NARRADO POR PILAR — O ESPELHO DA ALMA QUEBRADA A luz da manhã entrou pelas frestas da cortina de seda como agulhas perfurando meus olhos. Eu não dormi. Passei a noite inteira em uma espécie de limbo, sentindo cada batida do meu coração ecoar nas partes do meu corpo que ainda latejavam. O cheiro dele aquele cheiro acre de uísque, suor e pó parecia impregnado nos lençóis, na minha pele, no meu pulmão. Me arrastei para fora da cama. Cada movimento era um lembrete da sua brutalidade. Senti o sangue seco no canto da boca e o peso do meu rosto, que parecia maior de um lado. Caminhei até o banheiro e parei diante do espelho. A mulher que me olhava de volta era um fantasma. Onde estava a Pilar que sorria nas colunas sociais? Onde estava a herdeira que o pai vendeu para salvar as empresas? O

