei com uma ressaca do carälho. Sério, parecia que minha cabeça ia explodir a qualquer momento. A boca seca, o corpo pesado, a mente ainda meio embaralhada do que eu fiz na noite anterior. — Tá maluco. — resmunguei, passando a mão no rosto. Levantei na marra e fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro no frio sem nem pensar duas vezes. A água bateu gelada no corpo e deu aquele choque que acorda até alma. Fiquei ali alguns minutos, tentando voltar pro eixo. Quando saí, me arrumei rápido. Não tinha tempo pra ficar se lamentando. Minha vida não funciona assim. Desci. A casa já tava funcionando. O cheiro de café tomou conta de tudo. Forte, fresco, daquele jeito que invade o nariz e já dá uma leve esperança de melhora. E era exatamente o que eu precisava. Café forte, um litro de água. E um remédio pra parar aquela martelada na cabeça. Entrei na cozinha e Maria já virou. — Bom dia, senhor. — Dia… — respondi arrastado. Sentei e já fui direto. — Tem comprimido aí pra dor de cabeça? Ela nem questionou. — Tem sim. Ela pegou o remédio, trouxe junto com um copo grande de água. Eu engoli na hora, sem frescura, e já puxei o café. O primeiro gole foi quase um alívio imediato. Fiquei ali quieto, tentando me recompor. Mas Maria não é de ficar calada muito tempo. — Senhor. — ela começou. Eu nem olhei. — Fala. — Se a Helena vai ficar aqui, ela precisa das coisinhas dela. Eu franzi a testa. — Que coisinha? Ela respondeu como se fosse óbvio. — Roupa, calçado, calcinha, tudo que uma mulher precisa. O senhor podia levar ela na casa dela ou comprar, coitada da menina. Aquilo já veio na hora errada. Minha cabeça latejando, sem paciência nenhuma. Levantei a mão na hora. — Fica quieta. Ela parou. Eu respirei fundo, controlando o tom. — Vou resolver isso. Fiquei alguns segundos em silêncio, pensando. Aí completei: — Enquanto isso, chama a Zélia. — Sim, senhor. — E tira tudo que é da Janaína dessa casa. Maria me olhou, surpresa. — Tudo? — Tudo. Apoiei o braço na mesa e falei mais firme. — Nem foto dela eu quero aqui. Quero que limpe tudo. Lençol, roupa, qualquer coisa que tenha o cheiro dela. Minha mandíbula travou. — Compra outro sabão. Outra pörra de produto. Nada que lembre aquela desgraçada eu quero dentro da minha casa. Maria só assentiu. — Sim, senhor. Peguei o celular e mandei mensagem pro Mingau. — Já arrumou a câmera? Ele respondeu rápido. — Já, chefe. — Então cola aqui depois. Vou sair com a garota e a Luna. — Fechado. Guardei o celular e voltei pro café. A cabeça ainda doía, mas já tava melhorando. Foi quando ouvi passos. Olhei pra porta da cozinha. A garota entrou. Com a minha filha no colo. E… carälho. A Luna tava arrumadinha, cheirosa, com o cabelo ajeitado. A menina tava bem cuidada. E a Helena, quieta, mas parecia mais firme do que ontem. Eu fiquei observando por alguns segundos. Sem falar nada. Só analisando. Porque no meu mundo é assim que vai funcionar. Cuidar da minha filha, cuidar do morro. É assim que eu tenho que seguir. Sem vacilar. Sem olhar pra trás. Mandei a Helena se sentar. — Senta. Ela obedeceu na hora, meio dura, meio sem saber onde colocar as mãos. Eu fiquei observando, mas logo chamei a Luna. — Vem cá, princesa. Ela veio toda animada, com aquele jeitinho leve que só ela tem. Estiquei os braços e peguei ela no colo, apertando, dando cheiro, sentindo aquele cheirinho bom que acalma até dia r**m. — Linda demais, minha filha. Ela riu, segurando na minha camisa, totalmente tranquila. Maria já tava se movimentando pela cozinha. — Helena, toma café. A garota levantou devagar, pegou uma xícara, colocou café e pegou um pão. Dava pra ver que ela tava meio sem jeito, como se qualquer movimento pudesse dar errado. Eu cortei o clima na hora. — Aqui você pode comer a hora que quiser. — Ela olhou pra mim, surpresa. — Não quero ninguém passando fome dentro da minha casa. Ela só assentiu, sem falar muito. Fiquei olhando ela comer por alguns segundos. Tinha algo ali, algo que eu ainda não tinha entendido. — Tu mora onde, garota? Ela levantou os olhos, encarando direto. — Santa Teresa. — Mora com quem? — Sozinha. Aquilo me chamou atenção. Sozinha. Balancei a cabeça de leve, absorvendo. — Depois do café, a gente vai lá pegar tuas coisas. Ela não discutiu. — Tá bom. Ficou por isso mesmo. Continuei com a Luna no colo, brincando com ela, enquanto Helena terminava de comer. O silêncio não era confortável, mas também não era pesado. Quando ela terminou, eu levantei. — Bora. Saímos da cozinha. Fui direto até a área onde deixo as coisas do carro. Peguei a cadeirinha da Luna e coloquei no banco de trás da Hilux. Prendi ela direitinho, ajustando tudo como tem que ser. — Fica quietinha aí, hein. Ela só riu. Helena entrou logo depois, sentando ao lado dela, meio protetora, meio perdida ainda. Eu dei a volta e entrei no banco do motorista. Girei a chave. O motor da Hilux rugiu forte, vibrando sob meus pés. Isso sempre me deu uma sensação de controle, de domínio. Meus vapores já tavam posicionados, fazendo a contenção, atentos a qualquer movimento. Nada ali era feito no improviso. Saímos. Descendo o morro. A estrada apertada, curva atrás de curva, o movimento começando a aumentar conforme a gente se aproximava do asfalto. Enquanto dirigia, minha mente não parava. Eu preciso saber mais sobre essa garota. Nome completo. Histórico. Quem é, de onde veio. Se tem alguém procurando. Se tem alguma coisa escondida. Porque no meu mundo, ninguém entra sem eu saber exatamente quem é. — Qual teu nome completo? — perguntei, sem tirar o olho da estrada. Ela demorou um segundo. — Helena… Eu esperei. — Helena o quê? — Helena Tavares. — Ela respondeu, ainda meio tensa. E eu só guardei. O suficiente pra puxar tudo depois. Porque o Mingau já tava agilizando. As câmeras já vão estar funcionando. E agora, com as informações certas, eu vou saber exatamente quem eu botei dentro da minha casa. Olhei pelo retrovisor. Ela ali, com a Luna, olhando pra minha filha. Quieta, Observando tudo. E eu só pensei uma coisa. O destino dela, agora tá nas minhas mãos.
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