Entro no elevador do prédio com Charlote, minha melhor amiga reclamando no telefone. Acho que quando estávamos no quarto ano do colégio, fizemos um pacto da amizade. Gostar e odiar as mesmas pessoas.
Parecia simples. Eu poderia matar alguém, ela iria me ajudar com o corpo.
O fato é que, ela não me julga. Ela faria pior que eu, então confio nela. Acredito na solidez da nossa amizade.
"Você devia ter jogado o carro nele, Anny."
Viram?
Ela está falando do meu ex-namorado. Em um termino, isso vira pauta por algum tempo. Ainda mais com plano de vingança.
"Não iria doer tanto."
"Vai mesmo continuar? Veja, só deixa eu ser um pouco da sua consciência."
"Charlote..."
"Vai pegar o pai dele? Você só sabe que os dois não conversa faz anos. Nem sabe o verdadeiro motivo pra isso. Se for um homem ruim?"
"O senhor Dominic não é um homem ruim. Ele é bom, muito bom. Deus devia estar com um ótimo humor quando criou ele."
Dou um sorriso, lembrando do encontro de domingo a tarde.
"Você alugou um apartamento muito caro. A princesa não vai parar, não é mesmo?"
Suspiro fundo, olhando o reflexo da mulher pelo espelho do elevador.
"Lucas merece, ele me machucou."
"Não gosta mais dele, não é?"
"Sinto raiva, mas amor? Amor eu parei de sentir quando vi ele pelado comendo outra. De verdade? Não existe amor nesse caso. Talvez nunca houve de verdade."
Saio do elevador e por um segundo paro de andar.
"Amiga, eu já te ligo de volta."
Falo, desligando o celular. Eu quase volto para o elevador, mas ele já fechou.
O homem alto, sem terno e batendo na porta não parece feliz.
O vislumbre de Lucas, parado na minha porta. Não é bom.
Suspiro fundo, até penso em sair.
Mas eu caminho com passos firmes.
Eu pensei que ele fosse descobrir onde eu estava morando agora, mas tão rápido?
Ele se vira, parece que estou em um filme.
Vejo Lucas parado à porta do meu apartamento e um arrepio percorre minha espinha. Seu olhar furioso me atinge como uma flecha, mas não me intimido. Ele pode ter sido o meu passado, mas agora eu sou a dona do meu próprio destino.
Faz quinze dias que eu fico triste e penso no tempo que ficamos juntos. Era tudo mentira.
Lucas não foi honesto comigo e aquilo me quebrou.
Mas agora, No presente, sou eu quem está no controle.
"Então é aqui que estão escondendo você? Em uma cobertura de alto padrão no centro da cidade? Sempre sendo tratada como uma princesa, Anny."
Ele está ali, parado como se tivesse todo o direito de estar naquele lugar. O rosto dele não traz nenhum traço de arrependimento, apenas a mesma expressão petulante de sempre. É incrível como alguém pode ser tão cara de pau.
Ignoro a vontade de me esconder e dou um passo em frente, firmando os pés no chão com determinação. Afinal, eu não tenho nada a temer. Ele pode ser o ex-namorado traidor, mas eu sou Anny Colin, e não vou deixar que ele estrague meu dia.
Enquanto me aproximo, não consigo evitar observar Lucas mais de perto. Ele está diferente desde a última vez que nos vimos. Talvez seja o peso da culpa ou apenas o resultado de passar duas semanas sem a minha presença para iluminar os seus dias. De qualquer forma, é bom ver que a vida está lhe cobrando o preço pelos seus erros.
Com um sorriso irônico, cumprimento-o com um aceno casual.
"Olá, Lucas. O que te traz aqui? Perdeu o seu cachorrinho?"
Ele parece desconcertado por um momento, mas logo recupera a compostura.
"Anny, precisamos conversar. Acho que agi de forma precipitada e..."
"Ah, sério? E desde quando você se importa com agir de forma precipitada?"
Interrompo-o, sentindo uma pontada de satisfação ao ver sua expressão se contorcer.
Lucas tenta se recompor, mas é tarde demais. Eu já perdi a paciência com ele há muito tempo. Ele pode estar tentando se desculpar agora, mas não há desculpa para o que ele fez. Ele quebrou minha confiança, e isso não se conserta com palavras vazias.
"Não tenho tempo para as suas desculpas, Lucas. Você teve a sua chance e jogou tudo fora. Agora, se me der licença, tenho planos muito melhores do que perder tempo com você."
Antes que possa passar por ele, ele segura meu braço.
"Perdi anos investindo em nós dois. Não pode me descartar por um erro bobo."
