O último dia do festival amanheceu sereno o tipo de serenidade que antecede os finais silenciosos.
O céu, ainda lavado da chuva da madrugada, parecia suspenso entre o azul e o branco. Um vento leve atravessava as janelas do pavilhão, trazendo consigo o cheiro agridoce de madeira, tinta fresca e café recém-passado. Era o perfume dos lugares que estão prestes a se despedir.
Lia observava o movimento lá fora, apoiada na moldura da janela.
Dançarinos caminhavam apressados, rindo nervosos, carregando figurinos coloridos nos braços. Técnicos ajustavam cabos, jornalistas corriam com câmeras, e crianças curiosas se debruçavam nas grades tentando ver o palco.
Do lado de dentro, o som metálico das estruturas se misturava ao burburinho de vozes, criando uma sinfonia viva de expectativa.
Ela estava calma, mas não era o tipo de calma que antecede o medo.
Era uma calma profunda, quase madura, dessas que só chegam quando o coração já se cansou de lutar contra o tempo.
Vestia uma calça preta justa e uma blusa branca leve de algodão. O cabelo, preso em um coque frouxo, deixava escapar algumas mechas rebeldes que dançavam com o vento, como se se recusassem a obedecer o fim.
Era o seu dia de apresentação, o encerramento do festival.
Mas Lia sabia que, mais do que um número, aquele seria o último ato de uma história que nunca se permitiu terminar por completo.
A coreografia que criara, “Entre Rodas e Ritmos”, não era apenas uma dança.
Era um espelho. Um retrato de tudo o que viveu, do que perdeu, do que restou.
Era sobre ela.
Sobre ele.
Sobre o que o destino tentou apagar, mas que o corpo insistia em lembrar.
O entardecer chegou vestido de cobre.
O sol, cansado, se escondia atrás dos prédios e deixava o céu tingido em tons quentes de despedida.
O som dos microfones sendo testados misturava-se às risadas do público, ao cheiro distante de pipoca e à promessa de chuva no ar.
Dentro do pavilhão, as luzes iam diminuindo aos poucos, até que a penumbra se fez inteira.
Lia entrou no palco.
O figurino, um macacão cinza de tecido fino, com fitas azuis que refletiam a luz colava-se à pele, realçando cada curva, cada respiração.
Por um instante, quando o primeiro feixe de luz dourada a encontrou, ela pareceu suspensa no tempo, flutuando entre passado e presente.
A música começou.
Era um som suave, pulsante, com batidas que lembravam o deslizar de rodas no asfalto molhado.
Cada passo, uma lembrança.
Cada giro, uma resposta que o tempo havia guardado em silêncio.
Os dançarinos ao redor se moviam como engrenagens de um relógio, sincronizados, contínuos, girando em torno dela, a alma do espetáculo.
E Lia, no centro, movia-se como quem tenta reaprender a respirar.
A cada movimento, ela parecia costurar os pedaços de uma história antiga: o som da chuva, o brilho dos olhos dele, o gosto da primeira saudade.
E quando o refrão da música ecoou, seu corpo se arqueou em um gesto que não era mais dança, era confissão.
Os aplausos ainda não haviam começado, mas já não importava.
O que Lia fazia naquele palco era entregar o que restou de si.
Quando o último acorde soou, ela se ajoelhou no chão, arqueando o corpo para trás, o peito aberto, o olhar perdido nas luzes.
O silêncio que veio foi profundo quase sagrado.
E foi nesse silêncio que ela chorou.
Não por tristeza, mas porque, pela primeira vez, sentiu que a saudade tinha completado o ciclo.
As luzes começaram a subir devagar.
Revelaram o suor que brilhava no rosto dela e a lágrima que escorria sem que percebesse.
O público se levantou em aplausos, mas ela não ouviu nada.
Porque, entre todos aqueles olhares, apenas um o coração reconheceu antes dos olhos.
Gui estava lá.
Encostado na mureta lateral, de camiseta preta e jeans escuros, o cabelo bagunçado pelo vento, as mãos nos bolsos.
A luz do palco o alcançava de relance e naquele breve clarão, Lia viu tudo o que o tempo tentou esconder:
O mesmo olhar firme, o mesmo sorriso contido, o mesmo amor não dito.
Mas agora com um peso novo, mais real, mais humano.
Os olhos deles se encontraram.
E o mundo inteiro parou de respirar.
Camila, ao lado dele, também viu.
E entendeu com a nitidez c***l que só o amor inseguro conhece, que não havia como competir com algo que nasceu antes dela.
Com algo que nunca morreu.
Lia se levantou, agradeceu com um sorriso pequeno, e saiu do palco com o coração em chamas.
Sabia que algo dentro dela se fechava ali, mas também sabia que outra coisa, suave e eterna, permanecia viva.
Gui não se moveu.
Permaneceu parado, o olhar cravado no palco vazio, o peito cheio de lembranças que voltavam como uma onda silenciosa.
O som das palmas, distante, ecoava sem força.
Tudo o que existia naquele instante era a imagem dela, dançando, chorando, viva.
Camila sentia o peso da cena.
Sabia o que estava vendo, e sabia que estava perdendo, não um homem, mas o lugar que acreditava ter dentro dele.
O modo como Lia se movia era íntimo demais, como se cada passo tivesse sido criado para ele.
E era.
Quando Lia olhou novamente para o público antes de desaparecer pelos bastidores, o olhar dos dois se cruzou pela última vez naquele salão.
Foi rápido mas bastou.
Camila baixou o rosto, tensa, o maxilar firme, o sorriso travado.
