—Conversamos? Como conversar com alguém enrijecido no seu conceito de mundo? Que não quer dialogar, apenas mandar e dominar?
Raed aperta as mãos.
—Por que resolveu fugir? Pensei que estava tudo resolvido entre nós.
—Sua namoradinha veio aqui.
Raed me estuda e então suaviza sua expressão.
—Entendo. Mas, pelo que eu saiba, ela só falou com Hamira.
Eu entendi tudo, no mínimo a governanta ligou para ele.
—Por isso correu para cá? Preocupado com que ela pudesse fazer?
—Não importa o que eu estou fazendo aqui.
— Não quero que se sacrifique por mim.
—Eu e Camily não temos mais nada.
—Pois não parece. Ela ficou chorando, disse que você terminou com ela sem explicações.
Raed ofega.
—Para te proteger. Por isso eu não disse nada para ela. Fora que a condição do nosso casamento é um tanto diferente.
—Raed, deixe-me ir.
—Não!
Eu me angustio.
—Você ainda gosta daquela garota. Como nosso casamento pode sobreviver se iniciando errado?
—Você está enganada. Eu me dei conta que não sinto nada por ela.
As palavras dele me ferem. Começo a me lembrar da maneira como o irmão dele me envolveu, como mascarou a verdade. Tecendo teias de sedução para me levar para a cama. E pensar que sonhei que eu e Zein desse certo. Não pensava em engravidar, mas ter um namoro normal, que evoluísse para o noivado e por fim o casamento. Uma fantasia, nascida da estupidez, como tantas outras que tive em relação a Zein.
Com certeza se eu tivesse me relacionado com ele por mais tempo, teria enxergado o homem que eu estava me envolvendo: um engano.
—Você e seu irmão são iguais. Você é frio, insensível. Eu odeio você.
Sinto uma ligeira satisfação de ver seu rosto se contorcendo.
—Diga-me uma coisa que eu não saiba. Agora, dê-me seu passaporte e vai para o seu quarto.
Fecho minha boca, lutando contra a vontade de dizer a ele que eu sou dona de mim mesma, mas eu estou me sentindo em frente a um predador e serei devorada caso pise errado.
Jogo o dinheiro para o alto que cai como confete. E atiro o passaporte no peito nu dele, e me odeio por acha-lo tão atraente. Quando vou passar por Raed, ele me segura pelo braço.
Ofego quando sinto o cheiro dele.
—Nos casaremos, você queira ou não. —Ele diz com o rosto perto do meu. O calor sobe pelas minhas bochechas quando sinto o seu hálito quente no meu rosto. Mordo meu lábio inferior, retendo palavras ácidas, ansiosas para sair.
Ele então diz calmamente:
—Você está confusa e a gravidez também deixa as mulheres mais emotivas.
Eu o encaro altiva.
—O fundo de tela do seu notebook está você e aquela mulher que você diz não sentir nada. Dentro de uma gaveta está o anel de noivado.
Raed ofega ele parece pronto a me falar algo, mas fica sem palavras. Eu tento me afastar dele, mas ele me segura.
—Espere. Aquele notebook foi ela que me deu quando o meu antigo pifou e veio com aquela foto. Faz tempo que eu não mexo nele. E o anel...eu comprei para você.
Eu o olho, desacreditada. Ele demorou muito para responder, mas digo, como se acreditasse nele:
—Está certo. Agora me solte.
Ele me solta e eu aperto meus passos e vou em direção ao meu quarto.
Raed
Ela sai do meu quarto deixando para trás um rastro de silêncio que grita dentro de mim. Um sentimento de impotência me consome, como se eu estivesse perdendo algo que nunca tive de verdade. Eu a mantenho sob o meu controle, mas seu coração... está tão longe quanto o horizonte de uma noite sem lua.
Não estava preparado para o que senti naquele dia no jardim. Quando a segurei em meus braços, o tempo pareceu pausar por um instante, me permitindo absorver cada detalhe dela. Tive a insana vontade de tomar seus lábios, de selar aquele momento com um beijo tão intenso que apagaria qualquer lembrança de outro homem em sua vida. Mas, claro, ela resistiu. Ela sempre resiste. E como poderia ser diferente? Há um abismo entre nós. Ela sofre pelo meu irmão, e agora, carrega um filho dele.
Allah, o que estou fazendo? Tenho errado em tudo?
Como posso me controlar quando estou ao lado dela? Cada vez que a vejo, minha razão desmorona, e sou forçado a buscar alívio em banhos frios e orações que não conseguem aplacar o desejo que cresce em mim. E agora... isso.
Se eu não tivesse voltado para casa hoje, Isabela teria fugido. FUGIDO! Essa ideia me deixa inquieto. Acreditei, ingenuamente, que ela tivesse aceitado seu destino. Mas a verdade é que ela luta contra ele... contra mim.
Nunca imaginei que sofreria por uma mulher. Mais inconcebível ainda é admitir que, de alguma forma, gosto disso. Não porque sou um homem que valoriza a dor, mas porque ela me desafia. As mulheres sempre foram receptivas comigo. Minha posição, minha riqueza, minha aparência sempre abriram portas – e corações – com facilidade. Mas Isabela... ela é diferente.
Desde que me formei, passei a buscar mais do que beleza ou admiração passageira. Mulheres que apenas refletiam o que queriam que eu visse não me interessavam mais. Comecei a desejar inteligência, profundidade, algo que desafiasse minha mente.
Encontrei isso em Camily. Ela era uma mulher forte, determinada, uma estudante brilhante que batalhava pelo seu espaço no mundo corporativo do pai. Eu realmente a admirei. Mas, mesmo com toda a admiração, algo sempre esteve fora de lugar. Parecia uma equação sem solução: inteligência + atração s****l ≠ amor verdadeiro.
Então, Isabela apareceu.
Quando começou a trabalhar para meu pai, algo nela chamou minha atenção. Tentei ser discreto, observando-a de longe, mas era impossível não ser impactado por sua presença. Troquei com ela poucas palavras, mas, de algum modo, senti que já a conhecia. Talvez porque meu pai me contou sua história: órfã desde os quinze anos, criada por uma tia solteira até conquistar sua independência.
Fiquei em choque. Uma mulher vivendo sozinha, sustentando-se sem ajuda de ninguém? Na minha cultura, isso é impensável. As mulheres aqui são ensinadas a ser submissas; poucas têm autonomia para pensar por si mesmas. Isabela era um paradoxo vivo: atraente por sua força, mas assustadora pela mesma razão.
Eu deveria ter vencido meu medo, deveria ter me aproximado. Em vez disso, fiquei distante, preso em meus próprios dilemas. Agora, enquanto esfrego os olhos, a melancolia toma conta de mim.
Meu celular vibra na mesa ao lado. O som me arranca dos pensamentos, e eu franzo a testa ao ver um número desconhecido. Aperto os lábios, imaginando que Camily tenha encontrado uma maneira de entrar em contato, mesmo depois de eu tê-la bloqueado.
— Quem é? – Atendo, o tom carregado de irritação.