Pare de me dizer que sou bom! Porque eu não sou bom, ouviu?!

1223 Words
Isabella As sobrancelhas dele quase se unem, a boca se forma numa linha quase reta, o maxilar fica tenso quando ele ouve do outro lado. Eu dou um tempo, mas a curiosidade é grande e me levanto, entro para dentro, me enveredando pelos cantos da casa. Raed está na sala de jantar, e mesmo à distância, sinto a tensão em seu corpo. — Camily, não insista. Eu vou me casar, está resolvido. — A voz dele está mais firme, mas, mesmo assim, posso ouvir o desconforto no tom. Ele se cala por um momento, e a pressão no ar aumenta. — E daí que vou me casar por causa da criança? Ela precisa de um pai, uma família normal que eu não tive. Foi meu pai que te pediu para me ligar, não foi? Não me liga mais. Eu vou bloquear esse número e todos que você usar para me ligar. Aliás, eu vou mudar de linha. Khara! — A última palavra sai entre dentes, como um veneno amargo. Eu fungo, respirando fundo enquanto me encaminho até a sacada. O vento parece me acalmar um pouco, mas as palavras de Raed ainda ressoam em minha mente. Ele é tão fechado, tão distante, e eu não consigo evitar me sentir como se estivesse mais uma vez do lado de fora, observando uma parte dele que ele não compartilha. Raed surge momentos depois, entrando pela porta de vidro, com uma expressão tensa e exasperada. Seus olhos são como lâminas afiadas, e ele parece mais um homem no limite de sua paciência. — Não faça mais isso. Não atenda por mim. — Ele diz, sua voz cheia de um tom autoritário que faz com que eu me sinta pequena, como se tivesse ultrapassado uma linha invisível entre nós. Eu respiro fundo, tentando processar tudo. As palavras ainda ecoam em minha mente, como se não houvesse um caminho claro à frente. — Não acha esse casamento um m*l começo? Essa sua ex, seu pai... — Eu digo, tentando entender as complexidades de sua vida, de tudo o que ele ainda carrega. Ele me corta com uma intensidade que não consigo ignorar. — Minha ex é passado. Esqueça meu pai, já disse. Relaxe, curta o momento! — A frase sai com um tom impaciente, mas algo na maneira como ele fala me faz perceber que há mais por trás de suas palavras. Ele tenta me fazer esquecer o que foi dito, como se fosse fácil enterrar o que se carrega dentro. Olho para ele, tentando entender o que há por trás dessa fachada imperturbável. Algo me diz que não estamos sequer começando a tocar na verdadeira profundidade de sua história. Raed Allah! Não quero algo imposto, forçado. Sei que minhas ações dizem o contrário, mas o que desejo é mais sutil, mais profundo. Eu posso aprisioná-la a mim, mas não posso forçá-la a me amar. A minha luta é contra a minha própria natureza, contra a urgência de querer tocá-la, de sentir a proximidade dela de uma forma que transcende o desejo físico. Preciso senti-la mais receptiva, sei que só assim poderei expor o quanto a desejo e, talvez, entender a natureza dos meus próprios sentimentos. Ela se ajeita na espreguiçadeira, seus olhos fixos em mim, como se me estudasse. Ela não sabe, mas isso me inquieta profundamente. — Você poderia dizer que perdi o bebê e então me ajudaria a sumir. Eu poderia recomeçar em qualquer lugar... — ela diz, sua voz suave, mas cheia de uma melancolia que me perfura o peito. Meu coração martela dentro de mim, batendo forte contra as minhas costelas, como se quisesse escapar. Olho para ela, e as palavras vêm de um lugar que eu não queria acessar. — Isabela, pare! Eu não farei isso. Esqueça! — minha voz é dura, mais firme do que eu gostaria, um reflexo do desespero que sinto em relação a ela. Não sou capaz de lidar com a dor que seus próprios pensamentos me causam. Ela se vira para frente, afastando-se emocionalmente, a frustração estampada em seu rosto. Eu respiro fundo, tentando me recompor. — Por Allah! Toda vez que penso que você finalmente está se dando conta de que eu sou a sua melhor opção, você me vem com essas mesmas falas? Por que você não nos dá uma chance? — minha voz se suaviza, mas ainda carrega a intensidade de uma emoção incontrolável. Eu só quero que ela veja, que ela entenda. Ela ainda está olhando para o horizonte, a distância entre nós aumentando a cada palavra não dita. — E eu me sinto como se o universo tivesse conspirado, e me armado uma cilada — ela diz, e suas palavras caem sobre mim como ácido, corroendo o que restava de paciência. A dor que suas palavras me causam é insignificante se comparada à maneira convincente com que ela fala. Minha fachada de tranquilidade, que eu havia cuidadosamente erguido, se despedaça diante dela. Eu travo meus dentes, e minha respiração se acelera, descontrolada. Passo a mão nos cabelos, um gesto instintivo de frustração. Ela se vira para mim, e é como se o mundo parasse por um instante. — Raed, não se ofenda. Eu sou-lhe muito grata, você já me ajudou muito no passado, quando participava das reuniões e traduzia para seu pai os termos técnicos que eu desconhecia. Sei que tem o coração bom, e a prova disso é que está tentando me ajudar novamente. Sei que se preocupa com essa criança. A ira começa a retorcer meu íntimo, e isso transparece no meu rosto. Meus olhos queimam com raiva, e, sem pensar, urro as palavras que me consomem por dentro: — Pare de me dizer que sou bom! Porque eu não sou bom, ouviu?! Isabela se assusta, e vejo o pavor em seus olhos, o reflexo de uma mulher que tenta manter o controle, mas que agora está prestes a desmoronar sob a pressão do que está acontecendo. Eu respiro fundo, tentando me recompor, me levantando em um movimento abrupto. Caminho até o parapeito, sem querer olhar para ela. Meus olhos se fixam no mar prateado pelo luar, as ondas batendo suavemente nas pedras, algumas embarcações iluminadas no horizonte. Tento me acalmar, mas está difícil. Eu estou nervoso. Nunca pensei que tivesse problemas para me expressar, mas agora me vejo preso em um nó, sem saber o que fazer com as palavras que não conseguem sair. Isabela aparece ao meu lado, mas eu não a encaro. Não sou capaz de fazer isso. — Raed, eu não quis te ofender. Eu só quero minha vida de volta. Eu a encaro agora, finalmente, como se ela fosse a resposta para uma pergunta sem solução. Um sentimento borbulha em meu peito — a amargura de vê-la se entregando tão facilmente ao meu irmão. Um homem que só queria se aproveitar dela, sem ao menos entender a profundidade do que ela representava. Ela não entende que eu só quero protegê-la? Quero lhe dar o melhor. Quero cuidar da criança como se fosse minha! Khara! Nunca precisei conquistar alguém, as mulheres sempre me foram muito propícias. Então por que ela, Isabela, me desafia assim? Finalmente, não consigo mais conter as palavras que me atravessam a garganta. Eu as solto, duras, como se o próprio ar que respiramos fosse insuficiente para a tensão que cresce entre nós.
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