Sabia que, naquele instante, não havia espaço para ela.
E não havia mesmo.
Do lado de fora, a noite já havia tomado a cidade.
O ar estava frio, e o cheiro de chuva voltava insistente, familiar, como uma lembrança que se recusa a partir.
Lia encostou-se à parede dos fundos do pavilhão, respirando fundo, tentando conter o tremor.
O corpo ainda pulsava no ritmo da música; o coração, no ritmo dele.
Fechou os olhos.
Ouviu o som distante da água escorrendo pelas calhas e da música que ainda vibrava no salão principal.
Sentiu o gosto salgado do suor misturado à chuva fina que começava a cair.
E entendeu: aquela dança havia dito tudo o que ela jamais teria coragem de dizer.
O vento soprou, trazendo o cheiro doce de terra molhada e o brilho amarelado dos postes.
A cidade parecia suspensa.
E foi ali, naquele intervalo entre o som e o silêncio, que ele chegou.
Gui se aproximou devagar, os passos leves, o olhar cansado.
Tinha o boné nas mãos, a camiseta preta úmida na gola, o cabelo pingando sob a garoa.
Encostou-se na parede ao lado dela, sem dizer nada.
Por um instante, apenas respiraram juntos, o som da chuva preenchendo o espaço entre eles.
— Sua apresentação… — disse ele, com um sorriso pequeno, sincero. — Foi linda.
Eu não sabia que você ainda conseguia me surpreender.
Lia sorriu, o olhos ainda fechados, o coração apertando de leve.
— Obrigada.
Ele chutou uma pedrinha no chão molhado, sem saber o que fazer com as próprias mãos.
— Sabe… às vezes eu penso que o tempo é como andar de patins. A gente cai, se machuca, aprende o equilíbrio, mas nunca esquece a sensação de quando acerta a manobra.
Ela o olhou, e nesse olhar havia ternura, compreensão e um tipo de saudade que não dói mais, apenas pesa.
— Eu entendo — disse apenas.
O vento soprou mais forte, levantando os fios soltos do cabelo dela.
Gui se aproximou um pouco, o suficiente para sentir o cheiro doce e fresco do perfume dela, misturado ao da chuva.
Os olhos dele baixaram para as mãos dela e, quando voltaram a subir, traziam o brilho de uma lembrança viva demais para ser enterrada.
— Eu pensei em cumprir uma promessa antiga — disse, com um sorriso tímido.
— Que promessa? — perguntou ela, curiosa e cansada ao mesmo tempo.
— Me deixa te ensinar a andar de patins.
Ela riu, surpresa, fechando os olhos por um instante.
— Então… — respondeu, abrindo-os, o olhar brilhando — quer andar comigo?
Ele estendeu a mão.
— Agora. Só nós. O som do vento e das rodinhas.
Lia hesitou.
Mas o olhar dele era o mesmo de antes, aquele que sempre a fazia dizer “sim”, mesmo quando o corpo inteiro gritava “foge”.
Gui colocou dois pares de patins no chão.
A rodas metálicas refletia a luz dos postes.
Ele estendeu novamente a mão, e ela, tremendo levemente, segurou.
Os dedos dele estavam frios e ásperos.
Os dela, quentes e leves.
Quando se tocaram, o tempo prendeu a respiração.
Lia calçou os patins insegura. Riu baixo de nervosismo, o riso que ele reconheceria em qualquer vida.
Gui a segurou pelas mãos, firme, guiando seus movimentos com cuidado.
Ela abriu os braços e sentiu o vento bater no rosto, os pés flutuando sobre o chão molhado.
A cena parecia saída de um sonho.
As mãos deles entrelaçadas, a outra mão dele a segurando pela cintura, e a respiração dos dois se misturava ao som suave das rodinhas riscando o asfalto.
A chuva fina caía em silêncio, transformando o momento em algo quase sagrado.
Eles riam, se equilibravam, e por um breve instante, o mundo voltou a ser simples.
Mas o toque dele demorou demais em sua cintura e quando os olhos se encontraram, o riso cessou.
O tempo, outra vez, pareceu parar.
— O que estamos fazendo, Gui? — perguntou ela, com a voz baixa, quase um sussurro.
Ele respirou fundo.
— Eu não tenho a resposta pra essa pergunta.
Ela o olhou, os olhos marejados, e sorriu com tristeza.
— Então é isso?
— Acho que sim.
— O fim certo pra nossa história?
— Talvez o fim, certo — repetiu ele, com um riso curto, sem força.
Lia deslizou até o meio fil e retirou os patins sentindo o chão frio sob os pés.
— Eu preciso ir.
— Cuida de você, tá? — disse ele.
— Sempre. — respondeu, com um meio sorriso. — E você, faz o mesmo.
— Prometo.
Ela começou a se afastar, devagar, os pés ecoando no asfalto molhado.
A chuva engrossava, o som das rodas ainda girando atrás dela.
Quando chegou à esquina, olhou para trás.
Gui ainda estava lá.
De pé, as mãos nos bolsos, o olhar preso nela, como se cada passo fosse uma lembrança que ele se recusava a soltar.
Lia sorriu.
Um sorriso pequeno, molhado, verdadeiro.
E então seguiu em frente.
O vento soprou, misturando o som das rodinhas, da chuva e da música que vinha de longe, uma canção que parecia deles, mesmo sem letra.
Porque alguns amores não terminam.
Eles apenas mudam o compasso.
E às vezes, o novo passo é seguir dançando com a lembrança do que um dia fez o coração se mover.