Sob a Chuva, o Que Ficou

1795 Words
O último dia do festival amanheceu sereno o tipo de serenidade que antecede os finais silenciosos. O céu, ainda lavado da chuva da madrugada, parecia suspenso entre o azul e o branco. Um vento leve atravessava as janelas do pavilhão, trazendo consigo o cheiro agridoce de madeira, tinta fresca e café recém-passado. Era o perfume dos lugares que estão prestes a se despedir. Lia observava o movimento lá fora, apoiada na moldura da janela. Dançarinos caminhavam apressados, rindo nervosos, carregando figurinos coloridos nos braços. Técnicos ajustavam cabos, jornalistas corriam com câmeras, e crianças curiosas se debruçavam nas grades tentando ver o palco. Do lado de dentro, o som metálico das estruturas se misturava ao burburinho de vozes, criando uma sinfonia viva de expectativa. Ela estava calma, mas não era o tipo de calma que antecede o medo. Era uma calma profunda, quase madura, dessas que só chegam quando o coração já se cansou de lutar contra o tempo. Vestia uma calça preta justa e uma blusa branca leve de algodão. O cabelo, preso em um coque frouxo, deixava escapar algumas mechas rebeldes que dançavam com o vento, como se se recusassem a obedecer o fim. Era o seu dia de apresentação, o encerramento do festival. Mas Lia sabia que, mais do que um número, aquele seria o último ato de uma história que nunca se permitiu terminar por completo. A coreografia que criara, “Entre Rodas e Ritmos”, não era apenas uma dança. Era um espelho. Um retrato de tudo o que viveu, do que perdeu, do que restou. Era sobre ela. Sobre ele. Sobre o que o destino tentou apagar, mas que o corpo insistia em lembrar. O entardecer chegou vestido de cobre. O sol, cansado, se escondia atrás dos prédios e deixava o céu tingido em tons quentes de despedida. O som dos microfones sendo testados misturava-se às risadas do público, ao cheiro distante de pipoca e à promessa de chuva no ar. Dentro do pavilhão, as luzes iam diminuindo aos poucos, até que a penumbra se fez inteira. Lia entrou no palco. O figurino, um macacão cinza de tecido fino, com fitas azuis que refletiam a luz colava-se à pele, realçando cada curva, cada respiração. Por um instante, quando o primeiro feixe de luz dourada a encontrou, ela pareceu suspensa no tempo, flutuando entre passado e presente. A música começou. Era um som suave, pulsante, com batidas que lembravam o deslizar de rodas no asfalto molhado. Cada passo, uma lembrança. Cada giro, uma resposta que o tempo havia guardado em silêncio. Os dançarinos ao redor se moviam como engrenagens de um relógio, sincronizados, contínuos, girando em torno dela, a alma do espetáculo. E Lia, no centro, movia-se como quem tenta reaprender a respirar. A cada movimento, ela parecia costurar os pedaços de uma história antiga: o som da chuva, o brilho dos olhos dele, o gosto da primeira saudade. E quando o refrão da música ecoou, seu corpo se arqueou em um gesto que não era mais dança, era confissão. Os aplausos ainda não haviam começado, mas já não importava. O que Lia fazia naquele palco era entregar o que restou de si. Quando o último acorde soou, ela se ajoelhou no chão, arqueando o corpo para trás, o peito aberto, o olhar perdido nas luzes. O silêncio que veio foi profundo quase sagrado. E foi nesse silêncio que ela chorou. Não por tristeza, mas porque, pela primeira vez, sentiu que a saudade tinha completado o ciclo. As luzes começaram a subir devagar. Revelaram o suor que brilhava no rosto dela e a lágrima que escorria sem que percebesse. O público se levantou em aplausos, mas ela não ouviu nada. Porque, entre todos aqueles olhares, apenas um o coração reconheceu antes dos olhos. Gui estava lá. Encostado na mureta lateral, de camiseta preta e jeans escuros, o cabelo bagunçado pelo vento, as mãos nos bolsos. A luz do palco o alcançava de relance e naquele breve clarão, Lia viu tudo o que o tempo tentou esconder: O mesmo olhar firme, o mesmo sorriso contido, o mesmo amor não dito. Mas agora com um peso novo, mais real, mais humano. Os olhos deles se encontraram. E o mundo inteiro parou de respirar. Camila, ao lado dele, também viu. E entendeu com a nitidez c***l que só o amor inseguro conhece, que não havia como competir com algo que nasceu antes dela. Com algo que nunca morreu. Lia se levantou, agradeceu com um sorriso pequeno, e saiu do palco com o coração em chamas. Sabia que algo dentro dela se fechava ali, mas também sabia que outra coisa, suave e eterna, permanecia viva. Gui não se moveu. Permaneceu parado, o olhar cravado no palco vazio, o peito cheio de lembranças que voltavam como uma onda silenciosa. O som das palmas, distante, ecoava sem força. Tudo o que existia naquele instante era a imagem dela, dançando, chorando, viva. Camila sentia o peso da cena. Sabia o que estava vendo, e sabia que estava perdendo, não um homem, mas o lugar que acreditava ter dentro dele. O modo como Lia se movia era íntimo demais, como se cada passo tivesse sido criado para ele. E era. Quando Lia olhou novamente para o público antes de desaparecer