Quando descobri que Lucas me traiu, senti como se o mundo desmoronasse ao meu redor. Cada palavra cortante, cada mentira descoberta, perfurou meu coração como uma faca afiada. E depois disso, ele simplesmente espera que eu o perdoe e volte ao normal? Como se nada tivesse acontecido?
"Para mim, trair não é apenas um erro bobo. É uma quebra de confiança, uma facada no coração que deixa cicatrizes profundas. É como se toda a base do nosso relacionamento desabasse em um instante, deixando-me sem chão. Então não ouse falar que foi um erro. Voce escolheu comer alguém, não foi um erro! "
Ele pode achar que trair é apenas um erro bobo, mas para mim, é muito mais do que isso. É uma ferida que vai demorar muito tempo para cicatrizar, se é que algum dia vai. E ele vai ter que lidar com as consequências das suas ações, quer ele goste ou não.
Vou continuar com meu plano.
"Anny, eu amo você."
Ele tenta se aproximar, mas eu afasto ele.
"Vai embora daqui, você passou anos comigo. Se não queria ou era só por conveniência, devia ter me liberado. Eu odeio perder meu tempo. Sinto que fiz isso com você, Lucas."
"Eu imploro, me perdoa e vamos conversar. Eu posso mudar. Posso melhorar e as coisas vão ser diferente."
O celular que estava na minha mão, eu aperto com força. Quero jogar Lucas da janela no fim do corredor.
"Vai embora, Lucas."
Quando ele tenta me encostar, eu desvio dele.
"Eu tinha planos pra nós dois. Pra mim e pra você, Anny. Não pode falar que acabou assim. Você é perfeita pra mim."
"Parece que nem tanto, não é mesmo? Olha Lucas, eu sempre estudei, tive minhas coisas e sabia o que queria. Posso ser privilegiada. Ter minhas coisas graças a minha família. Mesmo tendo tudo, eu aprendi a valorizar. Valorizar pessoas e não dinheiro. Eu fiz isso com você. Mas quando foi que pensou em mim? "
" Anny? "
Sinto o emocional bater em mim.
" Acabou, tenho raiva do que fez comigo e se pudesse fazia você sentir o que eu senti, Lucas! "
" Você tem que me perdoar. "
Ele se aproxima e dessa vez ele segura meus braços e me impede que saia de perto dele. Posso sentir o cheiro dele, a boca carnuda e os cabelos bagunçados.
" Tire suas mãos de mim. "
" Eu gosto de você. Eu apenas cometi um erro. "
" Você escolheu fazer isso, não mude os fatos."
"Anny, pare com isso. Volta pra mim."
"Eu quero que suma da minha vida. Você aqui só me faz ter mais nojo de você."
"Anny..."
Ele ainda tenta me beijar e eu me encolho, fico imóvel e apenas tento me soltar das mãos dele. O tamanho dele é maior que o meu. Ele tem força e jeito.
Até tento chutar as bolas dele. Mas ele me leva pra parede e me segura contra ela.
Minha respiração fica ruim.
"Tire suas mãos de mim!"
"Você tem que me ouvir. Saber que amo você."
"Eu não quero escutar nada. Você fez isso. Agora aguente."
"Volta pra mim, Anny. Não tem mais ninguém além de mim pra você. Somos perfeitos um para o outro. Não vou soltar você. Você é valiosa demais."
"Tire suas mãos de mim! Eu não quero nada com você! NADA!"
Ele aperta meus braços. Sinto dor, agora não só emocional, física.
Aquilo me deixa assustada. Ele está irritado.
"Você não pode me tratar como lixo e dizer que tudo acabou."
"Eu te dei tudo que eu tinha. Eu estava ao seu lado. Você errou, agora suma da minha vida."
"Eu não vou deixar você ir. Acha que pode se livrar de mim? Você é minha, Anny. Se eu souber de alguém com você, eu sou capaz de matar!"
"Solte meu braço, você vai me machucar!"
"Então volta pra mim. Eu vou mudar."
"Eu vou gritar."
Ele aperta ainda mais meu braço. Me força contra a parede.
Estou assustada. Meu coração bate forte.
Por um segundo, ele olha para o lado, as mãos dele soltam meus braços.
"Acho melhor se afastar dessa jovem, Lucas."
Quando escuto a voz, eu ergo o olhar.
Na nossa frente tem um homem alto e bonito, parece um Deus em personificação humana.
Céus, nunca pensei que poderia pensar isso. Mas ele fica tão sexy de terno.
Era Dominic.
O pai de Lucas.
"Pai?"
"Como vai, filho?"