pelos bastidores, o olhar dos dois se cruzou pela última vez naquele salão. Foi rápido mas bastou. Camila baixou o rosto, tensa, o maxilar firme, o sorriso travado. Sabia que, naquele instante, não havia espaço para ela. E não havia mesmo. Do lado de fora, a noite já havia tomado a cidade. O ar estava frio, e o cheiro de chuva voltava insistente, familiar, como uma lembrança que se recusa a partir. Lia encostou-se à parede dos fundos do pavilhão, respirando fundo, tentando conter o tremor. O corpo ainda pulsava no ritmo da música; o coração, no ritmo dele. Fechou os olhos. Ouviu o som distante da água escorrendo pelas calhas e da música que ainda vibrava no salão principal. Sentiu o gosto salgado do suor misturado à chuva fina que começava a cair. E entendeu: aquela dança havia dito tudo o que ela jamais teria coragem de dizer. O vento soprou, trazendo o cheiro doce de terra molhada e o brilho amarelado dos postes. A cidade parecia suspensa. E foi ali, naquele intervalo entre o som e o silêncio, que ele chegou. Gui se aproximou devagar, os passos leves, o olhar cansado. Tinha o boné nas mãos, a camiseta preta úmida na gola, o cabelo pingando sob a garoa. Encostou-se na parede ao lado dela, sem dizer nada. Por um instante, apenas respiraram juntos, o som da chuva preenchendo o espaço entre eles. — Sua apresentação… — disse ele, com um sorriso pequeno, sincero. — Foi linda. Eu não sabia que você ainda conseguia me surpreender. Lia sorriu, o olhos ainda fechados, o coração apertando de leve. — Obrigada. Ele chutou uma pedrinha no chão molhado, sem saber o que fazer com as próprias mãos. — Sabe… às vezes eu penso que o tempo é como andar de patins. A gente cai, se machuca, aprende o equilíbrio, mas nunca esquece a sensação de quando acerta a manobra. Ela o olhou, e nesse olhar havia ternura, compreensão e um tipo de saudade que não dói mais, apenas pesa. — Eu entendo — disse apenas. O vento soprou mais forte, levantando os fios soltos do cabelo dela. Gui se aproximou um pouco, o suficiente para sentir o cheiro doce e fresco do perfume dela, misturado ao da chuva. Os olhos dele baixaram para as mãos dela e, quando voltaram a subir, traziam o brilho de uma lembrança viva demais para ser enterrada. — Eu pensei em cumprir uma promessa antiga — disse, com um sorriso tímido. — Que promessa? — perguntou ela, curiosa e cansada ao mesmo tempo. — Me deixa te ensinar a andar de patins. Ela riu, surpresa, fechando os olhos por um instante. — Então… — respondeu, abrindo-os, o olhar brilhando — quer andar comigo? Ele estendeu a mão. — Agora. Só nós. O som do vento e das rodinhas. Lia hesitou. Mas o olhar dele era o mesmo de antes, aquele que sempre a fazia dizer “sim”, mesmo quando o corpo inteiro gritava “foge”. Gui colocou dois pares de patins no chão. A rodas metálicas refletia a luz dos postes. Ele estendeu novamente a mão, e ela, tremendo levemente, segurou. Os dedos dele estavam frios e ásperos. Os dela, quentes e leves. Quando se tocaram, o tempo prendeu a respiração. Lia calçou os patins insegura. Riu baixo de nervosismo, o riso que ele reconheceria em qualquer vida. Gui a segurou pelas mãos, firme, guiando seus movimentos com cuidado. Ela abriu os braços e sentiu o vento bater no rosto, os pés flutuando sobre o chão molhado. A cena parecia saída de um sonho. As mãos deles entrelaçadas, a outra mão dele a segurando pela cintura, e a respiração dos dois se misturava ao som suave das rodinhas riscando o asfalto. A chuva fina caía em silêncio, transformando o momento em algo quase sagrado. Eles riam, se equilibravam, e por um breve instante, o mundo voltou a ser simples. Mas o toque dele demorou demais em sua cintura e quando os olhos se encontraram, o riso cessou. O tempo, outra vez, pareceu parar. — O que estamos fazendo, Gui? — perguntou ela, com a voz baixa, quase um sussurro. Ele respirou fundo. — Eu não tenho a resposta pra essa pergunta. Ela o olhou, os olhos marejados, e sorriu com tristeza. — Então é isso? — Acho que sim. — O fim certo pra nossa história? — Talvez o fim, certo — repetiu ele, com um riso curto, sem força. Lia deslizou até o meio fil e retirou os patins sentindo o chão frio sob os pés. — Eu preciso ir. — Cuida de você, tá? — disse ele. — Sempre. — respondeu, com um meio sorriso. — E você, faz o mesmo. — Prometo. Ela começou a se afastar, devagar, os pés ecoando no asfalto molhado. A chuva engrossava, o som das rodas ainda girando atrás dela. Quando chegou à esquina, olhou para trás. Gui ainda estava lá. De pé, as mãos nos bolsos, o olhar preso nela, como se cada passo fosse uma lembrança que ele se recusava a soltar. Lia sorriu. Um sorriso pequeno, molhado, verdadeiro. E então seguiu em frente. O vento soprou, misturando o som das rodinhas, da chuva e da música que vinha de longe, uma canção que parecia deles, mesmo sem letra. Porque alguns amores não terminam. Eles apenas mudam o compasso. E às vezes, o novo passo é seguir dançando com a lembrança do que um dia fez o coração se mover.
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